sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Arquitetura poética

Desterro, de Camila Assad, é, sem dúvida, o livro mais peculiar que já esteve em minhas mãos. Ou pelo menos desde que comecei nessa tarefa de resenhar. A capa já mostra a que veio com a imagem de prédios em um projeto gráfico impossível de passar despercebido. As cores, as formas, a fonte usada tanto para o nome do livro quanto para autora e ilustradora - crédito para Anna Brandão - são dignas de admiração.


Aqui não posso deixar de citar Otávio Campos, o responsável pelo projeto gráfico, porque o livro da Camila, embora recheado de boa literatura, funciona como deve pelo empenho deste profissional em dar a forma necessária para que o livro dê seu recado.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro é que tanto a ficha técnica quanto o sumário estão no final do livro. Ok, isso não é inédito nem parece ter nada de extraordinário, só que nesse livro, na proposta dessa poética, terminar o livro com o que tradicionalmente é o começo já é por si só parte da poesia. O prefácio foi trocado pelo posfácio, a estrutura lírica por uma arquitetura literária que, pra mim, foi inédita.

Ao longo do livro, as relações entre poesia e arquitetura não são sutis, embora tenhamos as linhas, as esquinas, os formatos de uma cidade de forma simbólica também na construção dos versos, como mapas que contam uma história. Mas nada disso é fruto da minha genialidade, infelizmente não chego tão longe na minha capacidade de abstração do fazer poético. O causo é que o livro abre com a frase "Construir cidades significa também uma forma de escrita".

Mesmo muito curta, a frase me levou a um bom tempo de reflexão. Faz sentido. Eu mesma já caminhei pelas ruas caçando a poesia em suas formas. Por vezes uma poesia doce, quase melódica, por vezes uma poesia fétida, digna de Augusto dos Anjos, mas as esquinas contam histórias. Os prédios, as lojas, as conversas em pontos de ônibus. Tudo isso está contido nessa frase que abre o livro, já que tratamos aqui não somente de uma cidade de tijolos, concreto e barras de ferro, mas de espaços urbanos.

Camila explica a relação da arquitetura, do ser cidade, com o fazer poético magistralmente, como quando diz "Quando um palacete se transforma em um cortiço confere-se um novo significado para o território, escreve-se um novo texto".

Eu nunca tinha parado pra pensar nas semelhanças de uma edificação com a literatura. Essa frase soube expressar com precisão. As histórias dessa mesma edificação são completamente modificadas e transformadas quando os nobres que outrora habitaram o palacete o abandonam e os espaços passam a ser ocupados por famílias, muitas delas, cujas histórias de vida são absurdamente diferentes. O aspecto do palacete mudam, tudo nele muda, embora ele permaneça uma edificação de igual tamanho fixo exatamente no mesmo endereço.

Não se muda a forma, mas se muda o conteúdo. As palavras são as mesmas, o que as diferencia é o modo como o escritor vai usá-las. Metáfora brilhante. As metáforas não param por aí, a imagética de uma casa abandonada com todos os elementos do abandono relacionados com a subjetividade de uma pessoa em igual situação é de uma beleza única. Como se homem e objeto, pelo poder da dor, do sobrar, da não-humanidade, fossem capazes de entrar em simbiose.

Nessa jornada de palavra-cidade, Camila pontua a solidão do coletivo. Somos forçados a viver na coletividade, já que a cidade está sempre cheia de gente, o que não significa que não estejamos completamente sozinhos. Segue para o apontamento das coisas brutas e do falocentrismo, encontrada em qualquer espaço urbano, mostrando que mesmo sendo A cidade, o espaço urbano foi pensado masculino, até que cheguemos no ponto onde o projeto gráfico contribui para contar essa história.

Na página 19, Camila nos diz: "(as mulheres trabalhadoras não vivem propriamente o espaço público, mas o atravessam para garantir a manutenção familiar)", é a história de Tereza, que, mãe de 3 filhos, usa os espaços urbanos vendendo de tudo para alimentar as crianças. Seus trajetos são destacados por flechas, pela contabilidade do tempo no transporte público, na impossibilidade de Tereza, trabalhadora, mãe, pobre, de ir ao mar.

O que faz de uma casa uma casa é onde você se reconhece, decreta em uma poesia na página 21, ainda seguindo esse tracejado diferenciado de um projeto arquitetônico onde vamos de uma viga à um porão sem nem perceber.

Meu golpe fatal, ainda bastante antes de encontrar o ponto final, vem do "ele me diz que há trinta formas de matar um porco e eu responto que há muita solidão em qualquer esquina de qualquer cidade". Há mais de trinta formas de matar alguém de solidão. Há muita solidão em qualquer esquina. Há de se morrer de solidão mesmo sendo obrigado a viver no coletivo cheio de rostos anônimos que, como as edificações, fazem de suas expressões as paredes que impedem de enxergar o papel de parede ou que tipo de flores decoram o ambiente.

A dor vem como um golpe de cimento quando, em um de seus poemas, Camila nos diz "a leitura das mãos lhe revelou: bom esposo, três filhos, dois cachorros e um sobrado com mofo na vila madalena (próximo ao metrô, uma vaga na garagem) / raspou até sangrar as palmas no asfalto". Não é uma simples não aceitação do destino que as linhas da mão parecia impôr, mas um desencontro entre ela e a própria atmosfera da cidade.

Os textos que fecham e cidade de Camila são quadrados como edificações, embora muito bem decorados com flores ou teias de aranha.

Daria pra dizer, aproveitando as metáforas que a autora mesmo usou, que Camila construiu um livro.
Essa cidade de palavras, como qualquer outra, tem jardins e bueiros.

Um bom passeio a todos.
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Desterro
Camila Assad

Edições Macondo: Juiz de Fora, 2019
83 páginas
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Camila Assad é autora dos livros "Cumulonimbus" e "eu não consigo parar de morrer". "Desterro" foi premiada pelo ProAC/SP na categoria "Criação Literária - poesia".

~Maya
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