sexta-feira, 12 de julho de 2019

Desembrulhando: curadoria de julho

E cá vem mais um DESEMBRULHANDO!

(eu precisava receber mais caixas com surpresas pra ter mais desses)

Como sou assinante dos dois clubes da TAG, todo mês vai ter dois desembrulhando. Esse, portanto, é o segundo e último de julho. Dessa vez, desembrulhei o pacote da TAG Curadoria.

A caixinha do Curadoria é um pouco diferente da caixinha do Inéditos, dá um pouco mais de trabalho abrir. Refletindo agora parece até proposital pra aumentar a expectativa e a excitação de abrir as abas da caixa. Olha ela aí:


Assim como a Inéditos desse mês, por ser aniversário da TAG, os livros e mimos - que tem como proposta ser uma surpresa, foram previamente anunciados. Eu preferia que fossem surpresa, teria tido um brilho e tanto a mais, mas admito que comercialmente falando, foi muito inteligente o anúncio, já que esse mês vieram 4 livros em cada caixinha.


A imagem acima é da abertura da caixa, a primeira imagem dela.


Esse foi o conteúdo da caixinha! Como eu já sabia o que vinha, minha grande expectativa era ver a diagramação dos livros, o que é um ponto muito forte da TAG, eles sempre são muito lindos. E tcharan, vieram assim!





Pra variar o livro principal é lindo e, como já tinha sido perceptível na outra caixinha, o box de clássicos é sensacional.

Reforçando para quem ainda não sabe:
Se você quiser fazer parte do maior clube de leitura do país, assine aqui o curadoria e aqui o inéditos.
Assinando através desses links, você ajuda na manutenção deste blog!

(em breve começo uma campanha "quero ser curadora da TAG" hihihihih)

~Maya

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Conhecendo Ayrton

As redes sociais têm algo que é insubstituível: ter em nossa rede de contatos gente que não conheceríamos em outras situações.

E foi em uma chamada para apresentar o trabalho de outros escritores que Ayrton Neto me procurou. Timidamente, queria saber como funcionava para divulgar seu trabalho aqui. Esse tipo de situação me deixa ansiosa, nunca se sabe o que vai vir e, ao mesmo tempo em que quero manter um certo nível de qualidade nesse blog, também não quero ser a pessoa que fecha portas.

São sonhos. Sei muito bem como é, também tenho os meus.

Então Ayrton me mandou um texto. Li com gosto e vi que Ayrton é mais um daqueles casos de gente com talento que o mundo ainda não conheceu.

Então eu mostro.

Conheçam Ayrton Neto!

27.

era algo de outra vida.

não acredito em sobrenaturalidades. não valorizo essas inutilidades. essas explicações simplórias e as juras de certezas que ignóbeis arremessam ao vento. não comprimo meus sentimentos com astrologia, rivotril ou Jesus Cristo. eu acredito em mim, não no mundo e o que traz. mas era algo de outra vida.

tudo começou com meu cigarro escapando pra tua boca.

segurei teu braço, te dei abrigo e trocamos goles do que bebíamos. eu ouvia sua voz, eu juro, mas não a entendia. sou essencialmente tímido, mas te olhei e fiquei encarando. linda, era. com meu casaco, mais. vivíamos o desembaraço de uma mesa de bar, mas continuava sem entender nada. tive acesso aos teus sorrisos de boca fechada, mas não ao som de tua voz. estava furioso por isso, confesso. acendia um cigarro no outro. pouco ligava para as cinzas que manchavam minha calça preta. sei que balbuciava algumas palavras em troca das tuas, mas não as alcançava. queria entender. queria te ouvir. queria saber mais sobre quem não sei direito ainda quem é.

lembro que segurava um copo maior que o meu e que me entregou um livro. quis agradecer com um beijo no rosto, mas não pude. em um último gole do meu trago, encontrei sanidade o suficiente para ler em teus lábios sobre a importância do número vinte e sete. após isso, muni-me de amor e me despedi. nada mais me faltava nessa vida. decidi acreditar e esperar por ti nas próximas.

desde então, em cada copo que bebo e cigarro que acendo, sinto um pouco de ti.

_______________________

Ayrton Neto está há 24 anos à procura de divergência, por acreditar que a simetria seja politicamente correta demais.



~Maya

terça-feira, 9 de julho de 2019

Desembrulhando: para aquecer o coração

Sou aquela pessoa que junta moedas o ano todo pra renovar minha assinatura no clube de livros. A partir desse post, começarei a "desembrulhar" as caixinhas da TAG conforme elas vão chegando. Sei que essa prática de mostrar a abertura de pacote tem um nome específico em inglês, mas correndo o risco de errar a digitação, preferi colocar em português mesmo.

Vamos aos fatos: hoje chegou a caixinha da TAG Inéditos, que sou assinante desde que foi criada.


A-DO-RO quando as caixinhas chegam e abro beeeeem devagar pra me deliciar com a sensação. Pessoalmente acho a caixa (de papelão) do inéditos mais prática que a curadoria. Então, passei a tesoura na fita e voilà.


Uma das coisas mais emocionantes da TAG é que não só os livros são uma surpresa como o brinde que vem junto também é. Mas esse mês, aniversário da TAG, eles divulgaram que o mimo seria um box com três clássicos, por isso tive uma grande surpresa quando abri a caixa e dei de cara com o quadrinho e as frases. Inclusive foi o primeiro mimo da TAG inéditos e eu amei, pendurei na parede, então receber o segundo quadrinho me deixou super feliz.

De cara, achei que o quadrinho era um mimo pelo meu aniversário, que é no final do mês e já recebi surpresas de aniversário da TAG antes. E então puxei a cartinha que veio junto. Bom, me levou às lágrimas. Vou colar aqui o que escrevi no meu perfil de Facebook:
"Ano passado entrei em depressão e, por causa disso, perdi o emprego. Consegui requerer auxílio doença devido à gravidade. O auxílio era pouco porque era a média dos salários anteriores e eu ganhava um pouco mais que o mínimo. No começo desse ano, um dia depois de renovar a assinatura da TAG - Experiências Literárias inéditos, o governo cortou todos os benefícios e meus laudos de dois psiquiatras e um psicólogo foram ignorados. Era pouco mas era tudo o que eu tinha, e eu ainda estava doente. Entrei em pânico, fiz contato com a TAG pra cancelar a assinatura, acabei transformando nossa troca de e-mails em uma terapia. Eles foram compreensivos e iam cancelar sem me dar dor de cabeça, mas eu desisti. Literatura é o que me mantém viva, eu não podia abrir mão de uma das poucas coisas que eu enxergava de bom na vida enquanto ainda estava na fase aguda da doença. 
Mantive a assinatura. E hoje eles me fizeram chorar de emoção. É mais do que amor pelos livros, é vida."



Depois de me recuperar da emoção, fui explorar o box, dá uma olhada:



Reforçando para quem ainda não sabe:
Se você quiser fazer parte do maior clube de leitura do país, assine aqui o curadoria e aqui o inéditos.
Assinando através desses links, você ajuda na manutenção deste blog!

Valeu pessoal!

~Maya

domingo, 7 de julho de 2019

Bicharada

Intercâmbios entre autores é uma prática super comum, e foi numa dessas que Manoel Herzog me presenteou com sua obra Os Bichos. De imediato tive uma boa impressão, já que os capítulos são divididos entre os reis da França e os capítulos se iniciam todos com o depoimento de um animal. Sim, um animal, cujo ciclo se encaixa com perfeição começando pelo urubu e terminando pelo homem.

A história começa pela morte - o que, para quem conhece meu trabalho, combina lindamente comigo - não só pelo primeiro animal ser o urubu, animal que come carniça, o resto apodrecido do corpo morto alheio, mas porque somos apresentados ao protagonista Luís Theófilo em um velório.



Luís Theófilo que amava Agda, que era filha de Lira, inimigo do pai de Theófilo. Agda o amava de volta, mas por conveniência política casou com o filho do prefeito. E tudo começou porque Theófilo não queria se envolver com política, moralista que era.

A ironia fina que se desenha na obra é fascinante: Theófilo, moralista, mantém o relacionamento extraconjugal com Agda e acaba se entregando aos braços sujos da corrupção política usando sua influência como advogado.

Os bichos, todos eles, têm alguma ligação com Theófilo, e a maioria deles sucumbe nas mãos de Francinaldo, que trabalha para Theófilo na fazenda. Embora a história de Theo, como é chamado pelo seu cachorro Hector, seja muito boa, as histórias dos bichos e sua morte relatada por eles mesmos (nem todos morrem em seu próprio relato, importante destacar) dão um brilho extra à obra.

Embora todas as histórias dos bichos sejam excelentes, não posso deixar de destacar a história do robalo, o peixe que acredita que os camarões artificiais são praticamente dádivas divinas e descreve sua pesca - sem saber o real significado dela - como o próprio arrebatamento cristão; e a história da abelha, que está em julgamento por ter iniciado uma verdadeira revolução na colmeia depois de experimentar do manjar dos deuses que deveria ser exclusivo da rainha. No relato da abelha temos uma amostra grátis de como nossa própria sociedade funciona.

Aliás, o próprio Theófilo nos traz de tanto em tanto um comparativo/reflexo da nossa sociedade, a mesma sociedade que vivemos há séculos, tornando impossível que os comparativos feitos por Herzog em seu livro um dia se vejam datados.

No meio dessa loucura toda ainda estão os arcanos e os reis da França, eventualmente todos explicados pelo personagem Luís de Lira, pai de Agda. Um sujeito que não sabemos definir o caráter em momento algum do livro - mais condizente com a realidade política.

Fiquei um tempo refletindo como resenhar um livro com tantas nuances diferentes e confesso que não me dou por satisfeita. Falta de experiência como resenhista, certamente. Independente de qualquer coisa, é mais fácil dizer ao leitor: "leia que vale a pena" do que tentar desfazer esse nó. Creio, honestamente, que além do prazer de ler um livro dessa natureza, ainda vou acordar, dentro de alguns meses, com uma epifania sobre ele.

Sim, é o tipo de livro que fica armazenado na cabeça para nos dar um susto tempos depois com uma grande revelação que ultrapassa suas páginas.

________________________

Os Bichos
Manoel Herzog

Realejo: Santos, 2012
141 páginas

________________________

Manoel Herzog nasceu em Santos, em 1964 e iniciou na literatura em 1987 com Brincadeira Surrealista, poemas. Em 2012 publicou Os Bichos, romance, pela Editora Realejo. Em 2013, Companhia Brasileira de Alquimia, romance, pela Editora Patuá. Em 2014, também pela Editora Patuá, o pornoépico A Comédia de Alissia Bloom, terceiro lugar no prêmio Jabuti 2015. Em 2015 lançou O Evangelista, romance. Em 2016 foi a vez de Sonetos de Amor em Branco e Preto, poemas, com apoio do Proac. Ainda em 2016 lançou Dec (ad) Ência, romance, pela Patuá, em 2017 A Jaca do Cemitério é Mais Doce, pela Alfaguara e em 2019 Boa Noite, Amazona, também pela Alfaguara.



~Maya

_______________________
TAG central de vendas!
Se você quiser fazer parte do maior clube de leitura do país, assine aqui o curadoria e aqui o inéditos.
Assinando através desses links, você ajuda na manutenção deste blog!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Galeria

Esse é um blog literário, de valorização de escritores, livros, editoras e guardanapos usados com sabedoria. Isso não significa que nossos escritores não tenham outros dons artísticos além das palavras, afinal, a sensibilidade necessária para escrever um bom livro pode sim se converter em outras obras fantásticas.

Certamente não faltarão exemplos desse intercâmbio artístico ao longo da vida útil desse blog, mas hoje estreamos essa legítima galeria com uma escritora de incontestável talento: Deborah Dornellas.

Para quem não conhece essa brasiliense premiada no Casa de Las Americas, Deborah é autora do livro Por Cima do Mar, uma obra maravilhosa, cativante e muito merecedora do reconhecimento que conta, em suas páginas, com o trabalho de ilustração da autora.

Fiz resenha desse livro em meu perfil pessoal e eventualmente trarei o texto pra cá, mas por hora, trago a vocês uma das muitas qualidades desse livro incrível: o talento de Deborah nas ilustrações. São incríveis, fortes, de uma beleza ímpar.

Se deliciem com as ilustrações da escritora Deborah Dornellas. E se você escreve e faz outras artes, mande conteúdo no inbox da página no face para nossa curadoria!














Gostou? Não deixe de acompanhar o trabalho da Deborah. Em breve retornaremos ao trabalho dela com a resenha de Por Cima do Mar e sua bio!

~Maya

_______________________
TAG central de vendas!
Se você quiser fazer parte do maior clube de leitura do país, assine aqui o curadoria e aqui o inéditos.
Assinando através desses links, você ajuda na manutenção deste blog!

terça-feira, 2 de julho de 2019

Poemas de cobra coral

Nos tempos em que fui deixando de ser besta de acreditar que eu seria descoberta pela maior editora do país, teria meus livros traduzidos para 600 línguas e dialetos e, ao final de uma curta jornada, seria a primeira brasileira a trazer o Nobel pras terras brazucas, comecei a desvendar um pouco do mundo literário ao meu redor. O real, o palpável, o lotado de gente boa pra cacete e completamente fodida que vai levar a vida inteira pra ser resenhada por gente de nome importante, ou que talvez nunca figure na lista dos mais vendidos.

Claro que quando comecei a enxergar a vida real que me cerca também dei de cara com gente com pedigree, gente que já foi manchete da Folha, gente que já ganhou prêmio graúdo, gente que já esteve na programação da Flip ou já foi curadora da TAG. Mas também encontrei gente que, daqui do interior do RS onde resido, jamais ouviria falar se não tivesse tirado a viseira da vitrine da livraria bastantão ou do selo que maior status comercial.

Não que eu tenha parado de consumir os autores que todo mundo se derrete quando lê o nome, mas comecei a visitar as lojas virtuais das editoras independentes, de pequeno porte, aquelas em que o editor tá na mesma vibe do autor de trabalhar de coração cheio e bolso vazio.

Foi num desses passeios que conheci o Ian Viana. Mentira, conheci um livro dele. Ian é de Brasília, uma terra onde mora um monte de gente que eu amo loucamente, tipo stalker mesmo, mas Ian eu não conhecia. Não o stalkeei, na verdade só tive acesso a ele quando postei no meu perfil que faria a resenha do seu livro e ele mesmo me adicionou, agorinha, questão de uns três dias, no máximo. Nunca conversamos, peguei seu livro sem fazer a mais vaga ideia do que esperar. Zerada de qualquer conceito prévio sobre Ian como pessoa ou como autor.

O causo é que eu me encantei com o nome do livro, "Eu era aquela cobra coral no quintal da tua infância". Não sabia, a essa altura, sequer que gênero era o livro, mas pouco importava, eu realmente amei o nome. Me fisgou, me picou, e eu queria a cobra coral na minha biblioteca.

O livro chegou. Poesias. TCC me sufocando e o livro foi ficando ali de lado. Prioridade, né amores? Até aquela quarta-feira em que eu chegaria muito cedo no meu compromisso, o livro é fininho, tinha terminado outro de manhã, o outro era magnífico, fiquei receosa de ler esse e achar ruim por ainda estar órfã do outro. 



Um frio do cacete, eu mal agasalhada em um corredor, abri o tal do livro da cobra coral. De pé, esqueci do frio quando cheguei na primeira parte, "vermelho" e mergulhei no primeiro parágrafo:

"Eu era aquela cobra coral no quintal da tua infância em Pium. Você deve se lembrar. Até hoje eu me lembro dos teus olhos de medo e curiosidade. Era uma manhã seca de agosto. Teu pai me acertava com um pedaço de ferro de alguma daquelas máquinas dele e tua mãe chorava dentro de casa".

Foi um soco. A breve prosa ainda continua, e continuou apertando o nó que se formou na minha garganta. Li de novo. E de novo. Não para entender, porque o texto é claro, mas porque durante cada leitura, eu era aquela cobra coral no quintal da tua infância.

Não chorei porque eu estava batendo queixo em um corredor gelado por onde passava gente. Estava de pé, não tinha uma desgraça de um banco pra eu sentar e me encolher, me reduzir a essa cobra coral que vi morrer a golpes de ferro já na primeira página do livro. Vermelho.

O livro é dividido em três partes, nas três cores de uma cobra coral, vermelho, preto e branco.
Não encontrei ligação direta dos poemas com as cores, mas francamente, nem procurei. Nem tudo precisa ser ordenado de forma quadrada, na caixa, o que importa é que poema a poema, eu me sentia mais cobra coral.

Os primeiros poemas se converteriam em prosa com pequenas adaptações. Ian Viana por vezes abusa no sexo, abusa nas drogas, mas abusa também em um lirismo engajado que dá vontade sair marchando com o livro na mão. Ainda assim, meus poemas favoritos no livro são singelos, doces, quase um contraste em um livro de fúria. 

A cobra tem três cores, a obra tem muito mais de três nuances. 

Em um livro de poemas é comum termos os poemas não muito bons, os bons e os ótimos. Ian descartou a primeira classificação, vai do bom ao ótimo sem dificuldade.

Mas aquele primeiro parágrafo... ah, aquele me pegou de jeito. Ele me dói (e olha que eu tenho fobia de cobra), ele me fere bem dentro da alma, e foi aí que eu entendi que esse livro se tornou inesquecível.

____________________

Eu era aquela cobra coral no quintal da tua infância
Ian Viana

Patuá - São Paulo, 2018
79 páginas
___________________

Ian Viana nasceu em 1995. Diretamente de Brasília, se diz ex-militante, ex-cafajeste e ex-búfalo galopante dos sonhos. Discípulo espiritual de Roberto Piva (que é citado no livro), Ian integra o Coletivo Poético Assum Preto. Também escreve prosa, mas esse é assunto para outro post.


~Maya

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Outra Ana para amar

Semana passada, no Dia do Orgulho LGBTI, o post alusivo à data era um livro poético lésbico em homenagem a uma Ana. Pois hoje a Bibliofilia Cotidiana apresenta outra. Talvez Anas sejam fáceis de amar, não sei, não sou uma delas, mas Ana Farrah Baunilha certamente é dessas que a gente mete o olho e já sabe que é amor.

Como aqui não é o Tinder nem a Playboy, não me refiro à sua beleza ruiva desse mulherão da porra, me refiro à sua obra poética.

Ainda não tive de fato a oportunidade de ler seus livros (e certamente um dia o farei à luz de velas), mas acompanho seu trabalho pelo Facebook e não tem um texto dela por lá que não me deixe com vontade ser ela quando eu crescer (mesmo a gente tendo só um ano de diferença).

Ana tem uma perspicácia que faz com que seus poemas penetrem nos poros. Ela foge do óbvio, fala de amor sem pieguice, de sexo sem baixaria. Fala de ser mulher, de ser humana e tudo isso de um jeito que dá vontade de lamber a tela - ainda me prevejo comendo seus livros com molho vermelho.

E assim chegou ela ao Bibliofilia Cotiana nos presenteando com três textos que ainda estão para ser lançados. Sim, colega devorador de literatura, os textos abaixo são do livro "Demônio de Pelúcia", que só sai ano que vem e eu já quero desesperadamente (Deus, dai-me um emprego e renda para que eu não passe mais essa vontade).

Divirtam-se.



Revezava um dia para cada: o policial nas quartas e sextas, o ex presidiário nas terças e quintas. Nos finais de semana eles ficavam com suas respectivas esposas e eu inventava um terceiro que não me cobrasse nada. E toda segunda feira eu deixava livre para chorar em paz.

*

Já matou, ele disse
eu vi certo glamour no ex detento que me levou pra comer um xis e quebrar icebergs 
duas semanas de convívio e eu não agüentava mais preparar aperitivos e passar a bandeja para 20 cabeças como fosse uma garçonete que sorri forçadamente por uma gorjeta
larguei tudo na pia, saí pela estrada de terra até esticar meu dedo na BR e entrar na boleia de uma Scania pra chegar na minha casa e nunca mais sair
desde então não ponho a cara na rua
aprendi a tricotar com meus próprios cabelos e só pretendo parar quando terminar um cachecol que dê duas voltas no pescoço de um ciclope

*

e foi quando a equipe médica entrou no quarto que o Doutor recusou-me o tratamento e negou enfaticamente a minha internação, alegando que meu caso era de exorcismo e eu achei por bem não contrariar, embora enquanto ele falasse eu rasgasse minha camisola hospitalar gargalhando aos quatro ventos cortados

__________________

Ana Farrah é gaúcha de 1981. Teve sua escrita notada nas redes sociais quando seus textos começaram a ser publicados em blogs e revistas eletrônicas de literatura contemporânea no Brasil e em Portugal. Participou da coletânea de contos Sete Pecados, pela editora Scenarium Plural e da antologia ‘Contemporâneas’ na revista Vidas Secretas, editada por João Gomes. Publicou poemas também no Livro da Tribo, pela Editora da Tribo. É colaboradora/curadora na Mallarmargens, revista virtual de poesia e arte contemporânea. Escreve sem eira em poesia sarcástica, mas transita entre outros estilos. No momento, Ana trabalha com Estética e escreve nos intervalos entre uma massagem e outra. Publicou o livro "Orquídea Trepadeira e outras flores ordinárias", em 2017, pela Editora Benfazeja; em 2018 publicou “Os Mortos do Apartamento 21”, pela Editora Patuá. Seu próximo livro, ‘Demônio de Pelúcia’, tem previsão para lançamento no ano que vem.



~Maya

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...