segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A sublime arte de ouvir “não”


Poucos são os exemplos (se é que existem) de autores que jamais ouviram um “não” de uma editora, uma revista ou um concurso literário. O não, feliz ou infelizmente, é parte da jornada, não só da vida de qualquer escritor, mas de qualquer pessoa.

Na literatura muitos motivos podem resultar em uma negativa por parte de uma editora, que pode ir de incompatibilidade com a linha editorial da empresa até má qualidade do texto. Sim, nem sempre somos tão bons quanto imaginamos, e é aí que entra a parte mais crítica do processo.

A frustração é natural, ninguém gosta de ser recusado. Principalmente: ninguém gosta de ser recusado e passa a achar que tudo o que a editora que recusou publica é muito ruim e, portanto, você é a pessoa mais injustiçada do planeta. Sim, sim, essa raivinha que você começa a alimentar dos que foram aprovados pela editora também é parte do processo de luto pela recusa do seu trabalho.

Luto sim, é uma perda. Geralmente – e digo geralmente porque não ouso afirmar que é assim com todos – quem escreve um livro e o submete a uma editora, o faz com uma boa dose de carinho, dedicação e cria, mesmo que sem querer, uma série de sonhos ao redor daquela publicação. Daí vem o não.

Alguns reagem com autodepreciação, se achando os piores autores do planeta quando de repente sequer foi realmente a qualidade do texto que pesou na recusa. Outros reagem de forma violenta, não aceitam de jeito nenhum que alguém ouse dizer não ao seu bebê e passam a tratar a editora e todos os seus autores como inimigos. Outros apenas seguem em frente, revisam o livro, tentam outros caminhos. Geralmente esses últimos são aqueles que já levaram nãos o bastante pra saber que não é o fim do mundo, nem da linha, nem da carreira, nem dos sonhos.

Ninguém espera que uma recusa seja recebida com alegria; é um direito do recusado se sentir desanimado ou revoltado com o resultado de sua tentativa, mas esse sentimento precisa ser passageiro. Remoer a recusa ajuda em vários nadas para dar o passo seguinte, que pode ser desde uma revisão do livro à escolha de outra editora com um perfil editorial mais adequado ao seu trabalho.

É nesse segundo ponto que entram muitos dos casos de recusa, inclusive. Não adianta enviar um livro de poesia romântica para uma editora voltada à prosa de terror ou buscar uma editora de autopublicação sem ter dinheiro para investir; esses são casos de recusa certa independente da qualidade do seu material. Uma editora focada em prosa dificilmente publicará poesia, uma editora com viés estritamente comercial dificilmente publicará um livro com menor potencial de vendas mesmo que seu conteúdo seja brilhante, uma editora focada em públicos específicos não publicará livros voltados para outros públicos. As vezes, também, está tudo certo, seu trabalho e a editora parecem formar um par perfeito mas as condições do momento, do mercado, da demanda, da sociedade, acabam por melar o casamento.

Pare, pense e reflita: você enviou para uma editora com um perfil editorial que combina com o seu trabalho? Sua narrativa usa uma linguagem que combina com o público que você pretende atingir? Seu texto possui coesão, coerência, verossimilhança e personagens tridimensionais? Sua história possui amarras que, mesmo que você use um estilo não linear, o leitor ainda saberá que está lendo o mesmo livro do começo ao fim?

Acredite, o “não” pode ser uma boa oportunidade de repensar alguns caminhos, nem que seja de qual selo queremos na capa do nosso livro se ainda não estivermos prontos para a autocrítica – por sinal, cada dia mais fundamental e nem sempre presente. É importante ressaltar que erramos sim. Todos. Editores dispensam livros ótimos todos os dias, autores entopem as caixas de entrada de editoras com livros medíocres todos os dias. Estamos todos sujeitos ao erro. O editor mais experiente pode deixar escapar um potencial grande nome da literatura e um grande nome da literatura pode escrever um livro horrível no auge da sua carreira.

A grande questão é que vivemos na era dos egos, de todos os lados. Temos sim, claro, editores que pisam nos sonhos de autores de forma muitas vezes até cruel (aconteceu comigo, por sinal, já tem um tempo, me recuso a expor nomes), e temos também gente sem nenhum preparo, nenhum interesse no aprimoramento da escrita, nenhuma vontade de aprender, que só quer ter seu nome estampado na capa de um ou de muitos e muitos livros, e acha que isso deve ser o bastante, sendo obrigação das editoras aprovar sua obra.

Não é assim que a vida funciona. Não é assim que o mercado editorial funciona. Começa que nem tudo é justo e tem sim muita gente boa se ferrando sem oportunidade e muita gente nhé se dando bem, no mundo inteiro, em todas as áreas. Sabemos que as coisas são assim, mas não é esperneando que a coisa se resolver.

Fundamental é viver de cabeça erguida e fazer a sua parte. Talvez o editor que disse não está errado e sua obra é incrivelmente maravilhosa, talvez ele esteja certo e sua obra precisa ser revista, talvez não bateu o santo e outro editor vai gostar do seu material, mas seja qual for a explicação para o seu “não”, a melhor saída será sempre dar uma olhada a mais, continuar buscando conhecimento (como já dizia o icônico ET Bilu), lendo muito, buscando opiniões de terceiros, praticando.

A literatura é de uma subjetividade absurda. Podemos acertar a mão em uma obra e errar feio na outra. Quando resenho livros de contos ou poesias aqui no blog, é normal ter uma porcentagem mínima de textos do livro que destoam dos demais. Não teve um único romance que eu resenhei que não achei algum furo na história. E posso garantir que acontece o mesmo com os meus livros, porque escritores não são robôs e a perfeição nas artes é uma questão de ponto de vista. Ter textos que não gostei entre poesias e contos ou pequenos furos nas narrativas longas não mudou minha percepção da qualidade das obras porque é NORMAL.

Como é normal, NORMAL, ser recusado.

Portas fecham, portas abrem. Portas só permanecem fechadas para quem fica esperneando do lado de fora. Levanta, sacode a poeira e vai atrás de seus sonhos onde eles forem bem-vindos.


~Maya


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