sábado, 14 de setembro de 2019

Caxias do Sul (RS): cultura em Guerra



                O ano é 2016, ano eleitoral. O candidato da situação passa com folga para o segundo turno enfrentando o até então vereador Daniel Guerra (Republicanos). Nessa altura, a gestão em atuação enfrentava uma verdadeira batalha com os artistas locais em função de um atraso de mais de 70 dias no anúncio dos projetos contemplados com a verba destinada à lei Financiarte, quando o tempo então prometido era de 30 dias após o anúncio dos projetos aprovados pelas comissões avaliadoras.

                O clima entre gestão e o segmento era tenso em especial porque a então secretária da cultura havia se licenciado do cargo para concorrer a uma cadeira do legislativo e o prefeito em atuação estava demasiadamente envolvido na campanha de seu candidato, à época, o professor Édson Néspolo.

                O centro do debate, entre os artistas, era a lei de fomento à cultura, o Financiarte, que, desde sua criação, em 2003, tem sido o maior e mais eficaz instrumento de promoção cultural da cidade. Para se ter uma ideia da importância dessa lei, passaram por ela o grupo Yangos, que concorreu ao Grammy Latino e tocou na Copa da Rússia, e a escritora Natália Polesso, que teve um de seus livros trazendo à Caxias do Sul o Jabuti, um dos mais relevantes prêmios literários do país.

                O mau andamento do Financiarte de 2016 – edital em que meu segundo romance, Histórias de Minha Morte foi contemplado – foi um dos fatores que contribuíram com a vitória de Daniel Guerra naquele segundo turno, tendo a manutenção dos valores destinados à lei como promessa de campanha. Para que se entenda, a lei, até a chegada de Guerra ao poder, previa uma destinação de no mínimo 1% e no máximo 2% da receita obtida pelo município através da arrecadação do IPTU e do ISSQN. Pelo histórico, o valor de destinação ao Financiarte via legislação até então vigente variava de 1,8 a 2 milhões, o que garantia uma média de 60 projetos aprovados em 7 segmentos da arte.

                No ano de 2016, por exemplo, mesmo com toda a confusão e os 70 dias de atraso que quase custaram a anulação do edital (e problemas cardíacos em mim, já que era o edital em que eu participava), 71 projetos foram aprovados e a verba destinada foi de R$ 2 milhões.

                Dentro da economia da cultura, um investimento desse tamanho representa um retorno imensamente maior à comunidade. Para não entrar em muitos detalhes porque isso valeria um livro inteiro para ser discutido, não apenas os projetos aprovados geram milhares de empregos e retorno em impostos (e claro, consumo dos empregados que aumentam seu poder de compras) como garantem atividades culturais gratuitas à comunidade pelo ano inteiro, já que cada artista contemplado assume um compromisso com a prefeitura de contrapartidas ao município. No caso da literatura, exemplares dos livros são distribuídos para bibliotecas e órgãos públicos, o valor de venda é mais baixo que o valor de mercado e o artista participa de ações junto à comunidade.

                Enquanto ainda aguardava o desfecho do edital de 2016, estive com o então candidato Daniel Guerra, ocasião em que o presenteei com uma antologia de escritores premiados no concurso literário promovido pela Prefeitura, expliquei resumidamente a economia da cultura e a devolução do PIB que a cultura proporciona e o lembrei que Caxias do Sul já foi Capital Nacional da Cultura exatamente por termos artistas de todos os segmentos que colocaram a cidade no mapa do mundo com suas artes. Obtive dele, olho no olho, a promessa de manter os investimentos na pasta, e soube depois que outros artistas também o procuraram nesse período.

                A própria campanha de Daniel Guerra prometia, sem meias palavras, a manutenção e o aprimoramento da lei caso fosse eleito. Bom, ele foi. O resultado, já no primeiro ano de gestão, foi devastador. De R$ 2 milhões investidos nos anos que antecederam sua chegada à prefeitura, a verba caiu para R$ 600 mil. Aí o problema era mais embaixo, porque o valor correspondia à 30% do valor mínimo que ele poderia destinar ao Financiarte segundo a lei. Ou seja: tínhamos ali um crime de responsabilidade claro e perfeitamente tipificado.

                O caminho natural para um crime de responsabilidade cometido por um membro do executivo é claro: impeachment. Por algum motivo nunca esclarecido, mesmo com crime de responsabilidade no descumprimento da lei – situação prevista pela Constituição Federal para a destituição de um governante – o pedido, protocolado e assinado por dezenas de pessoas de vários segmentos da sociedade, foi rejeitado pelo legislativo.

                Sem nenhuma intenção de cumprir a mesma lei que prometeu manter e aprimorar em campanha e próximo ao anúncio de que no ano seguinte sequer teríamos a abertura de um edital, o Prefeito conseguiu, em manobra jurídica muito bem articulada, vencer no TJ um processo para inconstitucionalidade do atrelamento da verba do Financiarte à arrecadação do município, garantindo assim não somente que ele não possa mais ser responsabilizado por não repassar os valores previstos na lei como deu a ele o poder de manipular ao seu bel prazer todo o andamento cultural da cidade. Inclusive acabar com ele, como vem acontecendo.

                Como anunciado, em 2018 não houve edital. As perdas em relação ao PIB, geração de impostos e empregos e de oferta de atrações culturais à comunidade são incalculáveis. E foi nessa situação de depredação cultural que chegamos em 2019 munidos de uma desmotivação descomunal, em especial quando se anunciou que os valores do edital iriam de R$ 2 milhões em 2016 para R$ 150 mil em 2019.

                Em junho deste ano, depois de divulgados os pouquíssimos contemplados com o Financiarte, o Jornal Pioneiro publicou uma matéria relatando que o gasto com café somente no prédio do poder executivo está muito acima do valor total destinado ao fomento cultural na cidade, cuja justificativa do prefeito é sempre a de que o valor da cultura foi retirado da pasta para outras pastas emergenciais; informação que não se confirma quando se verifica a situações e o descontentamento das outras áreas consideradas mais prioritárias, enquanto uma questionável reforma no gabinete do prefeito consumiu pelo menos R$ 50 mil segundo informação publicada no Jornal Pioneiro em julho do corrente ano.

                Mas como nem tudo são trevas e a cultura está sempre caminhando com um alvo na testa, também sempre é tempo de uma reação. É exatamente este o fenômeno que está acontecendo na cidade. Não que a “velha guarda” da cultura caxiense esteja dormindo no ponto, mas os jovens talentos, aqueles que hoje estão sentindo na pele os efeitos do destroçamento das políticas públicas de fomento à cultura em suas tentativas de iniciar uma carreira no meio, resolveram se unir.

                Foi da noção de que algo precisa ser feito que os jovens Arthur Della Giustina, Ariel Fedrizzi, Emely Polli, Nicolle Polli, Gabriel Abu Hilu e Gonçalo Duarte uniram forças e criaram o Coletivo Cerco Arte – Ser com Arte. A ideia do coletivo é justamente propor a união dos artistas em torno da causa da cultura para mostrar aos gestores que eles são, acima de tudo, funcionários públicos, e não imperadores, eles é que estão a serviço do povo e que o povo tem o direito e merece acesso à arte e à cultura.

Gabriel Abu Hilu, Nicolle Polli, Emely Polli, Ariel Fedrizzi, Arthur Della Giustina e Gonçalo Duarte - Membros do Coletivo Cerco Arte - Ser com Arte e idealizadores do evento Cerco Arte

Clara Sousa
                A primeira grande ação do coletivo aconteceu neste sábado, 14 de setembro, na praça da prefeitura. De forma humilde e até mesmo despretensiosa, o grupo construiu um varal poético com trabalhos próprios e de outros poetas como Clara Sousa, Maya Falks (eu), Nil Kremer e Dinarte Albuquerque Filho e promoveu atrações como declamações, apresentações musicais, slams e batalhas de rap.


                Segundo um dos idealizadores do evento, Arthur Della Giustina, o objetivo da ação “é criar, fomentar, defender a cultura, a liberdade de expressão, a liberdade artística na nossa cidade de Caxias do Sul, pois infelizmente essas áreas vêm sofrendo uma constante agressão pelo poder público, pelo executivo, e justamente para criar esse hábito cultural em Caxias do Sul, para que não apenas o poder público, mas os cidadãos vejam a cultura da forma como ela deve ser vista. Nós somos cultura, essa que é a verdade. Nós fomos cultura, somos cultura e vamos criar novas culturas para o bem da comunidade em que vivemos”.

Afro T.I. e AuOruo Taiara
                Os objetivos apontados por Arthur foram muito bem explorados no evento, sejam em declamações inflamadas pelos idealizadores, explorando temas sociais, ou a participação de outros artistas, como Arlindo Junior (Afro T.I.) e sua sobrinha AuOruo Taiara, cujas declamações de versos ligados às desigualdades e ao racismo arrancaram aplausos entusiasmados da plateia, que, apesar de pequena pelo clima chuvoso e pela própria falta de hábito de prestigiar eventos dessa natureza, era diverso e muito participativo.

Membros do Slam Feeling
                Depois de uma apresentação comovente de Luti Barbosa, músico de rua, que declarou ao final da primeira canção estar emocionado por ter uma plateia atenta por estar acostumado a ser ignorado tocando pelas ruas da cidade, o evento foi encerrado de forma brilhante com poesia de rua, promovido pelo Slam Feeling, com uma surpreendente batalha de rap.

                Durante os últimos movimentos do evento, os jovens organizadores distribuíram as poesias do varal, fechando a iniciativa da melhor forma possível.

Varal poético
                Obviamente nenhum dos jovens organizadores espera que a ação vá trazer mudanças reais no orçamento do Financiarte ou na maneira desastrosa como a atual gestão lidou com a questão da cultura, mas é sempre preciso começar de algum lugar. São jovens na faixa dos 20 anos, artistas já completamente conscientes da sociedade em que vivem e da responsabilidade que têm de manter viva a cultura não só na cidade, mas no mundo, já que o coletivo que eles formam é um entre milhares de movimentos de jovens artistas que estão se mobilizando.

Apresentação musical com Emely e Nicolle Polli

                Para artistas com mais tempo de estrada, como eu, como Dinarte Albuquerque Filho, como Juliano Fantin, que estiveram presentes, ou promotores de cultura como o produtor cultural Claudio Troian e a conselheira de cultura Cecília Pozza, que também integraram o evento, ver essa nova geração fazendo seus primeiros movimentos de protesto e de luta pela cultura é acalentador. É uma geração que está aprendendo cedo a usar a sua voz, uma geração que pode ter futuros líderes ou nomes de sucesso que seguirão batalhando pela cultura como sua principal bandeira.


                Talvez, para quem olhe de fora, um varal poético, declamações, apresentações musicais, slams e batalhas de rap podem parecer pouco, ineficazes, mas é o primeiro grito de uma geração que promete não ficar calada.  

Galeria de Fotos





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Maya Falks é escritora, poeta, publicitária e jornalista. Idealizadora e resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana. 
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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Arquitetura poética

Desterro, de Camila Assad, é, sem dúvida, o livro mais peculiar que já esteve em minhas mãos. Ou pelo menos desde que comecei nessa tarefa de resenhar. A capa já mostra a que veio com a imagem de prédios em um projeto gráfico impossível de passar despercebido. As cores, as formas, a fonte usada tanto para o nome do livro quanto para autora e ilustradora - crédito para Anna Brandão - são dignas de admiração.


Aqui não posso deixar de citar Otávio Campos, o responsável pelo projeto gráfico, porque o livro da Camila, embora recheado de boa literatura, funciona como deve pelo empenho deste profissional em dar a forma necessária para que o livro dê seu recado.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro é que tanto a ficha técnica quanto o sumário estão no final do livro. Ok, isso não é inédito nem parece ter nada de extraordinário, só que nesse livro, na proposta dessa poética, terminar o livro com o que tradicionalmente é o começo já é por si só parte da poesia. O prefácio foi trocado pelo posfácio, a estrutura lírica por uma arquitetura literária que, pra mim, foi inédita.

Ao longo do livro, as relações entre poesia e arquitetura não são sutis, embora tenhamos as linhas, as esquinas, os formatos de uma cidade de forma simbólica também na construção dos versos, como mapas que contam uma história. Mas nada disso é fruto da minha genialidade, infelizmente não chego tão longe na minha capacidade de abstração do fazer poético. O causo é que o livro abre com a frase "Construir cidades significa também uma forma de escrita".

Mesmo muito curta, a frase me levou a um bom tempo de reflexão. Faz sentido. Eu mesma já caminhei pelas ruas caçando a poesia em suas formas. Por vezes uma poesia doce, quase melódica, por vezes uma poesia fétida, digna de Augusto dos Anjos, mas as esquinas contam histórias. Os prédios, as lojas, as conversas em pontos de ônibus. Tudo isso está contido nessa frase que abre o livro, já que tratamos aqui não somente de uma cidade de tijolos, concreto e barras de ferro, mas de espaços urbanos.

Camila explica a relação da arquitetura, do ser cidade, com o fazer poético magistralmente, como quando diz "Quando um palacete se transforma em um cortiço confere-se um novo significado para o território, escreve-se um novo texto".

Eu nunca tinha parado pra pensar nas semelhanças de uma edificação com a literatura. Essa frase soube expressar com precisão. As histórias dessa mesma edificação são completamente modificadas e transformadas quando os nobres que outrora habitaram o palacete o abandonam e os espaços passam a ser ocupados por famílias, muitas delas, cujas histórias de vida são absurdamente diferentes. O aspecto do palacete mudam, tudo nele muda, embora ele permaneça uma edificação de igual tamanho fixo exatamente no mesmo endereço.

Não se muda a forma, mas se muda o conteúdo. As palavras são as mesmas, o que as diferencia é o modo como o escritor vai usá-las. Metáfora brilhante. As metáforas não param por aí, a imagética de uma casa abandonada com todos os elementos do abandono relacionados com a subjetividade de uma pessoa em igual situação é de uma beleza única. Como se homem e objeto, pelo poder da dor, do sobrar, da não-humanidade, fossem capazes de entrar em simbiose.

Nessa jornada de palavra-cidade, Camila pontua a solidão do coletivo. Somos forçados a viver na coletividade, já que a cidade está sempre cheia de gente, o que não significa que não estejamos completamente sozinhos. Segue para o apontamento das coisas brutas e do falocentrismo, encontrada em qualquer espaço urbano, mostrando que mesmo sendo A cidade, o espaço urbano foi pensado masculino, até que cheguemos no ponto onde o projeto gráfico contribui para contar essa história.

Na página 19, Camila nos diz: "(as mulheres trabalhadoras não vivem propriamente o espaço público, mas o atravessam para garantir a manutenção familiar)", é a história de Tereza, que, mãe de 3 filhos, usa os espaços urbanos vendendo de tudo para alimentar as crianças. Seus trajetos são destacados por flechas, pela contabilidade do tempo no transporte público, na impossibilidade de Tereza, trabalhadora, mãe, pobre, de ir ao mar.

O que faz de uma casa uma casa é onde você se reconhece, decreta em uma poesia na página 21, ainda seguindo esse tracejado diferenciado de um projeto arquitetônico onde vamos de uma viga à um porão sem nem perceber.

Meu golpe fatal, ainda bastante antes de encontrar o ponto final, vem do "ele me diz que há trinta formas de matar um porco e eu responto que há muita solidão em qualquer esquina de qualquer cidade". Há mais de trinta formas de matar alguém de solidão. Há muita solidão em qualquer esquina. Há de se morrer de solidão mesmo sendo obrigado a viver no coletivo cheio de rostos anônimos que, como as edificações, fazem de suas expressões as paredes que impedem de enxergar o papel de parede ou que tipo de flores decoram o ambiente.

A dor vem como um golpe de cimento quando, em um de seus poemas, Camila nos diz "a leitura das mãos lhe revelou: bom esposo, três filhos, dois cachorros e um sobrado com mofo na vila madalena (próximo ao metrô, uma vaga na garagem) / raspou até sangrar as palmas no asfalto". Não é uma simples não aceitação do destino que as linhas da mão parecia impôr, mas um desencontro entre ela e a própria atmosfera da cidade.

Os textos que fecham e cidade de Camila são quadrados como edificações, embora muito bem decorados com flores ou teias de aranha.

Daria pra dizer, aproveitando as metáforas que a autora mesmo usou, que Camila construiu um livro.
Essa cidade de palavras, como qualquer outra, tem jardins e bueiros.

Um bom passeio a todos.
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Desterro
Camila Assad

Edições Macondo: Juiz de Fora, 2019
83 páginas
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Camila Assad é autora dos livros "Cumulonimbus" e "eu não consigo parar de morrer". "Desterro" foi premiada pelo ProAC/SP na categoria "Criação Literária - poesia".

~Maya
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Nenhuma resenha ou divulgação é nem jamais será cobrada de autores e editores. Mas se você quiser contribuir pra viabilidade desse projeto, contate-me via facebook ou pelo e-mail bibliofilia.cotidiana@gmail.com para que eu possa passar os dados para a doação de qualquer valor.

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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Vai ser assim

Fui apresentada à Leonardo Tonus pela amiga e pesquisadora Regina Dalcastagnè, e foi um presente na minha vida. Não apenas porque Leonardo é um cara incrível, mas porque ele é um grande apaixonado por literatura (é sempre bom encontrar nossos pares) e, depois de ter o livro dele em mãos, descobri que ele é um poeta maravilhoso.

Li "Agora vai ser assim" num fôlego. O livro começa surpreendendo quando encontramos o título dele e do autor no verso, na quarta capa, enquanto na capa temos o trecho de um poema, nos convidando pra entrar. No convite Leonardo nos prepara para o baque. Ou pelo menos pra um pouquinho dele.



Talvez esse seja um dos meus maiores desafios como resenhista, porque esse livro não é algo que possa ser efetivamente descrito. Ele é sentido. Ele foi escrito com as vísceras.



Sei que não é de bom tom ou sequer elegante que um resenhista cite a si mesmo quando resenha trabalho alheio, mas encontrei nas entranhas do livro dois diálogos fascinantes com dois poemas de meu livro "Poemas para ler no Front". O primeiro, no poema "Um corpo sobre a areia", onde grafei tanto quanto foi possível, como a beleza dos versos "Eu perdi a voz / ao sair". Quando encontrei "à mulher que implorou / para que a criança não morresse / sobre a areia" ou "Não há poesia no corpo de uma criança afogada" me estapeou as fuças meu próprio poema "26", ali ele, composto de poucos versos, se encaixaria à perfeição pela homenagem ao garotinho sírio, morto em litoral europeu, com seu pequeno corpo à espera do banquete dos urubus. O poema de Leonardo, que será declamado em vídeo, me levou às lágrimas.

A segunda vez que tive vontade de contatar Leonardo pra conversar sobre nossos poemas que dialogam foi em "Conchas", onde, pelo final do poema, ele nos diz "Do silêncio / silenciado / resta apenas / o terror / das pedras de Alepo. / Você nunca ouviu o silêncio das pedras de Alepo". Desta vez, vejo que "Conchas" se encaixaria à perfeição como a oitava parte do meu poema "Aleppo".

Eu e Leonardo nunca nos vimos pessoalmente. Nunca dialogamos de fato, trocamos poucas palavras e compartilhamos de claras paixões. E nossas obras se sintonizam sem que houvesse qualquer contato prévio entre nós para que o diálogo acontecesse. Não que esses diálogos não planejados sejam raros, especialmente quando Leonardo tem uma veia poética semelhante à minha, com força, vinda do âmago, mas foi a primeira vez que flagrei de forma tão escancarada e me emocionou que esse diálogo tenha acontecido entre Leonardo e eu. É uma honra para uma eterna aprendiz como eu.

Claro que a grandeza da obra de Leonardo não se resume aos poemas citados. Rabisquei de tal forma o livro dele que talvez o deixaria envergonhado, ou orgulhoso do efeito que seu livro me causou. Muitos de seus poemas deixarei para gravar em vídeo porque merecem mais do que simples menções - todos eles merecem mais, mas se eu declamar o livro inteiro, vocês não o comprarão, e eu quero que todos vocês tenham esse livro em casa.

"Agora vai ser assim" é um grito poético. Leonardo Não tem medo de dizer o que precisa ser dito e o faz com uma força capaz de descongelar corações.

Em "Ich denke", Leonardo nos diz "Minha geração foi a geração do medo. / O medo insidioso penetrando todas as esferas do cotidiano.", achei interessante pensar que o livro que finalizei antes desse, "Jogo de Cena", tivesse o medo como a veia que interligava cada órgão pulsante daquele organismo livro, e venho estudando o medo como uma das maiores ferramentas de manipulação para uso em minhas próprias produções (trabalhar o fenômeno, não causar medo nos leitores, se acalmem), e Leonardo nos traz, nesse poema, as diversas formas de medo que sua geração viveu.

"Desconhecemos o valor dos silêncios" diz ele, lembrando-me com exatidão daquela quarta-feira, em 2016, quando diálogos distorcidos e usados de forma sensacionalista no programa de maior audiência da televisão aberta brasileira causaram uma onda de barulhos, entre panelas e palavrões, pelos bairros mais nobre de todo o país, "das sacadas de nossas varandas" confirma que o fazer poético encontrou morada em seu lugar na história.

"Penso no silêncio obsceno da humanidade / a que pertenço." e então me lembro do medo. Hoje há quem silencie por medo da horda de zumbis pré-programados ao ataque - um coração sensível e poético não suporta tamanha onda de ódio. Mas há também os que silenciam por conivência, conveniência, preguiça ou pela simples falta de vergonha na cara.

Vou indo de frente pra trás, de trás pra frente porque não há de se exigir ordem de um livro de poemas, encontro "Urgências" sem esquecer que lá pra trás (ou pra frente, depende o ponto de vista) ainda tem tanto a comentar. Me chama a atenção que, além de nos jogar na cara que tudo o que menos importa é tudo o que se torna sempre mais urgente, Leonardo traz pela segunda vez o grito das mulheres.

Me acalenta o coração. Um homem que escuta o grito das mulheres. Mais do que isso, um homem que expõe sem meias palavras os horrores vividos por elas nos países em guerra, nos países em paz, nos países onde existam mulheres a serem violentadas e homens dispostos a fazê-lo.

Em "Partir", comento ao rodapé da página: a morte não acontece na falência do corpo, mas no vazio da alma. Enquanto ele divide folha com "Vaga-lume", com o romantismo torto dos que sabem que são usados pelos outros.

Fui outra vez às profundezas de mim, da minha tristeza, com "Ouriço": "Minha identidade é profunda / Sou o ralo do mundo / Um buraco / Um homem-buraco / que nada há de preencher"

Ah, Leonardo, falaste à minha alma.

Serei incompetente como resenhista em não falar sobre o poema que fecha o livro. Não o farei mesmo. Lerei, tão logo me for possível, mais um desse livro que ganhará sua própria declamação.

Agora vai ser assim, então, Leonardo? Que assim seja.
Sua poesia abraçou minha alma.
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Agora vai ser assim
Leonardo Tonus

Editora Nós: São Paulo, 2018
86 páginas
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Leonardo Tonus é Maître de Conférences habilité à diriger des recherches na Sorbonne Université (França). Membro do conselho editorial e do comitê de redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada, com pesquisas sobre imigração. Em 2015, foi curador da parte francesa do Salão do Livro de Paris e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). Em 2014, recebeu a condecoração de “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Ministério de Educação francês e, em 2015, a de “Chevalier des Arts et des Lettres” pelo Ministério da Cultura francês. Publicou vários artigos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou, entre outros, a publicação dos ensaios inéditos do escritor brasileiro Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos. Civilização Brasileira, 2008) e as antologias La Littérature brésilienne contemporaine – spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016) e Escrever Berlim (Editora Nós, 2017).

~Maya

domingo, 8 de setembro de 2019

Há poesia no oculto

Valdir Cesar Conejo Junior, é o nome completo do poeta que trago hoje. Por causa da fila, só abri o material dele, enviado há 13 dias, efetivamente hoje. Valdir me enviou 7 poemas. Não posso postar os 7 pelo tamanho deles e pela plataforma a que lhe cabe.

Mas quero deixar um recado claro e explícito a Valdir, pelo tanto que li de seu trabalho: reúna mais alguns de seus poemas nesse nível e faça o favor ao mundo de enviar à apreciação de uma editora.

Ando distribuindo broncas a poetas por aí, que escondem pequenas jóias nos HD's de seus computadores enquanto a nossa literatura tenta se livrar do estigma de ser inferior só porque é nossa. Liberte teus versos, Valdir. Liberte-se, poeta.

Bons poetas não deveriam ficar escondidos.

Quero teu futuro livro para resenhar, Valdir.

Já que ainda não o temos, ficamos com uma seleção de poemas. Não os melhores, porque nenhum dos 7 pode ser posto como inferior aos demais. Nesse caso, meu caro, a curadoria foi obrigatoriamente aleatória.

A descoberta do ódio através cegueira

"o mundo pitoresco e caridoso dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos".
(José Saramago)

I

Demorei pra descobrir ódio escondido
nos alicerces da selfie
e ainda é turva imagem fora da rede social. 
Dizem que a cegueira acostuma gente.

Deve ter começado na primeira postagem,
não sei. Será que foi o vício numa espécie de reinado
que impediu minha visão além da tela?
Foi a rede me cegou, ou usei a rede como desculpa?

II

A violência travestida faz seu trottoir
e como a morfina ilude a mente enquanto alastra o câncer,
minhas imagens aplaudidas na rede levantaram
crença que nada existia além do meu reino:

minha mesa farta de likes regulamentava inexistência da fome,
o riso estampado na face da minha esposa esbanjava
alegria recatada e do lar
e meus stories com Cristo na igreja sacramentavam boa intenção.

Na rede não se enxergava o outro, sua necessidade, suas dores
e pouco importava que se fazia do lado de fora,

até que senti no sal do seu corpo,
nessa cama semi-usada,
nessa imagem que não será postada,
após pagar pelo serviço cujo espelho no teto é única testemunha,

dor de quem só se fez Geni pra alimentar os filhos.

E quantas Genis, iguais a ti, existem fora da minha rede,
noutros reinos, com outros likes e outros seguidores de padrão?
Será minha rede anti-social?

III

Quantas Genis vivem mudas nesse mundo dominado por cegos?

Quantas já calaram ante o falo?
Quantas viram grito da fome matar seus filhos?
Quantas vendaram imagem de Cristo na santa ceia?
Quantas, como ti, devem ter dormido torcendo
pra acordar sem olhos?
Quantas me reconheceriam além da selfie e da máscara
que me cega esconde meu ódio?

Quando deixei de notá-las?

IV

Quando a rede social passou orientar o que vejo?
Quando deixei de notar o outro?
Quando passei odiá-lo?

Foi o ódio que me cegou, ou usei a cegueira como desculpa?

A resposta só veio quando beijei seus olhos
e sua lágrima, Geni, indagou em braile
com muro dos meus lábios:

acorda, se não pode enxergar, escuta, mas escuta antes de escrever,
de postar, de falar,
escuta além do ouvido,
que palavra maldita é mãe da cegueira,
já reparou no que tem escrito?
porque você não soa quando escreve?
porque você não sua quando ama?
seja homem! não é assim que vocês dizem?
agora, vai culpar a rede pela odiosa doença?
oras, mas quem, além do homem, já teria
ódio suficiente
pra arrancar os próprios olhos?

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Crime de guerra

“Tudo é permitido a quem serve a uma causa santa”.
Eça de Queiroz

Visto a farda pra batalha de mais um domingo e mesmo não sendo capaz
de defender com fé as armas, os motivos, as doenças carregadas
pelo meu exército, confesso:
prima, não peço perdão pra crimes de guerra.

O corpo sacro que dissolve pecados da semana em minha boca,
não me absolve.
Profanei céus batizando nosso refúgio de paraíso.

Talvez o vinho amenize coágulos de culpa descendo a garganta seca.
Tateio anatomia da consciência e não consigo mensurar
a ferida do nosso crime,
queimaduras de 3° não deviam causar incesto pra mandar alguém à fogueira.

Não culpo a barreira de ouro no teu dedo, que deveria obstruir entrada
de outro soldado em chamas no teu peito,
nem culpo, prima, tua doença Basílica, teu descuido de ir pra guerra
sem tomar vacina contra aquele vírus de madame francesa,

neste país de epidemias coloniais era de se esperar que o exército da língua
portuguesa fizesse a festa
no teu corpo desacostumado a outras salivas latinas,
mas hoje é sabido que não se morre disso.

A indústria farmacêutico-literária tem mantido, por décadas, a sanidade
dos sobreviventes de guerra com livros de auto-ajuda.

Graças a eles teu sangue contaminado não me preocupa, mas outra doença
luso-literária tem tirado meu sono
e quem há de negar que essa me é superior,
se minhas narinas ardem ao odor do bendito sangue que bebo,
minhas mãos queimam ao tocar o sagrado corpo com o qual alimento exército
e meu pescoço coça aos domingos de farda celibática?

Uma vez que se experimenta o combate, corpo a corpo, prima, imagens da ação
nunca mais saem da cabeça e mesmo sabendo que,
ainda que eu mergulhe no vale das tentações, tudo posso pois
minha causa é escolhida por Deus,
sei que é impossível voltar são do campo de batalha.

Dr. Queiroz me diagnosticou com Mal de Padre Amaro e, sabendo que não há
cura pra tal doença terminal, espero
que nosso crime de guerra não tenha sobreviventes.
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Doador de órgãos

Foi o cheiro de meritocracia exalando
do teu discurso swing trade
que transformou meu amor à vida.
O desprezo ao outro
que pingou da tua saliva acionista fez
com que eu decidisse
doar os órgãos,
deixar
aos que precisam melhor de mim.
Eu mesmo pretendo arrancar
meus olhos
pra alimentar os cães,
cozinhar meus ruins pra que os gatos
de rua não morram de infecção
alimentar. Quero que meu fígado duro
qual carvalho seja curtido
em vinagre
e servido aos ébrios. Que meu coração
mal passado e ainda quente
aliemente
mendigos agasalhados
com gráficos da bolsa nos jornais.
Por fim, que minha língua crua
sirva de entrada aos vermes que vão
devorar
o resto de mim.
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Valdir César Conejo Júnior, mora em São José do Rio Preto - SP. Cursou ciências sociais, mas nunca deu aulas, prefere o outro lado da sala. É desenhista e poeta, possui poemas públicados no “livro da tribo”, “revista subversa: literatura luso-brasileira” e no livro “Oito Poetas, sete rupturas” pela editora Patuá.


~Maya

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...