segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Pela dor

Talvez seja o caso de um estudo mais profundo, embasado, mas a poesia parece galgada sobre três pilares centrais: a ode, o amor e a dor. E a rima de amor com dor que nos acompanha desde os tempos pré-púberes.

Tem poesias cuja contundência das palavras de ordem ou a imagética do caos nos transmite a dor do tema tratado. Ou o tesão, dependendo do poeta. Tem outros que, com a simplicidade de uma folha ao vento, carregam todo o sentimento do mundo em um único verso.

E tá cheio de gente fazendo isso de forma subliminar entre palavras bonitas e um aperto no peito que vem sem a gente, o leitor desavisado, sequer perceber.

A beleza da poesia está justamente em nos tocar profundamente sem a gente sequer perceber de fato o que está acontecendo.

Conheçam agora o trabalho de Lucas Luis da Silva:

FUGIDIO
Marco-me à ferro, ferradura.
Marco-me como são marcados
os animais distraídos:
ausente de eternidade.
A cabra-burra pávida
pela altura.
Marco-me ao chão, 
cabeça-baixa,
discernindo esquinas.
Quem em sã-consciência
orbita o céu sem refletir
todo seu azul-piscina?
________________________________

CULT
as mensagens de Delfos
insurgem criptografadas
pela pitonisa digital:
devorar-se beats
um título marginal
ei-lo o culto 
código de barras
na poesia pós-m.
_______________________________

BOA-NOVA
A cada um cabe sua visão de paraíso.
O Éden particular inserido ao cerne.

Rompido os versos bonitinhos
& as rimas piegas,
nenhum livro histórico herdará 
meu nome com destaque.

Amor & dor não mais siameses. 

Acumulo palavras, e serão elas,
Ozymandias, o testemunho
da minha essência,
essa decadência 
imanente.
__________________________________

RUÍDO
Algumas vezes afirmaram-me ser diferente
o verso agasalhado em minha linha.
Por desconhecer reações tomo o elogio 
em mãos como um peixe.

Sonho a beleza incômoda 
de bastar-me miúdo.

Mas não sem antes desabarem sobre mim 
todas as pragas egípcias: que valor terão 
esses pobres traços em décadas?
Serei poeta apenas com a palavra
talhada em insuficiência?
Que definirá esse ruído em meio 
os ecos de Hesíodo produzidos 
aos baldes?

Nada sou que não sejam outros milhares. 
Outros melhores.

Eu homem não-título investindo
contra vida à qual sigo 
estrangeiro.

__________________________________

Lucas Luiz  nasceu em Guararema no ano de 1991. Continua em pé, embora carregue a sequela da invisibilidade. Iniciou publicando crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois poemas no site de variedades “Guararema Tem”. Redator do programa "Guararema Online" da Produz Áudio&Vídeo. Recentemente colaborou com as Revistas Literárias: Avessa, Inversos, LiteraLivre, Ser Esta, A Bacana, Subversa e Mallarmargens. Também com uma participação na Antologia “Além do céu, além da terra” da Editora Chiado. Segue sem exceder os limites do município. Ou já o fez sem que ninguém perceba.

~Maya
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sábado, 28 de setembro de 2019

Pelos cantos mais estranhos do mundo

Quando eu era mais ou menos uma pré-adolescente, comprei um exemplar de Romeu & Julieta, de Shakespeare, não por interesse na história porque todo mundo conhece a história, mas para levar para a escola e mostrar pra todo mundo que eu lia Shakespeare. O que eu não vi na hora da compra é que o livro veio em formato de roteiro de teatro. Acima de tudo, Shakespeare era dramaturgo, e na época eu sequer sabia que essa palavra existia. Não consegui ler o livro.

Passados uns 25 anos de minha pequena "tragédia" particular, chegou em minhas mãos a obra "Nos países de nomes impronunciáveis", de Paula Autran. Para além de um nome instigante e uma capa espetacular, me deu arrepios ver, logo acima do nome do livro, os dizeres "Coleção Palavras para Teatro". Socorro. Paula Autran é dramaturga, já anunciei o livro dela para resenha no Bibliofilia, e agora?

Bom, entendo vários nadas de dramaturgia, então sou absolutamente incapaz de dizer se o texto que o livro contém é o mesmo trabalhado sobre os palcos ou se foi adaptado para a publicação, só sei que, ao contrário do meu exemplar há décadas doado de Romeu & Julieta, "Nos países de nomes impronunciáveis" não é apenas fácil de ler: é uma delícia. É importante frisar que, para a análise completa da obra e seus personagens, algumas das diversas revira-voltas serão reveladas. Portanto, contém spoiler.


O resumo da ópera (ou da peça, no caso) é que temos três mulheres que arrumam as malas e saem de casa, deixando para trás somente uma carta aos que ficaram. A primeira é Kátia, uma jovem que passou a vida trancada em uma casa cheia de cadeados porque a mãe temia que a propriedade fosse invadida por bandidos. A segunda é Ocridalina, uma jovem que sente que precisa viver a liberdade antes de assumir um compromisso concreto com o namorado Henrique, mas principalmente, precisa descobrir a origem de seu nome peculiar. A terceira é Joana, uma mãe que sente que se perdeu de si mesma depois da maternidade embora esteja claro o amor que sente pelo filho.

Cada uma dessas três mulheres, distintas entre si e fugindo de relacionamentos de naturezas tão diferentes, tem motivos fortes para a necessidade que as impele à fuga. Todas as cartas, as primeiras, assumem um tom de desabafo com grande profundidade, como se a autora assumisse integralmente os sentimentos de cada uma delas ao escrever as cartas - e é o que se espera de um bom escritor.

Kátia, ao se despedir da mãe e de sua paranoia, o faz dizendo "eu sou o ladrão que, ao invés de entrar, sai. Assim não te tiro nada, mas te trago, pela ausência". Kátia sentia uma solidão profunda isolada em uma casa transformada em fortaleza, "era eu que ia lá e areava todos aqueles cadeados e tirava o pó das chaves todas". Para além disso, não apena o isolamento causado pela fortaleza, mas também pela ausência da mãe. Relembra Kátia que suas melhores lembranças de infância viveu ao lado da empregada, Maria José, e seus livros de bancas de revistas e novelas mexicanas.

Mais tarde, quando temos um adendo das três cartas, ainda descobrimos que a mãe de Kátia nem sempre se lembrava de pagar o salário da empregada. Kátia se sente dolorida, abandonada como toda criança negligenciada, mas com um agravante: ela sente, pelo foco constante da mãe na manutenção da casa sempre fortemente vedada, que, para a mãe, o bandido imaginário era mais importante do que ela, ou pelo menos era a ele destinada muito mais atenção do que a ela.

Seguimos para a carta desabafo de Ocridalina, "entenda o que as palavras não podem dizer", relata ela ao se revelar oprimida por uma relação que parece estar ficando séria demais para seus desejos de liberdade, em especial sobre um anel que representou um amor desses avassaladores; o anel que pertenceu à mãe de Henrique e seu casamento com o pai do rapaz. "Eu quero entender a coragem que sinto em mim, e que às vezes percebo que te assusta", diz ela, declarando em seguida que se assusta também, mas que precisa, como Cabral, se lançar aos mares. Aqui a referência é justamente sobre sua sabida origem portuguesa.

Ao fim da carta, Ocridalina não deixa dúvidas de que não importa o tamanho do amor, o que ela sente por Henrique não cabe nos limites dos sonhos matrimoniais do rapaz. O que impressiona nessa carta é que, ao ler, a sensação que se tem é que já se tratava de um amor esvaziado, que a fuga de Ocridalina foi, na verdade, uma tentativa de encerrar a relação. Depois da tristeza de Kátia por uma infância de clausura e de negligência da mãe, o sentimento de dor não se repete, o que se percebe aqui é quase uma desculpa para fugir da relação. A diferença entre as narradoras é gritante, são vozes destoantes cujas personalidades são expostas por alguém que tem o domínio na criação de personagens.

A terceira carta, por sua vez, é a que trouxe a maior carga dramática. Joana é mãe, sente-se envergonhada em escrever uma carta de despedida ao filho, como se confessasse um crime. Joana descreve sua despedida como uma "descarta", uma "não-carta". Em dado momento, Joana desabafa: "Você nasceu grande e eu me fiz cada vez menor do teu lado. Você aprendendo a falar e engolindo as minhas palavras".

A carta de Joana carrega em si a maior carga dramática e traz à tona um dos assuntos mais cheios de tabu que a maternidade carrega: a anulação completa de um ser humano ao tornar-se mãe. Joana ama o filho. A dor de partir e deixa-lo para trás é evidente em cada linha e quase nos estapeia as fuças. Eu, que não vivo a experiência da maternidade, pude sentir profundamente a culpa que Joana carrega pela decisão de partir.

Eis que se desdobra um debate importante - e que faz dessa carta um material riquíssimo para análises mais profundas e técnicas para quem estuda e trabalha com os desafios e imposições sociais da maternidade: Paula aqui não mede palavras, nem sobre a anulação de Joana ao se tornar mãe e deixar de ser Joana, nem sobre o quanto essa mulher anulada nutre um amor concreto e inquestionável pelo filho. Cabe múltiplas interpretações, se colocada a carta no nosso contexto social onde a mãe é uma figura de quase sacralidade (ao mesmo tempo que sofre isolamento com a proibição de crianças em vários ambientes e a polêmica sobre amamentação pública, que faz com que muitas mães sejam empurradas para fora do convívio social) e uma mulher é um ser de menor valor diante de seu papel maternal.

Joana, que descobrimos depois ser poliglota e com notável conhecimento em línguas, se sente absolutamente silenciada. "eu aprendi que o silêncio é só a outra face da mesma moeda da fala". O relato de Joana, além de todas as questões sobre maternidade que renderiam uma tese inteira, ainda tem um importante tratado sobre o silêncio. Para ela, buscar o silêncio onde ele é exigido já não lhe basta porque, poliglota, entende que o silêncio dela e de alguém que fala em inglês é idêntico.

O que ela precisa é da incapacidade de se comunicar, um silêncio de incompreensão, para resgatar a si mesma, e, por isso, decide partir para algum país cuja língua lhe seja um completo mistério. Ainda assim, no adendo de sua carta, Joana deixa ao filho, Caio, receita de lasanha de legumes para aproveitar os legumes que estão na geladeira, em uma tentativa de dar ao filho algum tipo de autonomia e a si mesma um pouco de paz.

Findadas as cartas, descobertas nossas viajantes para países de nomes impronunciáveis, vamos recebendo notícias de que fronteiras estão sendo fechadas por motivos diferentes.

Como não há uma narrativa linear por parte de Paula, em uma leitura desatenta é provável que passe despercebido esse detalhe, mas a cada notícia de fechamento de fronteira, temos a carta resposta a cada uma delas, presas em embaixadas de países com nomes impronunciáveis.

Clarice, mãe de Kátia, adquire quase um tom debochado, como se encarasse a atitude da filha como um ato de rebeldia juvenil. Ao contrário da carta de Joana - outra mãe - Clarice zomba, justifica que os cadeados eram mesmo contra ladrões e, como se diz popularmente, "faz pouco caso" do desabafo da filha, que não escondeu seu sofrimento na primeira carta.

Não há como se ter empatia por Clarice. Não há por ela o amor materno que há de Joana por Caio. Por mais que a própria sociedade no leve a entrar na pele de Kátia e sentir com ela o sofrimento do abandono (mesmo que não concreto) que a levou a sair de casa, fica ainda a sugestão de reflexão sobre a anulação completa da mulher que se torna mãe. Clarice é dona de si. O que a torna aqui alvo de crítica - e essa sim, válida - é que Clarice é uma dona de si com ar de arrogância que tentou, inclusive, tirar da filha sua única lembrança boa da infância, e que esquece de pagar o salário da empregada como se a única coisa que realmente importasse, além de si mesma, fosse defender sua propriedade. Mesmo que alegue tentativa de proteger a filha, ali o que vale ainda é a ideia de propriedade.

Depois da próxima notícia que nos situa na prisão de Ocridalina em uma embaixada, a resposta de Henrique muda toda a imagem criada pela carta dela sobre a relação dos dois. Não se trata de uma moça indisposta a se manter na relação dos sonhos do namorado, tradicional, com o anel símbolo do amor eterno e verdadeiro. Henrique tampouco está interessado em uma relação dessa natureza. Inclusive está furioso que Ocridalina deixou a chave com o porteiro.

Nessa segunda carta resposta, nos deparamos com uma história que completa o quadro de uma forma basicamente oposta à esperada pela carta deixada pela moça. Foi um choque me deparar com uma carta seca, com um tom raivoso, e não um namorado choroso implorando pelo retorno da namorada. Uma grata surpresa, aliás, uma quebra completa de expetativa. 

Já caio, filho de Joana, se revela um rapaz que, mesmo adulto, se viu completamente perdido com a ausência da mãe, e nos revela surpreso ao ver uma filóloga, "tradutora das Mil e Uma Noites, uma mulher reconhecida e premiada pela potência de sua fala em quase uma dezena de línguas ter sido presa pelo que eles chamaram de: 'falta de comunicação'". As informações reveladas por Caio em sua carta dão uma dimensão ainda maior do drama relatado por Joana em sua despedida. Uma mulher que trabalha, vive e é reconhecida por sua fala sente que perdeu a voz.

Antes de um desfecho - e aqui encerram-se os spoilers - o resto recomendo a leitura do livro porque novas surpresas virão - ainda temos a notícia da abertura das fronteiras com a possibilidade de volta para a casa das três mulheres e os depoimentos de Maria José - empregada de Clarice - Jaílson, o porteiro no prédio de Henrique, e Marcinha, namorada de Caio. A partir daí as cartas são substituídas por bilhetes

A abertura das fronteiras poderia representar, de forma simbólica, um retorno ao ponto de origem sem uma solução concreta dos fatos que levaram as três mulheres a terminar em países de nomes impronunciáveis. Como prometido, encerrados os spoilers, não posso seguir adiante relatando os fatos do livro, então me atenho a uma última análise de tudo o que nos é apresentado nesse pequeno livro.

Temos três mulheres que vivem três tipos de relações arruinadas: a mulher negligenciada pela mãe, a mulher que vive uma relação fracassada com o namorado e a mulher que se percebe completamente anulada em sua relação com o filho. O desfecho da obra, tanto os bilhetes de um lado quanto de outro deixam a falência dessas relações ainda mais nítidas e dramáticas, embora em momento algum a obra apresente um tom lamuriento ou piegas.

Paula Autran nos apresenta um livro que, mesmo com temas tão sérios, é uma leitura leve e cativante, além de escancarar sua imensa habilidade na construção de personalidade dos personagens, já que temos Kátia, Clarice, Ocriadlina, Henrique, Joana, Caio, Maria José, Jaílson e Marcinha não apenas como personagens da trama, mas como narradores, os 6 primeiros de forma mais contundentes e os últimos três de forma mais rápida, nos depoimentos. 6 narradores principais com uma personalidade bem definida não é uma tarefa fácil, exige treino, experiência e trabalho.

Como disse no começo do texto, não sei se o livro está no formato de dramaturgia, mas, mesmo identificado como texto de teatro e mesmo sendo sua autora uma dramaturga, trata-se de uma peça de ficção de indiscutível qualidade. É um livro em formato de bolso, de 87 páginas, inteiro no formato de cartas, bilhetes, depoimentos e pequenas notícias, mas que construiu com maestria três tipos de relações falidas, abrangendo um enorme campo simbólico sobre cada personagem e sua personalidade. É um feito louvável, em especial se fizermos um paralelo entre as duas mães e suas visões sobre a maternidade. Renderia um excelente debate.
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Nos países de nomes impronunciáveis
Paula Autran

Patuá: São Paulo, 2014
87 páginas
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Paula Autran é mestre (e doutoranda) em artes cênicas pela ECA/USP. É formada em história (USP) e jornalismo (PUC). Tem seis livros publicados, entre eles o livro de poemas Manifesto de mim mesma (editora Patuá). Teve sete peças encenadas. Integrou o Núcleo de Dramaturgia do CPT, de Antunes Filho, e o workshop do Royal Court Theatre. Também ministra aulas de dramaturgia.


~Maya


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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

De palavras e vozes - o talento de Arthur

Conheci Arthur na praça central da cidade em uma ação pelo dia da poesia, no início do ano. Apesar da altura e da imponência, Arthur ainda é um garoto. Quando ele me enviou sua biografia, brincamos com o fato de que ele nasceu no meu segundo ano da primeira graduação. Coincidentemente, Arthur prestigiou a apresentação do meu TCC na segunda graduação.

Sem nenhuma publicação (ainda), Arthur já impressiona pelo currículo, pela participação ativa em eventos e iniciativas culturais e por ser membro e um dos idealizadores do Coletivo Cerco Arte - Ser com Arte, um grupo de jovens escritores engajado na causa cultural, falei deles aqui.

Entretanto, além do trabalho poético e do engajamento em políticas culturais, o jovem Arthur também é um declamador de primeira categoria. Já solicitei que ele me enviasse uma declamação em vídeo para enriquecer ainda mais o conteúdo do blog, espero que ele o faça rápido (isso é uma intimação, Arthur!).

Enquanto suas declamações ainda não estão disponíveis para o público Bibliofilia, ficamos com um de seus poemas, escolhido por ele mesmo. Boa leitura!

cânticos abstratos para um amor inominável

I
Evoco teu nome
cometa de carne humana
me leva para as estrelas
me foge de tudo
me deseja com teus lábios cadentes
só corre
não olha para trás
vamos morrer no espaço
abraçados
longe de tudo
pertinho do planeta a-marte
combustão sideral
amor galáctico e molhado
ciência da nossa indecência
clemência
universo-paixão

II
como me fere
as unhas compridas
ferinas da palavra desamor
ex-amor
nunca amor
por tanto que ardo
venero
idolatro essa figura
noturna
mistério
baú
manhã cinza
sândalo da minha narina
que é meu medo também
faca
babaca
esse sentimento
de acabar te afastando
matando meu mundano
por tanto te querer


III
lua
quem me dera a pele fosse nua
sem pudor
crua
amizade não fosse desculpa pra não beijar
amar sem receios
abaixo pesadelos
olhos
preconceitos
tomar pedaços de escuro
no escuro
ou na luz do dia
vadia
se eu gritasse mais
falasse sem dó
seria tão feliz
tão livre
cantando ao sol lá si
e a lua safada como riria
por estar sem roupa
e não dar a mínima

IV
ama
ama-me
amor
amante
amado
amando
amém

V
socorro
meu maior medo
a flor vai morrer
secar na primavera
quanto mais passam os dias
mais longe de mim
menos vida
menos espera
chega a tempestade
caminhando em linha torta
em rota de cravos engomados
desalinhada
tosca
espinhenta
sem o mesmo cuidado
nenhum coração
aa
socorro
a luz vai sufocar
o amor vai acabar
fotossíntesereversa
teu fogo apaga
e o meu só cresce
mais
mais

VI
quero beber hidromel
leite condensado
beijar ardente
e vodka
veneno
que tal
não deve fazer tão mal
para quem já está bêbado assim
de vida
de prazer
como me dói em dizer
que guardo tudo isso comigo
tudo
toda essa vontade
todo esse desejo que tenho de você
por quê
porque mundo
por quê

VII
uma vez uma estrelinha
pousou na minha cabeceira
que coceira que me deu
ela me contou
de um mundo mais contente
que toda gente era feita de biscoito
chiclete
bala
não tinham cor, nem sexo e nem cara
por isso sabiam o que era amar
perguntei que terra era essa
se era distante
achava que era
mas não era
ficava escondida no fundo
profundo
mundo submundo do meu coração

VIII
nunca pensei que gostaria do espelho
me espelhando em alguém
que gostaria de tocar nesse espelho
afagando a mim também
quem sou
quem é aquele que quer quem
te quero bem
demais
meu amor de espelho que só os cegos veem
sem dono
sem reflexo
só meu de mais ninguém
como eu te amo
meu eu em outro alguém

IX
nome de arcanjo
pelos negros do diabo
se estou apaixonado não tenho mais volta
quero dar meu fogo
arrancar todo céu
profanar o arcanjo bebendo samael
as palavras são fortes
porque sinto e não posso sentir
testemunho de enxofre
monólogo satã
perdão pelo egoísmo
meu amor que exorcizo sem nunca querer

X
paixão
quero dar um beijo
sair correndo
voando pelas nuvens uma a uma
pluft
vulp
só pra ver a reação
sentir gosto doce
glicose
boca de algodão
macia
mia
essência chupa-cabra
mais chupa
menos cabra
macabra
desculpa perguntar
mas esse açúcar
é só em cima
ou embaixo também

XI
entra
seja bem-vindo ao sonho
disforme
aquoso
banheira de espuma com sais
encontro de cabeças
peles encostadas
fala baixa
assanhada
carícias
sussurrando
devagar
calma
mais devagar
sem pressa pra acabar
sorriso de vez em quando
leve malicia
nossa
estou sonhando
delírio
apenas sonhando e nada mais
maldição

XII
sim
abandono meu mar
sufoco a vela
mas não desnudo nunca a alma
por ser taurino
ascendente em gêmeos
meio feminino
por tanto querer na cama um "me ama"
amor irracional
essência animal
sem tempo a perder
faço
cada traço
teu braço
amo loucamente
sou mesmo demente
vulcão-carente
por você seco o mar e morro de sede
apago a vela e fico nas trevas
agora a alma eu não largo
por ser tudo que tenho e quase ninguém

_______________________

Arthur Campagnolo Della Giustina, nascido em Caxias do Sul – RS no ano de 2001, é cronista, poeta, ativista e músico caxiense. Possui participações em antologias, portais de notícias e revistas digitais pelo Brasil. Membro do Movimento Aldravianista Caxiense. Atua como trovador e Vice-Presidente de Cultura da UBT – Seção Caxias do Sul na gestão 2019/2020. Responsável pela organização de eventos e diversos projetos de caráter litero-cultural no município. Idealizador da SGJE - Sociedade Gaúcha de Jovens Escritores no ano de 2019. Membro-fundador dos coletivos "Grupo Sabiá" e "Cerco Arte - Ser com Arte", que têm por objetivo criar, fomentar e valorizar um diálogo constante entre os diversos segmentos culturais na sociedade em que estão inseridos. Acadêmico Correspondente na cadeira n°2 da Academia de Letras Machado de Assis (ALMA) em Porto Alegre. Premiado em diversos concursos literários, indicado no ano de 2019 ao Troféu Machado de Assis por "Expressão Literária" em Itabira, Minas Gerais.

~Maya


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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Entre trevas – arte e censura lado a lado outra vez


Todo artista, ou entusiasta de qualquer tipo de arte entende que vivemos tempos obscuros. Os exemplos são jogados sobre nossas fuças quase que diariamente e sempre dividem as opiniões entre os que seguem nas trincheiras pela nossa liberdade artística e de expressão e aqueles que repetem ad infinitum o argumento de que artista é tudo vagabundo.

Os ataques, por óbvio, não são de hoje. Toda ascensão de governos autoritários carrega duas vertentes centrais de limitação do acesso ao conhecimento pelo povo: a educação e a arte. Não à toa que em qualquer regime dessa natureza professores são vigiados, currículos escolares alterados e artistas censurados. Exemplos pipocam pelo mundo – talvez o mais icônico seja a queima de livros pelo regime Nazista.

Educação e cultura não são dois lados da mesma moeda – até porque isso os faria opostos – mas duas moedas de igual valor no combate à ignorância e na criação do pensamento crítico. Por isso os programas de incentivo à leitura desde a infância são fundamentais (aqui cito a literatura por ser o foco deste blog), por isso professores que vão além do “be-a-bá” são considerados perigosos e artistas tratados como verdadeiros marginais.

O bombardeio contra a cultura já vinha se desenhando há algum tempo, antes de mudanças concretas na estrutura do poder (mudanças de presidente, um no meio de uma gestão e outro via eleição), quando os famosos boots começaram a espalhar mentiras sobre a Lei Rouanet. Lembro-me com clareza que, quando surgiram em grande volume fake News manipulando a opinião pública contra a Lei, muitos de nós (por nós, aqui me coloco como artista) já tínhamos entendido que não era uma situação isolada. A demonização da Lei através da mentira e desinformação foi um passo importante para um novo processo de isolamento e desprezo dos artistas como uma classe.

Por isso que, mesmo que nos seja assustador, os atos de censura que testemunhamos atualmente não nos pegaram de surpresa. A ideia de que o cidadão de bem estava pagando para sustentar vagabundo que expõe pornografia a crianças se tornou tão comum que é usado mesmo quando a arte não possui pornografia e quando o público da arte não é infantil.

Citando uma situação bem particular de censura que não gerou nenhum tipo de barulho, no ano de 2017 lancei meu segundo romance, Histórias de Minha Morte, cuja protagonista e narradora é uma mulher negra e periférica. O livro foi aprovado em edital público de fomento à cultura e, em minha cidade, é tradição que os livros lançados por esse edital sejam trabalhados nas escolas para que os estudantes tenham acesso aos artistas locais, tanto pela obra quanto pela possibilidade de presença do artista junto aos estudantes. O livro em questão não é uma leitura leve; contém violências de várias naturezas, mas propõe debates importantes como racismo, estupro, relacionamentos abusivos e transtornos psiquiátricos.



Por óbvio não esperava que a obra fosse trabalhada com crianças ou jovens de 12, 13 anos, mas adolescentes na faixa dos 15, 16 anos já estariam aptos a trabalhar o livro. Para minha surpresa, o livro foi barrado nas escolas. Nas públicas, a justificativa foi que o livro era muito “pesado” para adolescentes, nas particulares o que pesou foi o medo da reação dos pais, um patrulhamento ideológico já em andamento, mesmo que o livro – uma ficção – discuta temas sociais que envolvem seres humanos de qualquer espectro político.

Claro que meu livro é um exemplo muito pequeno, muito local. Talvez o leitor mais desavisado não compreenda que essa “inocente” proibição é parte de algo muito maior, até porque alguns dos casos de maior repercussão dos últimos tempos em temos de cerceamento da liberdade artística usam o mesmo argumento de proteção à criança. Aliás, não só artístico, mas educacional também.
Entre os mais icônicos testemunhados esse ano está a censura a uma revista em quadrinhos na Bienal do Rio de Janeiro por conter uma ilustração de um beijo entre um casal gay. Mesmo que a revista não estivesse sendo comercializada para o público infantil, e mesmo que ilustrações com beijos entre casais héteros jamais tenham sofrido retaliações quando disponíveis às crianças, a proteção contra uma suposta sexualização da infância se tornou a justificativa de muitos a um ato que não tem outro nome que não homofobia e censura.

Foi na contramão dessa ação que um famoso youtuber realizou certamente o ato mais caro em termos financeiros, adquirindo 14 mil exemplares de livros de temática LGBT para distribuição gratuita no evento. Como vivemos em tempos de extremos, o youtuber passou a receber ameaças de morte.
Nesse mesmo sentido, vítima de ação de um poder público que se orgulha de desconhecer a arte e suas funções – e talvez por isso a despreze tanto – a poeta Angélica Freitas teve seu livro “Um útero é do tamanho de um punho” como alvo de um pedido de moção de repúdio na Câmara dos Deputados, em Santa Catarina, depois de adotado no vestibular de duas universidades. Outra autora, Natália Polesso, já havia sentido o peso da total falta de senso de interpretação artística quando parte de um conto seu esteve presente na prova do ENEM.

O caso de Angélica foi emblemático, porque o que tornou o livro da poeta objeto de repúdio na moção foi a citação do útero, como se falar de partes da anatomia fosse algo abjeto por si só, desprezível, que deva ser escondido da sociedade e dos jovens de 17 anos. O que há de imoral ou criminoso em se citar um órgão característico da anatomia feminina de forma poética a um público que deve saber que este órgão existe e como funciona? Deveríamos também amoralizar a anatomia humana nos estudos de biologia para “proteger nossas crianças”?


Não é o foco do presente texto, mas sabemos que a proteção à infância fica só no campo das artes. Vi, incrédula, cidadãos elogiando o governador carioca pela ação policial que causou a morte de uma criança de 8 anos. Agatha devia ser protegida da exposição a um casal gay ou à descrição de um útero, mas não da bala que custou sua vida?

Muitas outras questões se misturam quando o tema é censura. Mesmo quando não existe de fato uma censura – ou provém de uma fonte sem tal poder – o cerceamento das artes encontra respaldo onde menos se esperaria, que é dentro da própria classe artística. Exemplos igualmente não faltam, com uma onda de artistas conservadores dispostos a puxar o tapete do colega sabe-se lá porquê. No período da ditadura artistas famosos se aliaram ao regime delatando colegas e hoje, se os métodos de repressão retornarem com o mesmo formato da época, não faltarão artistas dispostos a fazer o mesmo.

Até esse humilde blog, que hoje completa 3 meses de existência, conta com poucas visitações em termos gerais, já recebeu sua pitada de silenciamento. Chegou aos meus ouvidos uma crítica feita por uma pessoa da mesma classe que defendo e divulgo nessas paragens de que o trabalho aqui realizado possui baixa qualidade analítica e falta de ética pela ausência de um diploma de Letras em meu Lattes. O que surpreende não é a crítica de uma baixa qualidade analítica, opiniões são sempre muito particulares, o que me chocou de fato foi a acusação de falta de ética por eu ousar criar um projeto de divulgação da literatura através de exposição do trabalho alheio e resenhas de minha autoria sob a justificativa de uma suposta falta de qualificação acadêmica.

Não me falta. A graduação em jornalismo, cujo diploma expus orgulhosamente nas redes sociais na ocasião de minha formatura, me autoriza formalmente a me tornar uma resenhista, a resenha integra o escopo de minha formação acadêmica, a minha vida inteira dedicada à literatura me confere a ética de falar sobre aquilo que mais entendo. O momento obscuro que vivemos de um retorno nada sutil da censura contra as artes me impele a criar mais um espaço de resistência, abrindo as portas aos autores e editoras que estão todos com a corda no pescoço. Embora a crítica não cite o blog ou meu nome, cita em aspas palavras minhas e meu recente ingresso no curso de Letras, e chegou a mim por várias fontes que reconheceram, nas palavras do emissor, o óbvio alvo da crítica.

Um caso isolado, isoladíssimo diante do apoio inconteste que o blog recebe de autores, editoras e leitores. O mesmo não acontece com a atriz que já virou um ícone da nossa cultura, Fernanda Montenegro. Prestes a completar 90 anos, a atriz foi capa da revista Quatro Cinco Um em ocasião do lançamento de sua biografia pela Companhia das Letras (inclusive quero), onde, entre outras fotos de um ensaio fotográfico cheio de referências artísticas, Fernanda aparece “amarrada” sobre um monte de livros em claríssima alusão às fogueiras medievais.

Mariana Maltoni - Revista Fórum

Fernanda viveu na pele a repressão da Ditadura Militar, não somente pelas censuras aos textos das peças que encenava, que variavam de local para local obrigando elenco a readaptar as peças frequentemente conforme as vontades e interpretações dos censores, mas também as violências e o medo. A própria atriz relatou, para a revista Pragmatismo Político em 2014, que em uma determinada situação, o elenco inteiro de uma peça foi espancado dentro do teatro por um grupo intitulado “Comando de Caça aos Comunistas”. Em outra, ela foi diretamente ameaçada de morte, quando a informaram que levaria um tiro na testa se subisse ao palco. Apesar do medo, ela subiu. Em outro dia, neste mesmo período, atiraram contra a janela do quarto onde ela e o marido dormiam hospedados na casa de um colega. A bala, por sorte, se alojou no teto e ninguém saiu ferido.

Mais do que ninguém, Fernanda Montenegro conhece bem os meandres da censura. E foi justamente por não ter medo dela, com a mesma coragem que sobreviveu à Ditadura, que Fernanda se manifestou contra os atos recentes. Claro que a polêmica estava plantada, e um de seus mais agressivos críticos foi um colega. Diretor de teatro, o colega em questão chamou Fernanda de “sórdida” e atribuiu a uma revista especializada em literatura o rótulo de “revista de esquerda”. Seria óbvio pensar que uma revista de literatura não apoiaria nenhuma forma de censura, mas vemos que dentro da própria classe artística a ideia do cerceamento, do silenciamento e da retirada de direitos sobre o fazer arte estão presentes, hora de forma sutil, hora de forma escancarada, e escandalosa.

As palavras do Diretor de teatro, galgado a alto cargo no governo por seu posicionamento político declarado abertamente, ganharam eco e hoje vemos uma senhora de quase 90 anos e um irretocável histórico de contribuição artística pelo país ser covardemente atacada por fazer uso daquilo que é nosso por direito: a voz.

Não existem fórmulas mágicas. A arte sobreviveu a todas as formas de repressão porque é, antes de tudo, resistência. Agora não será diferente.

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Maya Falks é escritora, poeta, publicitária, jornalista e acadêmica de Letras. Idealizadora e resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana. 





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domingo, 22 de setembro de 2019

Sobre ossos

A leitura da poesia é um processo extremamente individual, cada um a sente à sua maneira conforme suas vivências e sua percepção da realidade. Não gosto de discutir técnicas porque o fazer artístico transcende técnicas, regras e manuais pré-estabelecidos. Fôssemos considerar somente a técnica, perderíamos toda a poesia de rua, os slams, as expressões poéticas de periferia que pipocam por aí e dão um brilho todo especial ao que conhecemos por poesia.

A quebra de qualquer noção de "regra" (e uso aspas porque imposição de regra na arte é quase uma ofensa ao que torna a arte bela ou revolucionária) foi a primeira coisa que me chamou a atenção no livro "Casa dos ossos", de Prisca Agustoni. O livro, editado em 2017 pela Edições Macondo, é para ser lido em um só fôlego. Não apenas por ser um livro curto, mas por suas interligações que unem três partes em um conjunto harmônico.



Na primeira parte, chamada de "Além da Soleira", Prisca explora a fonética das palavras, o seu som, a combinação de sons que tornam seus poemas especiais para uma leitura em voz alta, uma declamação. Prisca não usa pontuação, deixando o leitor escolher onde fazer seus intervalos. É aí que entra a magia da declamação: em uma leitura silenciosa, os poemas podem ser vistos como um bloco único, uniforme. É na necessidade de pausas para renovação do oxigênio que o poema se redesenha ao gosto do leitor.

Esse recurso, tanto da fonética para embelezar a leitura, quanto da ausência da pontuação, faz com que o poema ganhe significados distintos para cada leitor e cada leitura. Inclusive eu mesma testei a leitura de alguns com mudança de espaço de intervalo, e foi uma experiência bem interessante.

O recursos fonéticos ficam claros no poema da página 13, com a semelhança sonora de palavras usadas em vários versos, como "descalça, "cetro", "senda", ou a rima criada do meio do verso ao final do outro: "eu paro perdida abro os olhos / no meio do caminho da vida". Percebe-se que a rima só funciona se a pausa isolar o "perdida" no verso, e o uso da pausa depende exclusivamente da vontade do leitor.

Além de uma construção livre e fascinante dos versos, Prisca, na primeira parte de seu livro, proporciona ao leitor recursos para interagir com os poemas, permitindo que cada peça seja totalmente mutável, adquira significados próprios e novos a cada leitura.

A segunda parte, "Casa dos Ossos", empresta aos versos alguns exemplos de pontuação, mas se difere da primeira parte na exploração de metáforas, inserindo a língua e o corpo em comparações fascinantes do corpo como instrumento da língua. Por língua, vale frisar, me refiro ao português mesmo, e não à língua como parte de nossa anatomia.

Um exemplo muito forte disso está no poema da página 19, onde Prisca, em dado momento do poema, nos diz:
dedos e unhas
na ponta de cada sílaba
são facas sutis que adentram
          a língua
para expelir
os unguentos oleosos
do texto

Elementos corporais misturados anatomicamente com elementos textuais, como um organismo vivo que é tanto o corpo em funcionamento quanto o texto em sua construção e em sua vida útil. Como se o texto ignorado, abandonado, pudesse ser comparado ao corpo morto, inanimado.

À página 22, Prisca escreve, em certa parte de seu poema:
Pouco além da porta
rastejam os verbos
entre a língua e o hímen

As metáforas construídas por Prisca conferem vida pulsante ao texto e seus elementos, mas não se restringem a eles. Como na página 28, em que escreve:
tua presença
reduz o cômodo 
a um aquário:

quero ar
quero ar

longe de lábios parasitas

Nesse trecho do poema vemos a força claustrofóbica de uma relação abusiva, sufocante, trazendo a relação do diminuto espaço do aquário e a dificuldade de respirar, a sensação de afogamento, que uma prisão psicológica pode causar. Nada ali é literal, não se trata de um pessoa efetivamente presa em um aquário ou vivendo uma situação concreta de afogamento, mas de uma pessoa sufocada por uma realidade opressiva.

Destaco ainda, nessa segunda parte do livro, os versos antes que teu rosto / mergulhe na memória pela simples beleza dessa construção, embora fosse possível tirar daí uma análise mais profunda da metáfora utilizada para a distância, separação ou mesmo tentativa de esquecimento da pessoa a qual o poema se refere.

A terceira parte do livro, "Rubras Veias", embora ainda trabalhe com metáforas como a segunda e com fonética como a primeira, traz um trabalho mais imagético e repleto de simbolismos.

Quando, à página 49, Prisca se compara a um ícone exposto e se vê murchada pelos olhares da multidão representada por uma única pessoa, também contrapõe o símbolo ao dizer que suas palavras murchadas são igualmente duras como os ossos, trabalhando uma contradição simbólica entre o esvaziamento e a rigidez, ambas sinal de um certo grau de sofrimento do emissor.

Entretanto, o simbolismo que mais me atrai e que fecha o livro com chave de ouro faz justamente um trocadilho com o dito popular aqui citado, talvez até de forma proposital (somente a autora poderia confirmar isso), quando encerra seu último poema com tantas e tantas portas / e nenhuma chave.

Eis a discordância do leitor: muitas e muitas chaves são entregues ao leitor ao longo de uma obra que, embora dividida em três partes, se mantém coesa.

___________________________________

Casa dos ossos
Prisca Agustoni

Juiz de Fora: Macondo Edições, 2017
53 páginas
___________________________________

Prisca Agustoni é poeta, tradutora, ficcionista e autora de literatura infantojuvenil. Vive entre a Suíça e o Brasil onde trabalha como professora de literatura comparada. Seu trabalho literário se desenvolve em português, francês e italiano. 

~Maya

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O som do silêncio

Eu não lembro quando conheci Augusto. Minha memória não é lá essas coisas, mas sei que conheço Augusto há muito tempo. Ele se faz frequentemente presente na minha trajetória como escritora e foi inclusive a pessoa que me convidou para o primeiro sarau da minha vida, como poeta, há poucos meses.

Mas Augusto não é apenas um amigo por quem tenho um carinho imenso, um leitor e entusiasta do meu trabalho. Augusto também é um cara extremamente inteligente, cheio de conteúdo. E também é poeta.

Estive no lançamento do primeiro livro dele, "O Meu Silêncio tem Som" (Chiado, 2019) e o convidei para mostrar um pouco do seu trabalho nesse "setor" do blog, já que a fila está grande e o livro dele vai demorar um pouco para ganhar resenha.

Então, caros leitores, conheçam um pouco da poesia de Augusto Valentini! Esses textos são inéditos, especialmente para vocês!

Às vezes sem mentir

Às vezes sem mentir
Falamos coisas  insinceras
São coisas da superfície
E as coisas precisam vir de dentro
Não se mente um “te amo”
Mesmo assim ele pode não ser sincero
Pode ser frase automática
Fala resposta a outro “te amo”

Agora, um “eu te amo” sim é sempre sincero
O eu é pesado
Traz consigo o âmago
“Eu te amo” é grave
É preciso saborear as palavras enquanto se as diz
“Eu te amo” vem com um aperto
No coração, no pulmão ou no estômago
Um dos três sai do ritmo logo antes do eu
Sintonizar contigo
“Eu te amo” deve ser sincero pela natureza da oração
Por difícil que seja dizê-la, a frase suicida-se
Joga-se da ponta da língua de olhos abertos
“Eu te amo” é sempre dito de olhos abertos
Olhando-se os olhos abertos do tu
“Eu te amo” à distância perde o eu
Escrito perde o eu
Rápido perde o eu

Eu te amo devagar com pausas e pequenos ataques cardíacos de um
Eu te amo com gosto cheiro e cor com toque peso e gravidade de um
Eu te amo com esforço de arremessar da minha língua para a tua esse
Eu te amo com a dor do peito ansioso por expressar tal
Eu te amo como quem morre uma pequena morte em francês num
Eu te amo como se poetizaram banalidades numa Remington em Portugal e
Eu te amo sem aspas e sem ponto sem teu nome sem minha assinatura
Basta o “eu te amo” repetido e tu sabes que o “eu” sou eu
Que o “tu” é tu
E que o “amo” é sincero
Porque te lo he dicho
Mirándote en los ojos
And that’s enough.

_________________________

Como Clarice em um avião enfrentando a turbulência

Me faria bem ter alguma fé
Conseguir crer sem evidências.
Queria poder
Como Clarice em um avião enfrentando a turbulência
Dizer
"Minha cartomante falou que não vou morrer de desastre"
E sorrir
Tranquilo.

________________________

Distração

A lâmpada segue acesa
E a música segue tocando
Escrevo esse poema
Tentando calar a madrugada
Para que
Ao menos dessa vez
O sono venha antes do sol
E eu possa fingir que não sinto
A cada dia mais
Medo da morte.

________________________

Augusto Valentini nasceu, vive em trânsito e morre de amor em Caxias do Sul, RS. Estudante de Letras e Teatro, é um amante incorrigível de todas as Artes, sejam elas 7, 8 ou 80. Já teve alguns textos breves premiados em concursos e selecionados para antologias. "O meu silêncio tem som" é seu primeiro livro publicado. Viciado em referências e reverências poéticas, as espalha por quase tudo que escreve.

~Maya

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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Fora de ordem

Vai parecer estranho, mas esse parágrafo não é o começo da resenha. Planejei cuidadosamente como seria o começo da resenha, e não, não era assim, mas achei pertinente começar com uma observação engraçada sobre um comportamento comum que também foi o meu: "livros grossos assustam, eu prefiro os finos". Ao contrário do que você vai pensar, livros grossos não me assustam (inclusive minha biblioteca tem muito mais grossos do que finos e o parágrafo está desandando), a questão é que, depois de duas leituras rápidas de livros de poesia, decidi que a próxima resenha seria de um romance, para variar. Valorizando não só autores que me disponibilizam suas obras, mas editoras também, decidi que o romance seria um dos três livros gentilmente cedidos pela Caiaponte Edições.

Ok, ok, erro de cálculo, esse parágrafo também não é o começo da resenha. Na hora de escolher o livro, sabendo que tinha uns projetos pessoais pra tocar, usei como critério o tamanho. Sim, escolhi o livro mais fino entre os enviados pela editora para fazer minha leitura minuciosa em um tempo mais curto para manter o blog alimentado enquanto tocava outros projetos. Pensa numa pessoa que aprendeu na marra que livro menor não significa leitura mais curta. E agora sim, vou começar a resenha.

Lembro da primeira vez que assisti "Amnésia", filme do ano 2000 dirigido por Cristopher Nolan, ou de praticamente todas as vezes que assisti qualquer coisa dirigida por David Lynch incluindo a série Twin Peaks (uma de minhas favoritas, por sinal). Deste último, tirando o belíssimo Homem Elefante, não teve um único filme que não tenha me causado o efeito de vertigem.

Qualquer dessas obras citadas tem como base de sua criação o estranhamento. A gente não entende exatamente o que está acontecendo; temos na mão um ou outro elemento mais concreto que nos permite no mínimo ter curiosidade de saber o que vai acontecer depois, pelo menos na esperança de uma explicação que junte as pecinhas.

Só que o filme te conduz pelas imagens. No livro, as imagens são aquelas que o leitor constrói com base no que foi descrito ou relatado pelo autor. E as imagens do leitor acabam sendo totalmente livres. O livro "Lugares Ogros", de Telma Scherer causou exatamente esse efeito em mim: da vertigem, da confusão e do receio, em cada capítulo, de ter criado uma imagem diferente da necessária para a compreensão do livro. Isso poderia parecer uma crítica negativa ao trabalho de Telma não fosse um detalhe: foi tudo de propósito.



O livro tem 106 páginas. No meu caso as 106 páginas estão repletas de anotações, perguntas, conclusões e post-its. Nunca tinha usado tanta flag num único livro. Posso provar.


A primeira situação que me fisgou foi quando, no prólogo, o narrador (ou narradora, já chegamos nesse ponto) cita uma mulher de vermelho. Ao longo do livro, a referência da mulher de vermelho aparece muitas vezes, algumas de forma mais evidentes atribuindo a simbologia à própria narradora-protagonista-ou-talvez-nem-tanto ou à mulher tagarela atrapalhando as orações no Centro Espírita, que me parece ser um lugar de extrema importância para Roberto, um dos narradores-protagonistas-ou-talvez-nem-tanto.

O causo é que a mulher de vermelho tem uma simbologia muito forte na cultura pop, principalmente depois do sucesso de bilheteria que seria inspiração para as mais insanas teorias da conspiração, Matrix. No filme, enquanto Morpheus explica a Neo sobre a finalidade e os perigos da Matrix, Neo se distrai com uma mulher de vestido vermelho que se destaca entre tantas outras pessoas de roupas escuras. Nessa cena, não fosse o fato de a mulher de vermelho ser uma simulação, Neo teria sido morto pelo Agente Smith. No contexto do uso simbólico da mulher de vermelho, essa personagem representa uma distração em um mundo padronizado em tons de cinza (e essa não é uma referência a mais um filme), o que significa que a autora já nos dá, em um dos primeiros parágrafos do livro, a simbologia da distração.

Assim como na metáfora apresentada em Matrix, a mulher de vermelho - mesmo que não a mesma mulher, ou mesmo que não sempre com o mesmo tipo de vestimenta - acaba aparecendo em momentos-chave do livro, seja atrapalhando os fiéis no Centro, seja atraindo a atenção de outro narrador-protagonista-ou-talvez-nem-tanto.

Temos como elementos concretos uma mulher, estudante universitária, que acaba de ser despejada de seu apartamento e sai dele apenas com uma mochila pesada. Ela está grávida embora esse fato não seja efetivamente explorado de forma contundente. Temos também Jorge e Roberto, dois homens que não apenas são parte da vida da narradora como vez ou outra são eles mesmos narradores. Jorge, por sinal, é o pai da criança. Roberto é espírita. Claudina está internada no mesmo hospital psiquiátrico onde um coletivo de teatro ocupa um espaço. Cecília, a avó, tem Alzheimer. E Maria. Passei o livro inteiro peguntando se Maria era a protagonista inicial, a mulher da mochila, da gravidez, indignada com a greve na faculdade, que cortou a mão lavando um copo, que pegou o ônibus para Vila Nova e que dialoga com alguém que, ao longo do livro, questionei se seria outro personagem, um diário ou o próprio leitor.

Gostei do tom filosófico já de largada do livro: "Lá longe lembrarei apenas das coisas e não dos nomes. Terei pena dos nomes porque eles são vazios". Discordo um pouco da frase porque nomes são a ferramenta inicial da atribuição de significados às coisas, mas a composição da frase me encantou. O que eu concordo é que eu esquecerei mesmo todos os nomes (já esqueço) e isso não diminui a importância dos donos desses nomes para mim. Por sinal, do prólogo saiu uma anotação minha dizendo "prosa poética em estado puro". Também até ali entendi que ela sabia que o parceiro não era o pai da criança. Bom, as coisas não correram como eu previa.

Gosto de colocações abstratas, como quando a narradora reclama que sofre opressão do papel quando recebe um folheto na rua e reflete que "querer coisas pesa". A sensação que deu é que seu despejo não era exatamente literal (era), mas simbólico, que ela sentia a necessidade de fugir de alguma coisa. Um relacionamento abusivo talvez? Mais tarde sabemos que Jorge queria sair com uma determinada mulher para ser visto na faculdade com uma "atriz gostosa". A protagonista (Maria, talvez?) fala de música, fala de teatro, e lá pelas tantas é chamada de escritora por Jorge, o que nos leva à ideia de que sejam pessoas diferentes. O tempo todo.

Sim, a confusão é proposital. Quando entramos com a narradora (uma delas) no ônibus, ela nos descreve o que vê. Em seguida somos jogados a um capítulo, nomeado "Sem número" onde o narrador, narradora ou coisa, se diz um tripé. Tripé de câmera mesmo. Temos o elemento do teatro e da dramaturgia. Imaginei como uma metáfora das percepções da personagem, mas, ao longo da trama, as trocas de narrador me fazem agora crer que talvez a narração seja literalmente da coisa, do tripé.

Voltemos à carne e osso. Telma nos presenteia com "Dói para ser perfeito. Mas eu não me importo com a dor. Não, não me importo. Eu faço meus alongamentos, tomo meus remedinhos, passo as minhas pomadinhas, e passa. A dor passa, fica a precisão. Fica o jeito perfeito de emitir aquela nota. Fica a sensação de naturalidade exuberante que acompanha a boa interpretação". Julgava ser ela, a narradora, talvez Maria, mas uma palavra no masculino me confundiu. Falava de música, achava que ela era quem fazia música. Confesso que não consigo responder se aquela palavra que identifica o narrador masculino foi um erro de digitação ou se trocamos para um narrador desconhecido. Mas um narrador que fala bonito.

Apesar do elogio recém feito do narrador que fala bonito, não há basicamente nenhuma alteração de linguagem entre narradores. Claro que se todos os narradores são provenientes de uma mesma classe, um mesmo cenário sócio-econômico, um mesmo background social, não seria de se estranhar que tenham todos linguagem tão semelhantes, mas ainda assim, o simples fato de não sabermos quem está narrando até que o narrador nos dê um elemento concreto nos priva um tanto da personalidade de cada um. Esse foi o ponto que mais me gerou desordem mental na leitura: todos me pareceram a mesma pessoa, com pequenas distinções mais pontuais, como gênero, ou o fato de Roberto ser espírita, ou a narradora estar realmente revoltada com a greve. Jorge, personagem ou narrador, é o homem que se encantou por Maria, sabemos disso porque ele dá um bolo em Roberto para ficar com ela, mas ao mesmo tempo em que quer ser visto com a atriz gostosa mas não quer nada além disso, também é o cara que fica deslumbrado pela escritora. Ao que tudo indica, as duas mulheres são a mesma pessoa.

Em um determinado ponto, nossa narradora comenta "Olha, Jorge, eu não sou escritora, sou atriz, e era isso. E eu não sei porque tu não gostou. Ah! Por que me chamei de poeta? Por quê? Não fica bem? Só ela pode ser poeta? Eu queria que tu me explicasse o que é que confere esse título honorífico a uma pessoa". Ao final do capítulo, pergunta: "Jorge, por que tu parou de gostar de mim?". Teria Jorge algum fascínio por escritoras que o tenha levado à decepção por ela não o ser de fato? Mas e a atriz com quem ele queria ser visto?

Estamos literalmente na metade do livro. Eu, com meu lápis na mão e minhas flags de post-it, já não sei mais nem quem eu sou. Há um homem poeta. Eu não sei quem ele é. Concluo que Jorge trocou a narradora por Maria. No fim, não me parece que isso se confirma, já que decretei que a narradora e Maria são a mesma pessoa.

Da metade pro fim do livro as vozes de misturam, cada vez mais. Ela, seja quem for, já não está mais no ônibus, fala de tomar uma cerveja com alguém, lá em cima. Só sabemos do ônibus. E da mulher de vermelho. Maria. Que dança, canta, interpreta. "Não faça nada com meu filho", pede Jorge em carta.

Embora mantenha minha queixa da metade da resenha de que as vozes só se misturam dessa forma a ponto de não sabermos quem narra cada capítulo ou descobrirmos através de informações bem pontuais porque faltou, nesse curto espaço de 106 páginas, uma diferenciação mais contundente das personalidades dos personagens, também enxergo um mérito aqui: é uma história contada em ordem não cronológica, de forma não linear, sob os diferentes pontos de vista de todos os envolvidos nela.

Sim, conseguimos montar parte do quebra-cabeça que Telma criou. Essa construção da personalidade dos personagens teria nos facilitado entender que são personagens diferentes, com visões diferentes dos fatos, mas não era essa a intenção da autora. O simples uso da alegoria da mulher de vermelho me deixa segura para dizer que a autora queria mesmo que o livro não fosse uma narrativa como estamos acostumados.

Ao criar uma narrativa dessa natureza, Telma assumiu um risco enorme. Acho louvável. Assim como os diretores citados no começo da resenha, cujas obras dividem opiniões entre os que não entenderam nada e detestaram, os que não entenderam nada e acharam genial exatamente por isso, os que fingem que entenderam por medo de parecer menos inteligentes por não terem entendido e os que entenderam e gostaram ou não da narrativa. O risco de Telma mora exatamente nessa ambiguidade (termo errado, porque são várias opções e não apenas duas, mas vocês entenderam, né?), ela pode tanto ser vista como uma autora brilhante que contou uma história de uma forma tão peculiar que é de se espantar que ela mesma tenha conseguido manter o raciocínio narrativo no livro inteiro, ou ser vista como uma autora que jogou qualquer coisa de qualquer maneira entre aqueles que inclusive abandonarão o livro sem chegar ao capítulo final, em que ela mais ou menos nos explica um pouco melhor quem é quem.

Em termos gerais gosto da ideia de o livro ter várias vozes que contam as histórias a partir do seu ponto de vista. Também não desgosto da ideia de ter capítulos que parecem completamente alheios ao livro - como a existência de Cecília ou a própria Claudina, embora eu aprecie o contexto em que Claudina aparece no livro.

Mas uma coisa é inegável na obra de Telma: ela torna qualquer julgamento de um leitor ou resenhista mais atento bastante difícil. Eu poderia dizer que detestei o livro porque tive muita, MUITA dificuldade de acompanhar as trocas de narradores ou de compreender quem é quem e quem faz o que, mas ao mesmo tempo não posso ignorar que a autora construiu uma narrativa ancorada na confusão, no desencontro, nas várias versões de uma mesma história e em metáforas bem executadas, como da mochila pesada, do partir, paralisar e da própria mulher de vermelho. Como julgar ruim um livro que atingiu os objetivos da autora?

Não tenho resposta a essa pergunta. Se me perguntarem se gostei do livro também não saberei responder. Como qualquer ser humano, não gosto de não entender alguma coisa, de me deparar com algo que em uma primeira vista não me parece fazer nenhum sentido, mas como escritora, leitora e resenhista, também me fascina quem assume riscos e trabalha "fora da caixa". "Lugares Ogros" é, sem dúvida, uma aventura.
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Lugares Ogros
Telma Scherer

Caiaponte Edições: Florianópolis, 2019.
106 páginas
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Telma Scherer é artista e professora do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC. Como poeta, publicou Desconjunto, Rumor da Casa, Depois da Água e Entre o Vento e o Peso da Página.

~Maya


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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poesia em carta

Marco Aurélio de Souza me abordou timidamente com um poema um tanto peculiar. Lembro que achei graça porque ele, como muitos autores que me procuram, queria mostrar seu trabalho inseguro se estaria à altura do Bibliofilia. Pois bem, well (já entrando no clima do poema), não entendo muito disso de "nível de" porque, exceto aquilo que é muito escandalosamente tenebroso (um livro racista, por exemplo), ser bom o bastante para conquistar esse espaço é tipo sal à gosto: o tempero varia conforme o paladar.

Não me sinto confortável em fazer esse tipo de julgamento, e o blog não foi feito para mim, somente por mim. Ele é para o leitor, e o leitor é talvez o conceito mais diverso que existe. Para estar à altura do blog, só precisa ser literatura e não trazer em seu conteúdo nenhum tipo de discriminação, que pra mim, como curadora, texto discriminatório não é arte, é outra coisa bem diferente.

Me comprometi a ler o poema, nessa verificação se eu não abriria as portas do Bibliofilia para algo que o leitor bibliofílico não merece ser exposto e me deparei com um poema que na verdade é uma carta, ou uma carta que na verdade é um poema.

Confesso que entre um ou outro verso de tom mais dramático, achei em geral o poema divertidíssimo. Não muito depois recebi dois livros do autor, para futuras resenhas, tenho a sensação de que vai ser uma experiência agradável.

Mas estão na fila, e espero que o autor compreenda que a fila não é pequena e eu sou só uma. Vai chegar sua (segunda) vez. Por hora, conheçam esse peculiar poema de Marco Aurélio de Souza.



My dear friend Djami


My dear friend Djami, informo-lhe que ontem
Recebi o seu livro, devorando-o no mesmo instante.
Receio, porém, não ter nele encontrado qualquer
Vestígio de poema, ao que lhe dou notícia por supor
Tratar-se de algum equívoco ou mistake. Sim,
É o que lhe digo, não encontrei em seu livro qualquer
Lírio ou conhaque juvenil, sequer a virgindade de um
Pôr do sol no fim da linha: tudo se passa
Como se o autor destes riscos estivesse
Meio crazy meio mad meio caído
Em cânticos e rezas vazadas em um mix
De barbarismos antigos, que certamente fariam
Muito sentido em Pentecostes, mas não aqui,
Em nosso clube de odes à beleza da forma sadia.
Assim, devolvo suas obras completas, mistery Djemi,
Para que corrija esta falha com a língua
– Pois em seu livro sequer existe uma língua
E cá em meu país falamos português com
Correção, assim como se escreve às gramáticas.
Admitimos certos estrangeirismos, off course,
Mas nunca aqueles que se gestam dentro da própria
Nação, ao que lhe censuro a tendência promíscua
Pedindo encarecidamente que, em nova remessa,
Escreva-me sem fazer uso de suas próprias palavras.
Elas são suas e, como seu corpo – que neste compêndio
De elementos naturais (selvagens mesmo, eu diria),
O amigo também expôs de forma assaz indevida –,
Guarde-as para quando estiver ao chuveiro ou sozinho
Com parceirx(s) íntimx(s) que lhe deseje(m) a nudez.
Sem mais para o momento, confesso-lhe, contudo,
Que os arranhões feitos em mim por sua obra
Certamente não foram de todo o mal, e seu invólucro
De saliva aliviou-me a sede por dentro, ao que lhe peço,
Por justiça à consciência, que em sua resposta me envie
Mais destas letras cujo acento jorrando em nosso rosto
Causam este estranho fascínio ou efeito afrodisíaco
Na pressão – em que pese ausente de poemas,
O seu livro lambuzou-me nalguma forma de prazer
Desconhecido, não sei se mineral, vegetal, animal
Ou humano, mas desconfio deva ser a sensação
Daquele que mira a vulva hipnótica da Mãe Gaya
– a rainbow rising on my body, like a dream.

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Marco Aurélio de Souza é autor, entre outros, de Travessia (2017, poemas, Kotter), Anjo Voraz (2018, poemas, Benfazeja) e Os touros de Basã (2019, contos, Kotter/Patuá). Editor no selo Olaria Cartonera e na página O Pulso - decálogos sobre a poesia viva, atualmente, é doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Vive em Ponta Grossa/PR.

Foto de Celso Margraf
~Maya

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