terça-feira, 10 de setembro de 2019

Vai ser assim

Fui apresentada à Leonardo Tonus pela amiga e pesquisadora Regina Dalcastagnè, e foi um presente na minha vida. Não apenas porque Leonardo é um cara incrível, mas porque ele é um grande apaixonado por literatura (é sempre bom encontrar nossos pares) e, depois de ter o livro dele em mãos, descobri que ele é um poeta maravilhoso.

Li "Agora vai ser assim" num fôlego. O livro começa surpreendendo quando encontramos o título dele e do autor no verso, na quarta capa, enquanto na capa temos o trecho de um poema, nos convidando pra entrar. No convite Leonardo nos prepara para o baque. Ou pelo menos pra um pouquinho dele.



Talvez esse seja um dos meus maiores desafios como resenhista, porque esse livro não é algo que possa ser efetivamente descrito. Ele é sentido. Ele foi escrito com as vísceras.



Sei que não é de bom tom ou sequer elegante que um resenhista cite a si mesmo quando resenha trabalho alheio, mas encontrei nas entranhas do livro dois diálogos fascinantes com dois poemas de meu livro "Poemas para ler no Front". O primeiro, no poema "Um corpo sobre a areia", onde grafei tanto quanto foi possível, como a beleza dos versos "Eu perdi a voz / ao sair". Quando encontrei "à mulher que implorou / para que a criança não morresse / sobre a areia" ou "Não há poesia no corpo de uma criança afogada" me estapeou as fuças meu próprio poema "26", ali ele, composto de poucos versos, se encaixaria à perfeição pela homenagem ao garotinho sírio, morto em litoral europeu, com seu pequeno corpo à espera do banquete dos urubus. O poema de Leonardo, que será declamado em vídeo, me levou às lágrimas.

A segunda vez que tive vontade de contatar Leonardo pra conversar sobre nossos poemas que dialogam foi em "Conchas", onde, pelo final do poema, ele nos diz "Do silêncio / silenciado / resta apenas / o terror / das pedras de Alepo. / Você nunca ouviu o silêncio das pedras de Alepo". Desta vez, vejo que "Conchas" se encaixaria à perfeição como a oitava parte do meu poema "Aleppo".

Eu e Leonardo nunca nos vimos pessoalmente. Nunca dialogamos de fato, trocamos poucas palavras e compartilhamos de claras paixões. E nossas obras se sintonizam sem que houvesse qualquer contato prévio entre nós para que o diálogo acontecesse. Não que esses diálogos não planejados sejam raros, especialmente quando Leonardo tem uma veia poética semelhante à minha, com força, vinda do âmago, mas foi a primeira vez que flagrei de forma tão escancarada e me emocionou que esse diálogo tenha acontecido entre Leonardo e eu. É uma honra para uma eterna aprendiz como eu.

Claro que a grandeza da obra de Leonardo não se resume aos poemas citados. Rabisquei de tal forma o livro dele que talvez o deixaria envergonhado, ou orgulhoso do efeito que seu livro me causou. Muitos de seus poemas deixarei para gravar em vídeo porque merecem mais do que simples menções - todos eles merecem mais, mas se eu declamar o livro inteiro, vocês não o comprarão, e eu quero que todos vocês tenham esse livro em casa.

"Agora vai ser assim" é um grito poético. Leonardo Não tem medo de dizer o que precisa ser dito e o faz com uma força capaz de descongelar corações.

Em "Ich denke", Leonardo nos diz "Minha geração foi a geração do medo. / O medo insidioso penetrando todas as esferas do cotidiano.", achei interessante pensar que o livro que finalizei antes desse, "Jogo de Cena", tivesse o medo como a veia que interligava cada órgão pulsante daquele organismo livro, e venho estudando o medo como uma das maiores ferramentas de manipulação para uso em minhas próprias produções (trabalhar o fenômeno, não causar medo nos leitores, se acalmem), e Leonardo nos traz, nesse poema, as diversas formas de medo que sua geração viveu.

"Desconhecemos o valor dos silêncios" diz ele, lembrando-me com exatidão daquela quarta-feira, em 2016, quando diálogos distorcidos e usados de forma sensacionalista no programa de maior audiência da televisão aberta brasileira causaram uma onda de barulhos, entre panelas e palavrões, pelos bairros mais nobre de todo o país, "das sacadas de nossas varandas" confirma que o fazer poético encontrou morada em seu lugar na história.

"Penso no silêncio obsceno da humanidade / a que pertenço." e então me lembro do medo. Hoje há quem silencie por medo da horda de zumbis pré-programados ao ataque - um coração sensível e poético não suporta tamanha onda de ódio. Mas há também os que silenciam por conivência, conveniência, preguiça ou pela simples falta de vergonha na cara.

Vou indo de frente pra trás, de trás pra frente porque não há de se exigir ordem de um livro de poemas, encontro "Urgências" sem esquecer que lá pra trás (ou pra frente, depende o ponto de vista) ainda tem tanto a comentar. Me chama a atenção que, além de nos jogar na cara que tudo o que menos importa é tudo o que se torna sempre mais urgente, Leonardo traz pela segunda vez o grito das mulheres.

Me acalenta o coração. Um homem que escuta o grito das mulheres. Mais do que isso, um homem que expõe sem meias palavras os horrores vividos por elas nos países em guerra, nos países em paz, nos países onde existam mulheres a serem violentadas e homens dispostos a fazê-lo.

Em "Partir", comento ao rodapé da página: a morte não acontece na falência do corpo, mas no vazio da alma. Enquanto ele divide folha com "Vaga-lume", com o romantismo torto dos que sabem que são usados pelos outros.

Fui outra vez às profundezas de mim, da minha tristeza, com "Ouriço": "Minha identidade é profunda / Sou o ralo do mundo / Um buraco / Um homem-buraco / que nada há de preencher"

Ah, Leonardo, falaste à minha alma.

Serei incompetente como resenhista em não falar sobre o poema que fecha o livro. Não o farei mesmo. Lerei, tão logo me for possível, mais um desse livro que ganhará sua própria declamação.

Agora vai ser assim, então, Leonardo? Que assim seja.
Sua poesia abraçou minha alma.
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Agora vai ser assim
Leonardo Tonus

Editora Nós: São Paulo, 2018
86 páginas
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Leonardo Tonus é Maître de Conférences habilité à diriger des recherches na Sorbonne Université (França). Membro do conselho editorial e do comitê de redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada, com pesquisas sobre imigração. Em 2015, foi curador da parte francesa do Salão do Livro de Paris e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). Em 2014, recebeu a condecoração de “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Ministério de Educação francês e, em 2015, a de “Chevalier des Arts et des Lettres” pelo Ministério da Cultura francês. Publicou vários artigos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou, entre outros, a publicação dos ensaios inéditos do escritor brasileiro Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos. Civilização Brasileira, 2008) e as antologias La Littérature brésilienne contemporaine – spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016) e Escrever Berlim (Editora Nós, 2017).

~Maya

domingo, 8 de setembro de 2019

Há poesia no oculto

Valdir Cesar Conejo Junior, é o nome completo do poeta que trago hoje. Por causa da fila, só abri o material dele, enviado há 13 dias, efetivamente hoje. Valdir me enviou 7 poemas. Não posso postar os 7 pelo tamanho deles e pela plataforma a que lhe cabe.

Mas quero deixar um recado claro e explícito a Valdir, pelo tanto que li de seu trabalho: reúna mais alguns de seus poemas nesse nível e faça o favor ao mundo de enviar à apreciação de uma editora.

Ando distribuindo broncas a poetas por aí, que escondem pequenas jóias nos HD's de seus computadores enquanto a nossa literatura tenta se livrar do estigma de ser inferior só porque é nossa. Liberte teus versos, Valdir. Liberte-se, poeta.

Bons poetas não deveriam ficar escondidos.

Quero teu futuro livro para resenhar, Valdir.

Já que ainda não o temos, ficamos com uma seleção de poemas. Não os melhores, porque nenhum dos 7 pode ser posto como inferior aos demais. Nesse caso, meu caro, a curadoria foi obrigatoriamente aleatória.

A descoberta do ódio através cegueira

"o mundo pitoresco e caridoso dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos".
(José Saramago)

I

Demorei pra descobrir ódio escondido
nos alicerces da selfie
e ainda é turva imagem fora da rede social. 
Dizem que a cegueira acostuma gente.

Deve ter começado na primeira postagem,
não sei. Será que foi o vício numa espécie de reinado
que impediu minha visão além da tela?
Foi a rede me cegou, ou usei a rede como desculpa?

II

A violência travestida faz seu trottoir
e como a morfina ilude a mente enquanto alastra o câncer,
minhas imagens aplaudidas na rede levantaram
crença que nada existia além do meu reino:

minha mesa farta de likes regulamentava inexistência da fome,
o riso estampado na face da minha esposa esbanjava
alegria recatada e do lar
e meus stories com Cristo na igreja sacramentavam boa intenção.

Na rede não se enxergava o outro, sua necessidade, suas dores
e pouco importava que se fazia do lado de fora,

até que senti no sal do seu corpo,
nessa cama semi-usada,
nessa imagem que não será postada,
após pagar pelo serviço cujo espelho no teto é única testemunha,

dor de quem só se fez Geni pra alimentar os filhos.

E quantas Genis, iguais a ti, existem fora da minha rede,
noutros reinos, com outros likes e outros seguidores de padrão?
Será minha rede anti-social?

III

Quantas Genis vivem mudas nesse mundo dominado por cegos?

Quantas já calaram ante o falo?
Quantas viram grito da fome matar seus filhos?
Quantas vendaram imagem de Cristo na santa ceia?
Quantas, como ti, devem ter dormido torcendo
pra acordar sem olhos?
Quantas me reconheceriam além da selfie e da máscara
que me cega esconde meu ódio?

Quando deixei de notá-las?

IV

Quando a rede social passou orientar o que vejo?
Quando deixei de notar o outro?
Quando passei odiá-lo?

Foi o ódio que me cegou, ou usei a cegueira como desculpa?

A resposta só veio quando beijei seus olhos
e sua lágrima, Geni, indagou em braile
com muro dos meus lábios:

acorda, se não pode enxergar, escuta, mas escuta antes de escrever,
de postar, de falar,
escuta além do ouvido,
que palavra maldita é mãe da cegueira,
já reparou no que tem escrito?
porque você não soa quando escreve?
porque você não sua quando ama?
seja homem! não é assim que vocês dizem?
agora, vai culpar a rede pela odiosa doença?
oras, mas quem, além do homem, já teria
ódio suficiente
pra arrancar os próprios olhos?

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Crime de guerra

“Tudo é permitido a quem serve a uma causa santa”.
Eça de Queiroz

Visto a farda pra batalha de mais um domingo e mesmo não sendo capaz
de defender com fé as armas, os motivos, as doenças carregadas
pelo meu exército, confesso:
prima, não peço perdão pra crimes de guerra.

O corpo sacro que dissolve pecados da semana em minha boca,
não me absolve.
Profanei céus batizando nosso refúgio de paraíso.

Talvez o vinho amenize coágulos de culpa descendo a garganta seca.
Tateio anatomia da consciência e não consigo mensurar
a ferida do nosso crime,
queimaduras de 3° não deviam causar incesto pra mandar alguém à fogueira.

Não culpo a barreira de ouro no teu dedo, que deveria obstruir entrada
de outro soldado em chamas no teu peito,
nem culpo, prima, tua doença Basílica, teu descuido de ir pra guerra
sem tomar vacina contra aquele vírus de madame francesa,

neste país de epidemias coloniais era de se esperar que o exército da língua
portuguesa fizesse a festa
no teu corpo desacostumado a outras salivas latinas,
mas hoje é sabido que não se morre disso.

A indústria farmacêutico-literária tem mantido, por décadas, a sanidade
dos sobreviventes de guerra com livros de auto-ajuda.

Graças a eles teu sangue contaminado não me preocupa, mas outra doença
luso-literária tem tirado meu sono
e quem há de negar que essa me é superior,
se minhas narinas ardem ao odor do bendito sangue que bebo,
minhas mãos queimam ao tocar o sagrado corpo com o qual alimento exército
e meu pescoço coça aos domingos de farda celibática?

Uma vez que se experimenta o combate, corpo a corpo, prima, imagens da ação
nunca mais saem da cabeça e mesmo sabendo que,
ainda que eu mergulhe no vale das tentações, tudo posso pois
minha causa é escolhida por Deus,
sei que é impossível voltar são do campo de batalha.

Dr. Queiroz me diagnosticou com Mal de Padre Amaro e, sabendo que não há
cura pra tal doença terminal, espero
que nosso crime de guerra não tenha sobreviventes.
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Doador de órgãos

Foi o cheiro de meritocracia exalando
do teu discurso swing trade
que transformou meu amor à vida.
O desprezo ao outro
que pingou da tua saliva acionista fez
com que eu decidisse
doar os órgãos,
deixar
aos que precisam melhor de mim.
Eu mesmo pretendo arrancar
meus olhos
pra alimentar os cães,
cozinhar meus ruins pra que os gatos
de rua não morram de infecção
alimentar. Quero que meu fígado duro
qual carvalho seja curtido
em vinagre
e servido aos ébrios. Que meu coração
mal passado e ainda quente
aliemente
mendigos agasalhados
com gráficos da bolsa nos jornais.
Por fim, que minha língua crua
sirva de entrada aos vermes que vão
devorar
o resto de mim.
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Valdir César Conejo Júnior, mora em São José do Rio Preto - SP. Cursou ciências sociais, mas nunca deu aulas, prefere o outro lado da sala. É desenhista e poeta, possui poemas públicados no “livro da tribo”, “revista subversa: literatura luso-brasileira” e no livro “Oito Poetas, sete rupturas” pela editora Patuá.


~Maya

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Espionagem à brasileira

Sou do começo dos anos de 1980, tive minha pré-adolescência e adolescência nos anos 1990 onde o grande nome da literatura infanto-juvenil era Pedro Bandeira, pegando carona ainda nos livros da Coleção Vagalume, que pertenciam à minha irmã, 5 anos mais velha. De Pedro Bandeira, meus favoritos eram os livros das série Os Karas, um grupo de adolescentes investigadores. Na Vagalume, Escaravelho do Diabo virou livro de cabeceira, sobre o misterioso assassino que escolhia suas vítimas pela cor do cabelo e mandava um escaravelho via correio como aviso. Tinha ainda as promoções da Nescau, que eu não sei direito como funcionava, mas sei que minha mãe fez os trâmites e eu recebi o livro "Sangue Fresco" pelo correio, onde crianças eram sequestradas e levadas a uma ilha onde eram devoradas por jiboias.

Daí para grandes clássicos como Agatha Christie e Sidney Sheldon foi um pulo. Em 2004 Dan Brown fez sua estreia no Brasil com o best seller "O Código DaVinci". Foi estrondoso. Lembro com clareza que foi a primeira vez que vi pessoas andando nas ruas com um livro na mão. Também foi a primeira vez que consegui conversar sobre livros com pessoas que se diziam avessas à leitura.

Depois tivemos fenômenos de outros gêneros literários, como fantasia pelo bruxinho Harry Potter que também abocanhou uma fatia de público que antes não era leitora, mas os romances policiais sempre foram grandes propulsores da literatura como um todo. Pelo menos eu, na minha experiência de leitura compulsiva que nunca teve muito espaço de debate sobre as obras lidas, era justamente no romance policial que encontrava alguns pares.

Mas, tirando os autores nacionais da minha adolescência, os clássicos policiais que conhecia sempre vinham de fora. Não posso negar que, por muito tempo, minhas leituras foram condicionadas pelos livros expostos em vitrines ou na lista dos mais vendidos, e, por muitos e muitos anos, ambos foram completamente dominados pela literatura estrangeira. Não é incomum, até hoje, em plena era da informação, encontrar leitores que só consomem literatura estrangeira pelo preconceito de achar que o que é produzido no Brasil é de má qualidade e ser, ao mesmo tempo, incapazes de citar um livro de autor nacional que tenham lido para confirmar sua teoria.

Há muito já não lia mais quase nada de policial até conhecer Andrea Nunes nas esquinas da internet. Uma mulher brasileira produzindo romance de espionagem. Mesmo que tenhamos Agatha Christie como um dos maiores nomes da literatura policial de todos os tempos, ainda é um desafio, em pleno século XXI, para mulheres encontrarem espaço em determinados gêneros, e o policial é um deles. Me interessei instantaneamente. Depois de uma leva de livros suaves ou poéticos, tinha em minhas mãos uma narrativa concreta e com, obrigatoriamente, assassinatos.



O resumo mais resumido possível de "Jogo de Cena" é: um corpo é descoberto, afogado, no Rio Lindo, município de Mangueirinhas, Pernambuco, com um pente de ouro e cabelos. O corpo é reconhecido como do boticário francês Michel Simon, e Alexandra, jovem delegada e enteada do antigo delegado, se vê obrigada a conviver com o filho do padrasto, o historiador Pedro, especialista em folclore, por conta do pente encontrado no corpo, que remete à lenda da mãe d'água.

Logo de largada, em um dos primeiros capítulos do livro, depois de sermos apresentados ao boticário, perseguido pelo temível braço armado da Skull and Bones - organização secreta que mantém entre seus membros algumas das pessoas mais poderosas do mundo, e que Andrea mesmo brinca, em determinado ponto do livro, que a organização é tão secreta que todo mundo conhece, somos apresentados à Alexandra, que assume na delegacia a cadeira que pertenceu a seu padrasto, tratado no livro todo como um pai de criação. Em seguida, somos jogados para o meio do mato, em um local secreto onde funciona uma seita. Nessa seita, o mestre dá a um novo discípulo uma missão de grande importância. Não sabemos quem é o mestre, quem é o discípulo nem qual a missão, somente que a missão não é nada boa.

Neste capítulo de apresentação da seita, anotei no rodapé que não fica claro de que natureza é essa seita, e isso é parte fundamental do mistério que nos espera. A seita se oculta da história por quase toda a sua extensão, depois da apresentação, a ideia da autora, ao que me parece, é justamente que nos esqueçamos dela - e funciona, eu li o livro em 3 dias e esqueci completamente dela. Na minha tentativa de desvendar os mistérios sozinha, passei radicalmente longe do real desfecho.

Ainda na fase de apresentação de personagens, conhecemos Tássio Galvão, um General que atua na Eletronuclear, empresa de energia onde usa de sua influência para um trabalho alheio à sua função. Ao que parece, ou nos sugere Andrea nesse capítulo, Tássio auxilia alguém externo à empresa em pesquisas sobre energia.

Nas sinopses do livro, facilmente encontradas pela internet, vemos que o livro trabalha questões energéticas com a futura crise do petróleo - que na vida real já destruiu países inteiros - misturado com o folclore nordestino - e aí entra a figura de Pedro, o historiador. Nesse caso, o General Tássio vem na contramão dos grupos dominantes em sua tentativa de auxiliar uma pesquisa sobre fontes energéticas mais limpas, mais baratas e, por consequência, menos lucrativas aos grupos que pagam bem para comandar o planeta.

O que parece relativamente simples, entretanto, passa longe disso. Depois da apresentação do General Tássio, embora ainda estejamos confusos com a morte do boticário - alguém que fabrica perfumes - a ligação entre crise energética, perfumes e folclore nordestino parece algo totalmente impossível de ser feita. Não temos elementos óbvios para entender como as três coisas conseguem andar juntas, e isso, por óbvio, é um mérito da autora.

Algumas coisas, nesse carretel, começam a ter elementos desvendados a conta-gotas. Primeiro sabemos que o boticário mora na casa paroquial, como um favor do pároco Joaquim, e que a casa paroquial está próxima a um engenho desativado em meio à mata, que mais pra dentro da mata funciona a seita apresentada no começo do livro e que tem como matéria sagrada elementos retirados da mata, e todo esse terreno está em processo de desapropriação para construção de casas populares.

A teia cresce. Temos um poder público pressionando a delegada para a solução do afogamento porque a área da desapropriação também pode ser uma cena de crime, a igreja pressionando porque a vítima residia na casa paroquial, a seita temendo perder seu espaço junto à mata e uma crise energética que parece ter pouca relação com o resto todo.

Na página 46 do livro, ávida para desvendar sozinha o mistério - e claro que Andrea não me permitira conseguir esse feito tão cedo - anotei no rodapé da página: "A seita é comandada pelo padre!!!!". Ops. Er... não. Na verdade passei tão longe que quando os leitores dessa resenha lerem o livro, encontrarão motivos para rir da minha cara. Não quero dar spoilers, mas deixando um pequeno escapar: a seita é parte do brilhantismo de um personagem criado por Andrea pra dar um nó no cérebro mesmo. A ideia é sair do "Jogo de Cena" vendo o mundo girar mais rápido do que o normal.

Na página 48, eu mesma assumo. O pároco não é o mestre. Falo isso sem medo de estragar surpresas porque surpresa é o que não falta no livro. Sigamos.

Na sequência, conhecemos Vado, ativista de uma ONG voltada à preservação do meio ambiente. A ONG, até aquele momento, vem sendo a maior pedra no sapato da gestão municipal quanto à desapropriação do terreno, alegando que a construção das moradias populares será uma agressão à mata atlântica. Em determinado ponto, o prefeito chama os membros da ONG de "baderneiro". Em um cenário em que a maior preocupação do prefeito é assumidamente sua reeleição e que as moradias populares serão seu único trunfo eleitoral, vemos que há portas para uma discussão externa à obra sobre a atuação da ONG, uma vez que, de um lado temos um grupo não governamental visando a preservação ambiental e um político aparentemente inexpressivo buscando em uma ação emergencial garantir sua permanência no poder.

A reação das personagens no diálogo deixa claro que não é uma concordância, um consenso de que a ação da ONG seja efetivamente uma "baderna", uma tentativa de frear o progresso da cidade ou o prejuízo latente aos necessitados. Entretanto, Andrea, sem interesse em levantar bandeiras óbvias em uma obra de espionagem, apresenta o contraponto ao informar que Vado, o ativista, também tem interesses políticos sobre suas ações. Não tira o mérito da ONG ou da causa, só coloca o personagem no mesmo patamar de seu inimigo.

A rede de intrigas ganha uma nova dimensão quando Alexandra e Pedro se deparam com o laboratório do botânico. Faria sentido um perfumista estar próximo à natureza para a descoberta de novas fragrâncias, mas o que eles encontram é um laboratório de uma sofisticação incomum. E é aí que entra o mistério central da obra.

Não me cabe aqui trazer as respostas dos mistérios contidos no livro, tampouco revelarei as próximas vítimas ou os responsáveis pelas mortes que ainda ocorrerão na pequena cidade pernambucana sob o disfarce das lendas populares, mas aconselho o leitor que prefira ser totalmente surpreendido que pare por aqui sua leitura.

Vamos continuar?

Tem certeza que quer saber?

Jura?

Última chance.

Ok, na busca de nossos protagonistas para uma explicação que desvendasse a morte do boticário francês, Pedro, usando de todo seu conhecimento histórico e folclórico, conclui que o boticário não era exatamente um boticário, ou pelo menos não se dedicava à perfumaria. Era um alquimista, em busca da famosa e misteriosa pedra filosofal, aquela mesma citada em Harry Potter e, cuja menção por Alexandra irrita Pedro.

General Tássio entra outra vez em cena. Se por um lado Pedro conclui que Michel tentava descobrir a pedra filosofal por processos alquímicos, por outro Tássio aparentemente fornecia material para Michel pesquisar novas formas de energia. Isso irritava aquele mesmo grupo lá de cima, que lucra milhões com a exploração do petróleo mesmo sendo uma energia "suja", já em processo de escassez e cuja busca é motivo de guerras e muitas, MUITAS mortes.

A Skull and Bones entra em cena sempre com o objetivo de garantir que o status quo permaneça inalterado. No rodapé do livro comparei a parte armada da organização com as próprias milícias, que surgiram como um poder paralelo ao Estado até que virassem o próprio Estado. Skull and Bones é uma organização de poder ilimitado. Meu único erro, na comparação, foi que a organização descrita por Andrea faz o serviço sujo derramando o mínimo de sangue possível, enquanto as milícias, como sabemos, faz exatamente o contrário.

E o poder da Skull and Bones é global. Alexandra e Pedro embarcam extraoficialmente para a França, em uma tentativa de contato com Jean Pierre, um jovem gênio que trabalhava em parceria com Michel na questão da pesquisa energética. Não apenas os protagonistas são perseguidos pelos homens da organização paramilitar, como chegam tarde demais, Jean Pierre já foi levado sabe-se lá para onde por membros dessa organização.

 - Aqui cabe uma ressalva interessante: na página 131 Andrea nos fornecesse um breve resumo da teia formada até então, de tudo o que será desvendado até o final da obra.

Nessa viagem, no passeio de Alexandra e Pedro pela Catedral de Notre-Dame é que temos alguns dos trechos mais fascinantes do livro, para quem curte história, como eu. Pedro explica para Alexandra como os alquimistas, perseguidos pela igreja na Idade Média, torturados, mortos e sendo obrigados a viver na clandestinidade, conseguiram deixar sua marca em uma das igrejas mais famosas do mundo.

Essa situação é reforçada em diversos pontos do livro, de forma totalmente não-panfletária, a autora questiona as acusações de bruxaria e as perseguições contra alquimistas mesmo sendo estes responsáveis por diversas descobertas químicas que estão no nosso dia a dia até hoje. O próprio pároco Joaquim tem seu momento de reflexão. Ele, que está à beira do morte por um tumor inoperável, entra em um conflito moral entre sua fá cristã e a busca pelo elixir da vida longa alcançado por um processo alquímico que vem sendo perseguido há séculos (aqui falamos da pedra filosofal).

Essa passagem pela igreja é a que mais me lembra a obra de Dan Brown (antes de seus livros se tornarem demasiadamente previsíveis). Existe uma explicação concreta ali, histórica e simbólica que foi certamente fruto de MUITA pesquisa por parte da autora, perfeitamente incorporada à trama. Ponto para Andrea.

É quando Alexandra está em Paris que a cidade onde ela atua entra em calamidade outra vez com mais um corpo descoberto usando o folclore nordestino. A essa altura o povo, movido pelo medo de ser a natureza se vingando da provável destruição da mata para a construção das casas. Não fossem fatos que vieram mais tarde na trama, seria possível desconfiar a participação da ONG nos homicídios. Nada mais potente para mobilizar um povo (inclusive contra si mesmo) do que o medo.

Obviamente não foi somente a religião que usou o medo como arma para manter o controle sobre o povo, mas durante séculos, foi a que usou de forma mais eficaz. Tudo o que era desconhecido ou cujos detentores do conhecimento eram incapazes de explicar foi atribuído ao diabo e, qualquer tentativa de desvendar os mistérios da própria natureza era vista como diabólica, passível de fogueira por muitos séculos. Muitas mulheres que faziam inofensivos chás para cura de algumas dores (hoje encontrados em qualquer bazar com suas características curativas estampadas no rótulo) eram rotuladas como bruxas e queimadas vivas. O próprio conhecimento do lado de fora das metáforas bíblicas era pecaminoso - e ainda o é. Hoje, por exemplo, vivemos novamente em tempos sombrios onde toda a produção de conhecimento está sendo abertamente destruída em nome de verdades particulares baseadas em conveniências ainda mais particulares.

Na página 223, por exemplo, Pedro explica à Alexandra brilhantemente sobre o poder que o medo fornece a quem o usa como arma:
"- Pessoas inteligentes e manipuladoras, ao longo da História, souberam trabalhar os maiores medos de determinadas comunidades para leva-las a aceitar o que elas queriam".

A relação do poder com o medo foi o que levou à ascensão do Nazismo, na Alemanha. O discurso do medo foi o principal trunfo de Hitler, inicialmente voltado contra comunistas para depois começar a implacável perseguição aos judeus. No Brasil, em 1964, a população apoiou a tomada do poder pelos militares, cientes do cerceamento de uma série de direitos civis - que se acentuaria com o AI-5 com exatamente a mesma justificativa: o medo do comunismo.

O fantasma comunista que assombra a mente dos mais ingênuos voltou às terras tupiniquins tanto no golpe de 16 quanto à posterior eleição de um extremista de direita, ou seja, a população chegou ao ponto máximo da extrema-direita com medo desse inimigo imaginário que permeia as mentes brasileiras desde a década de 1960. Nos Estados Unidos, como o próprio personagem Pedro citou no livro, o que elege um presidente é a promessa de segurança contra o terrorismo não importa a que custo, e no Brasil o motivo central da eleição do atual presidente foi a promessa da liberação de armas para dar ao povo uma falsíssima noção de segurança.

Alexandra pergunta à Pedro se ele pensa que o uso do folclore local é uma forma de manipulação. Sim, era. Explorar o medo de uma população é a forma mais rápida de fazê-la agir da forma que se deseja que ela haja.

No canal do youtube Tempero Drag, comandado pelo professor Guilherme Terreri na pele da drag Rita Von Hunty tem um vídeo justamente sobre a indústria do medo, com o perdão do trocadilho, tema que foi o tempero central para as ações ocorridas na obra de Andrea. Não eram - e nunca se pensou que fosse - os personagens das lendas que cometeram os homicídios, mas o imaginário popular aceitou e abraçou a superstição para agir de acordo com os interesses do assassino que, descobriremos mais tarde, se tratar de uma pessoa de elevado conhecimento.

Os desfechos explorados pela autora são nos apresentados sem dó. A saída do General Tássio do jogo de cena montado pela autora é, para mim, um dos momentos mais chocantes e inesperados do livro. De forma prática, não fez exatamente muita diferença no enredo como um todo. Tássio foi praticamente um figurante na obra para representar, em pouca escala, a questão energética, mas a forma como a autora o retirou da trama não apenas contribuiu para a riqueza da narrativa como trouxe um elemento importante para o desfecho. O primeiro deles.

Sim, tem dois desfechos.

Daqui pra frente, continuar trabalhando a trama específica do livro é literalmente contar o fim, coisa que não vou fazer.

O que posso fazer, para concluir essa resenha, é dizer que Jogo de Cena tem como protagonista algo que vai além de Alexandra e Pedro: o medo.

O medo da perda do poder que levou à atuação da Skull and Bones, o medo de assumir seus sentimentos que permeou a relação de Alexandra e Pedro (que inclusive não mencionei nem uma linha), o medo do caos energético que levou Tássio da trabalhar de forma clandestina, o medo de Michel em volta de suas pesquisas, o medo de Jean Pierre que se viu obrigado a uma atitude drástica, o medo do desconhecido e da perda de seu poder sobre o povo que levou a igreja a transformar alquimia em uma atividade clandestina. O medo de lendas e folclore que foi usado contra o povo de Mangueirinhas para atingir os objetivos de quem estava por trás de tudo isso.

Jogo de Cena não tem a mesma agilidade das obras de Dan Brown - e isso está longe de ser uma crítica negativa - mas tem fôlego, tem pesquisa intensa e muita informação histórica embasando as ações dos personagens, tem uma narrativa muito bem desenvolvida, tem mistério, tem pistas que levam o leitor a um lugar quando deveria estar em outro formando o conjunto completo de uma obra policial de qualidade.

E tem o toque humano. Sem contar o momento mágico em que vemos um fenômeno comum na imprensa, quando quer manipular opinião pública com uma simples manchete: levar as pessoas a acreditarem em uma mentira contando apenas a verdade (e confesso que esse é meu momento favorito no livro).

Jogo de Cena é um romance policial brasileiro que não perde nada - e nem teria motivos para perder - das obras do gênero que consumimos aos montes assinadas por autores estrangeiros. Há tempos não lia um romance policial. Gostei do que vi. Não é uma peça única de crime e investigação; tem sustância, tem miolo, tem conteúdo. Tem competência - e não é pouca - da autora.
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Jogo de Cena
Andrea Nunes

Cepe: Recife, 2019
325 páginas
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Andréa Nunes é promotora de Justiça de combate à corrupção em Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror. É ainda autora de "O Código Numerati" e "A corte infiltrada".

~Maya

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Casca grossa

Carlos Figueiredo entrou na minha vida através da minha amizade com sua esposa, a talentosa poeta (e pessoa incrível) Mell Renault (vai ter resenha do livro dela por aqui hora dessas). Foi em uma de nossas conversas coletivas que pedi que Carlos me enviasse algum material seu.

Gosto das sutilezas. Gosto dos textos imagéticos que você sente vontade dialogar, literalmente, com o personagem. No conto é uma característica que aprecio muito exatamente porque o espaço é curto, se não vamos conhecer o personagem em toda a sua intimidade, que nosso contato com ele seja então intenso. 

Foi mais ou menos isso que senti quando li esse texto enviado por ele. Ele tem mais tesouros escondidos que gostaria de mostrar pra vocês, mas é preciso respeitar criador e criatura, cada coisa ao seu tempo. No conto "A casca", que ele me enviou, a minha primeira leitura foi uma experiência, digamos, psicodélica. Enquanto acontecia o desfecho, eu via tudo colorido à minha volta como se não estivesse mais no meu corpo.

Li outra vez. Fui captando os elementos mais sutis do material aos poucos. E então deixei o conto morar em mim para que o quadro ficasse completo. 

E que belo quadro.

Gosto das sutilezas. Gosto quando o conto te pega pelo pé e te arrasta sem que você perceba.

Conheçam o conto "A casca", de Carlos Figueiredo.

A Casca

O som da colher batendo contra o caneco de metal é torturante e ela parece hipnotizada
com esse ritmo – O tilintar de um sino corrompendo seus pensamentos inquietos.

“Por favor, para com isso... que coisa irritante!” Ela ignora o pedido e mantém o
movimento. Parece uma máquina, somente o pulso gira – as engrenagens movimentam
a mão que por sua vez move a colher com habilidade da prática diária.

“Dá pra parar? Você quer me enlouquecer? Que merda de barulho irritante.”

Cezarina arremessa com raiva a colher dentro da pia, tomba a cabeça de lado e olha para
o café que enfumaça no caneco de metal. Um sorriso irônico brota como suor no seu
rosto.

“Eu falei, falei mas você não deu ouvidos. Homem sabe de tudo, não é isso? Resolve
tudo que é qualidade de problema que aparece! Só. . . que agora não tem solução.” As
últimas palavras são ditas por ela em voz alta e num tom ameaçador.

“Não tem nada disso de homem faz tudo. . . resolve tudo! Não é nada disso mulher. Eu
tentei, arrisquei! E não deu! Parece que até você está contra mim, já não basta o resto
todo?” Fala ele com a calma e o tom de um religioso.

“Não estou contra você não, mas o que me perturba, o que não me deixa dormir, são as
crianças, vão ficar aonde? Com quem?” Ele não responde.

Cezarina coloca a frigideira em cima do fogão, risca o fósforo e acende o fogo.
Caminha em direção à geladeira e estanca o passo para olhar nos olhos de Hermes.
“Você, Hermes, parece que está tranquilo. Nós estamos sendo despejados, você sabe lá
o que é isso?” Ela pega um ovo na geladeira e fala sem olhar para trás: “Acho que você
ainda não se deu conta de que eu e as crianças não estaremos sozinhos, você vai morar
na rua também, Hermes!”

Cezarina, de costas para ele, quebra o ovo na borda da frigideira e um fio da clara
escorre entre seus dedos. Na sincronia da casca partindo, no rachar do cálcio, Hermes
sente uma forte dor no peito e o que escorre no canto de sua boca é uma saliva espessa.
Ela continua falando, mas ele não escuta nem a própria respiração. Uma forma
esbranquiçada pula banhada na gordura quente da panela, e o corpo dele apresenta
torções disformes. Seu coração parece explodir enquanto a gema ganha um amarelado
intenso. Cezarina, ainda de costas, fala. Fala sem saber que agora está tão só quanto
aquela casca de ovo partida, vazia, por sobre a pia.
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Carlos Figueiredo é escritor. Carioca, tem 50 anos, cinco filhos e é casado com a escritora Mell Renault. Com formação em cinema e fotografia, dirige atualmente uma produtora de book trailer. Nas artes plásticas pinta telas e ilustra livros.

~Maya

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Fissurada

Antes do projeto Bibliofilia começar, Henriette Effenberger me enviou um de seus livros de contos, Linhas Tortas. Um livro singelo, gostoso de ler, quase um carinho ao leitor. Foi por causa dele, do livro "Por Cima do Mar" de Deborah Dornellas e "A depressão tem 7 andares e um elevador", de Isabela Sancho que eu efetivamente comecei a resenhar livros, e foi dessas três resenhas, publicadas em meu perfil, que veio a ideia de criar o Bibliofilia.

Por ocasião do meu aniversário, em julho, Henriette me enviou "Fissuras", um livro que se aprofunda na alma humana como se fosse capaz de enfiar as mãos diretamente no coração.



O conto que inaugura o livro, por exemplo, relata situações de extrema violência como quem pede a margarina no café da manhã, denunciando o fenômeno de naturalização da barbárie de forma escancarada, quase ingênua. Em "O demônio, quando quer, fica bonito" temos basicamente um diálogo onde a própria narradora ameniza as dores sofridas, chegando a se dizer grata que não prenderam seu agressor porque era um homem bom. Qualquer pessoa com bom senso achará isso absolutamente terrível, mas é a ideia do conto, mostrar que quem está preso no espiral de violência não necessariamente se percebe dessa forma, e por isso é tão difícil romper o ciclo. Um conto curto com uma profundidade surpreendente.

Em "Pai Nosso", conhecemos o padre que não resiste à tentação de visitar um decadente bordel recém aberto. Sem perder o fôlego, Henriette trabalha dois conflitos, primeiro a tentação, depois o reconhecimento da vocação. É um conto belo, humano, tocante. Temos dois seres humanos vulneráveis, cada uma à sua forma e em lados opostos da moral cristã - o padre e a puta. O trabalho realizado nesse conto é de uma sensibilidade ímpar.

"Três apitos" é forte. É uma daquelas críticas sociais que nos estapeiam as fuças. O homem, doente, quase levado à morte para que fosse produtivo à empresa até que fosse seu último segundo de vida. Uma vida integralmente dedicada a gerar lucro para outros enquanto troca sua existência inteira por alguns trocados. Vida real. Vida real. Um conto para nos lembrar que no mundo que pertence à poucos, a nossa própria vida é posse dos mesmos que carregam nos bolsos o fruto do nosso suor.

A dor do abandono se expõe em toda a sua forma mais abrangente em "Miados ao Léu". Dois abandonos, da dona do gato e do gato. A demora para encontrar o corpo da mulher demonstra que ninguém sentiu a falta dela, exceto o gato, que se viu em apuros para se alimentar. Quando descoberta, foi a vez do gato de não ser lembrado por ninguém. Dois seres que juntavam seus abandonos e não tiveram um final feliz. Quantos vivem essa realidade? Não raro vejo pessoas dizendo que temem morrer e só serem lembradas pelo fedor da putrefação porque ninguém efetivamente sentiu falta delas.

A visão do gato, que não compreende a imobilidade da dona, é, sem dúvida, uma forma contundente de pensar na solidão dessa mulher - o único ser que a percebe, nada pode fazer por ela.

Já "navegar é preciso", que vem na mesma linha da fragilidade humana diante da solidão, foi uma história que, concretamente, não compreendi por inteiro, não me foi clara, mas me foi evidente e gritante a depressão da miséria, a sensação do fracasso. Foram sentimentos muito forte despertados pelo conto, demonstrando que ele foi muito mais uma experiência sensorial do que efetivamente um texto a ser lido concretamente.

Henriette não perde o fôlego ao nos trazer a percepção da perda do controle sobre si, a sensação de que toda sua autonomia é tratada como uma forma de senilidade, ou a sutileza do abandono transformado em caridade. O segundo caso é o que acontece no conto "A velha da Sacola", suja sutileza me passou, inicialmente, despercebida. Enquanto anotava no rodapé que a história tinha mais potencial e me pareceu inacabada, me caiu a ficha e eu compreendi que a chave do conto está em uma frase no meio da história, cujo final explica nas entrelinhas. De conto que me pareceu inacabado para um dos mais tocantes que já li, bastaram alguns segundos. Uma leitura desatenta e eu teria perdido o tesouro escondido nessa preciosidade.

A versatilidade na passagem dos contos também é um aspecto notável. Entre minhas anotações variam observações como "poderia ter sido escrito por mim", "não entendi o começo mas chorei no fim", "bando de filhos da puta" e "eita, maluco". Sim, nesse nível.

"Uma fantasia para Sofia" foi um conto que me marcou de forma muito profunda porque já escrevi uma história com uma ideia parecida. Perceber essa ligação com uma autora que admiro tanto como Henriette me causou grande emoção, além, claro, de o conto der uma preciosidade. Lindo e triste, como defini no rodapé do livro.

Depois partimos para os contos gastronômicos, divertidíssimos em sua linguagem tão diferenciada, nunca havia visto nada parecido, a singeleza da decadência em um circo ou a comparação do crescimento da criança com o brotar de uma abóbora.

Por fim, e talvez o que achei mais brilhante nessa irretocável obra de Henriette, foi o conto "Fissuras". Até pela capa do livro e os contos marcados por pessoas com suas próprias cicatrizes, jamais teria associado a palavra "fissura", à abstinência de um viciado. O livro encerra com chave de ouro, nenhuma surpresa para uma obra de Henriette.
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Fissuras
Henriette Effenberger

Penalux: Guaratinguetá, 2018
120 páginas
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Henriette Effenberger Romancista, cronista, contista e poetisa, foi premiada em dezenas concursos literários nacionais, em prosa e poesia, assim como em literatura infantil. Publicou em 2008 o livro de contos Linhas Tortas, composto exclusivamente por contos premiados em concursos literários, o qual teve a apresentação do escritor Ignácio de Loyola Brandão, o livro infantil As aventuras do Superagora e em 2018 publicou o livro de contos Fissuras, com apresentação de Maria Valéria Rezende. Como memorialista publicou Sociedade Sinfônica de Bragança Paulista – 80 anos de acordes em harmonia (2011) e Sindicato do Comércio Varejista de Bragança Paulista – 70 anos (2013). É coautora do romance A Ilha dos Anjos ( 2002), Aeroclube de Bragança Paulista – uma trajetória nas asas do tempo ( 2006) e Liga do Pico, Futebol e Pinga ( 2012). Foi vencedora do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, com o texto Vida de sabiá – o que sabiam os sabiás além de assobiar, editado em janeiro de 2014 e do Concurso Literário Cidade de Manaus – Prêmio Alfredo Fernandes, com o conto infantil O menino que engoliu um furação ( outubro de 2016). no prelo, para ser editado ainda em 2019.
É sócia pioneira, fundadora, ex-presidente e atual Diretora de Finanças da Associação de Escritores de Bragança Paulista-ASES (entidade cultural, sem fins lucrativos,fundada em 1992). Participa ativamente de movimentos literários tanto nacionalmente (Mulherio das Letras) como no município de Bragança Paulista, onde atua especificamente. Trabalhou intensamente pela criação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, em Bragança Paulista e foi a primeira presidente do CMIC ( em 2005/2006). Atualmente ocupa a cadeira de Literatura/Livros do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Bragança Paulista. Ministra palestras e oficinas literárias a alunos e professores de escolas públicas e particulares de Bragança Paulista.


~Maya 

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...