sábado, 10 de agosto de 2019

A vez de Lucas

Lucas me procurou.
Sempre que um autor me procura querendo mostrar seu trabalho, dá aquele quentinho de que estou fazendo a coisa certa, ninguém oferece seu trabalho para quem não o valoriza, certo?

Muito que bem. Pedi a ele como peço a todo alguns textos, fotografia e minibio, até para manter o padrão do blog.

Mas como o blog é meu, não tenho problemas em quebrar padrões.

Lucas construiu uma plaquete. Meu blog, minhas regras, o primeiro pensamento foi: vou tirar duas ou três poesias dali e manter o padrão de divulgação do blog.

Mas e isso é respeito com o trabalho dos outros, menina?

Não, Lucas Grosso preparou uma plaquete com amor para os leitores do Bibliofilia e o mínimo que eu posso fazer é respeitar o carinho dele para com seu trabalho e seus leitores.

Por isso coloquei a plaquete no Drive do Bibliofilia, não faço ideia se fiz do jeito certo, mas está lá, disponível para leitura para quem clicar aqui!

Gostei bastante do trabalho do Lucas, que tem livro publicado pela Patuá.

Obrigada, Lucas, pela contribuição ao Bibliofilia. Tudo mais que eu poderia dizer já está dito na plaquete, e espero que os leitores do projeto apreciem tanto quanto eu.

~Maya

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Mais caixinhas

Hoje o post ia ser um desembrulhando, afinal, começo do mês é época de TAG em casa e o curadoria já chegou, mas vou aproveitar o embaço, empurrar o desembrulhando pra outro dia e divulgar mais essa opção de lindeza todo mês na sua casa.

Já tem um tempo que comecei a comprar livros das editoras independentes, que são as que mais abrem portas pra gente ainda sem pedigree e as que mais sofrem os efeitos das dificuldades oferecidas por uma bela crise, como vive nosso futuro Haiti, ainda chamado Brasil.

Uma dessas editoras, por quem tenho enorme apreço, é a Patuá. Óbvio que o fato de meu último livro ter saído por essa editora conta muito, mas também vocês devem ter reparado que a maioria dos livros aqui resenhados levam esse mesmo selo - não, isso não é uma nova espécie de bairrismo, é só que quando eu assinei contrato, comecei a prestigiar os colegas, e depois quando fui conhecendo melhor as outras, eu já estava sem renda...



Mas enfim, voltando ao que interessa. Como comentei antes de pegar o desvio, a maioria dos livros resenhados até o momento são da Patuá, e vocês devem ter notado quantos elogios tenho feito, certo? Pois foi que Eduardo Lacerda, nosso editor, criou seu próprio clube de leitura!

Sim! Agora temos o Clube de Assinaturas da Editora Patuá! Clicando ali no nome você cai direto na página onde são oferecidas três opções de assinatura: prosa, poesia e prosa+poesia.

(imagine as chances que você tem de receber meu bebê em casa em algum desses meses?)

Enfim, todos sabemos que a situação não está nada boa pra ninguém, mas o legal desses clubes é que acaba nos tirando da zona de conforto, possibilitando conhecer novos autores, livros que não conhecíamos e não compraríamos exatamente por isso.

Que seja muito bem-vindo esse novo clube, e que tenha vida longa!


~Maya

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Aos gatos que sobreviveram

Não faço a menor ideia de como conheci Rafaela, mas estava numa fase que ainda podia prestigiar nossos autores nacionais e comprei o seu "Enterrando Gatos". Nunca fui muito fã de ler contos e esse blog não estava nem em fase embrionária para eu me propor a ler o livro de Rafaela, mas comprei.

Terminei a leitura ontem e precisei desse prazo para assimilar, porque me impressionou sobremaneira a capacidade de Rafaela construir tramas e personagens com tamanha complexidade em um espaço tão pequeno.


De cara, um conto sobre uma menina cleptomaníaca que sente necessidade de destruir os objetos furtados. A destruição dos objetos é muito mais do que parte de um vício tão destrutivo como a cleptomania - já que além de doença, é também crime furtar objetos. Marina é fruto também de uma criação veladamente opressora, e o vício é uma válvula de escape.

Mas ele tem um preço. Não vemos Marina ser punida por seus furtos e pela destruição dos objetos. É sua consciência que a pune enquanto assiste outra pessoa ser violentamente acusada de seus próprios pecados. A culpa a massacra, ao mesmo tempo em que ela é somente fruto do que uma família relapsa e pouco amorosa causou nela.

A mesma relação aparece no segundo conto, Bolinha. Por sinal, meu favorito. As relações familiares com a criança protagonista do conto, nos dois casos, são mostradas de forma muito rápidas, e aí entra um mérito surpreendente na escrita de Rafaela: mesmo assim a gente compreende que essas crianças estão sendo negligenciadas e até mesmo desprezadas por essas famílias.

Murilo, do conto Bolinha, por exemplo, é considerando um menino-problema. Se encrenca na escola, já repetiu de ano, tira notas baixas e, por óbvio, é tratado como um problema pelos pais. A longo do conto, em que ele e sua irmã mais nova se aventuram pela cidade buscando pelo seu cachorro desaparecido, o que vemos é um menino, embora com jeito meio emburrado, extremamente responsável e cuidadoso.

O desfecho do conto, entretanto, me levou às lágrimas. Precisei fechar o livro e ficar aqueles 10 minutos de limbo da vida olhando pro teto e refletindo até sobre a origem do universo. Não vou dar spoiler aqui, mas todo o raciocínio que Murilo fez e a atitude que tomou é a prova contundente que ele não é enxergado pelos pais da forma como merece. E não, essas características de Murilo não são fruto da ficção de Rafaela, sobra exemplos no mundo de crianças como ele. Murilo é uma criança verdadeira e com um gigante coração, mas não é isso que a família enxerga dele e muito menos é dessa forma que ele é tratado.

As relações de invertem quando chegamos ao conto que dá nome ao livro. Ali vemos uma mãe completamente desesperada diante de um filho com traços muito fortes de psicopatia. Lembrei do livro "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lionel Shriver - que posteriormente virou filme. É um conto que pode nos tocar em vários aspectos, tanto pela empatia com os animais que a criança mata (e jura inocência) quanto pela mãe que não faz a mais vaga ideia do que fazer com o filho até decidir abandona-lo em um parque de diversões.

Novamente não vou dar spoilers, mas o desfecho do conto, sob minha ótica, é desesperador exatamente por não ser um desfecho. Porque se aqueles personagens fossem reais, os problemas estariam muito longe de acabar, e poderiam facilmente se converter em uma grande tragédia, como citado o caso do Kevin.

Não vou entrar em detalhes dos demais contos para não fazer um texto longo demais, mas não posso deixar de pontuar a sensação de liberdade da protagonista de "A madrugada ainda tem cinco horas" eu se livrar - sem saber - de uma provável relação abusiva e da sensibilidade no conto "Poesia de rodoviária".

Por sinal, a crítica que posso fazer sem medo é justamente de o conto que fecha o livro ser apenas um conto. Ao contrário dos primeiros cujas relações familiares ficaram evidentes em poucas palavras, em "Poesia de rodoviária" senti falta de mais... caldo. O conto em si, como todos os outros, está lindamente escrito, não perde nada em nível e narrativa, mas Sarita é uma personagem com um "background" tão imenso, que merecia um romance, uma novela que seja. Se Rafaela se propusesse a levar Sarita para um romance, não tenho dúvidas de que seria imensamente bem sucedida.

Enterrando Gatos é um livro para ser degustado. Doce e amargo na medida certa. Uma gigante estreia para uma escritora.
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Enterrando Gatos
Rafaela Tavares Kawasaki

Patuá: São Paulo, 2019
145 páginas
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Rafaela Tavares Kawasaki é jornalista formada pelo Centro Universitário Toledo. Viveu 12 anos no Japão e foi finalista do Prêmio Santander Jovem Jornalista.

~Maya

domingo, 4 de agosto de 2019

A santa suicida

Conheci Micheliny primeiro de ouvir falar mesmo. Ouvia algumas pessoas dizendo "Fulana vai ser prefaciada pela Micheliny" e os demais aplaudiam. Eu já a tinha em meu facebook, mas demorei uma eternidade para associar Micheliny à amiga de rede social Onça Verunschk. Quando isso aconteceu, fui entender porquê o nome dela traz tanto status.

Micheliny não tem meias palavras. É provocadora, irônica e irreverente. Tive a oportunidade de conhecê-la em São Paulo e descobri que é também muito simpática e divertida.

Pois bem, enfim, das quatro obras que tenho de Micheliny, escolhi começar com Nossa Teresa, uma obra que, já em seu subtítulo, aborda o suicídio.



De imediato, seu narrador provoca o leitor religioso: "Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade". A provocação é válida, já que o próprio tema do livro é a história de uma jovem suicida que virou santa. Mas suicidas não são pecadores?

Teresa ganha a exceção. Nem tanto por provas de santidade - que o narrador nos apresenta - mas porque seu suicídio partiu de sua própria profecia de que deveria voltar o mais rápido possível aos braços do Senhor e que, no efeito borboleta de sua volta aos céus, o padre que atuava como seu mentor espiritual se tornaria Papa. Assim o foi.

O narrador não nos conta a história de Teresa, pelo menos não de uma forma previsivelmente linear. Temos alguns flashes da vida da menina casta, como a imagem de Pietá que compara a mãe de Teresa com a filha morta nos braços e Maria, a virgem, com seu Jesus torturado e morto na mesmíssima posição. Ou quando outro padre que também acompanha a trajetória da menina antes da morte precisa suportar as reações de seu próprio corpo diante da excitação sexual que a futura santa o causava.

Nesse meio, outros tantos temas ganham espaço, seja no suicídio da bisavó de Teresa mediante a vergonha do adultério, seja o fanatismo religioso de um rapaz de custa a vida de outros, seja a gata Ásia que extrapola a expectativa de vida de um felino depois que seu tutor, perito, atua na exumação do corpo da santa.

Ou da ironia de Teresa ser filha de ateus que não reconhecem sua santidade.

Micheliny, e seu narrador que se declara morto ao final do livro, já que sua serventia se finda ao final do mesmo, nos apresenta não apenas uma obra complexa e envolvente, mas uma série de reflexões sobre morte, fé, sobre a própria percepção da vida. Tudo isso quebrando a quarta parede narrativa, ou seja, dialogando cara a cara com o leitor.

Não vou negar que livros dessa natureza sempre me pegam desprevenida - quando a gente espera simplesmente um relato da vida e morte da santa suicida, somos estapeados por uma narrativa fragmentada, hipnotizante e longe de qualquer tipo de clichê. A surpresa agrada.

Marquei muitos trechos do livro, pensando em cita-los nessa resenha, mas o livro precisa (e merece) ser lido em seu conjunto. Que cada leitor faça suas próprias marcações.
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Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida
Micheliny Verunschk

Patuá: São Paulo, 2014
185 páginas
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Micheliny Verunschk é poeta, escritora, finalista do Prêmio Portugal Telecom, doutora em Comunicação e Semiótica e publicou Nossa Teresa com patrocínio da Petrobrás Cultural.

~Maya

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Voz da periferia

Lilia não é um nome muito comum. Quando conheci Lilia Guerra, a chamei no inbox na maior cara de pau pra contar que minha mãe também se chama Lilia. Dias depois minha mãe recebia um exemplar de Perifobia, livro de contos da xará paulistana de mamãe. Mamãe chorou.

Poucos meses depois, na minha inesquecível viagem à São Paulo para lançar meu último livro de poesia, uma moça com um sorriso estonteante se aproximou de mim e me deu um abraço que guardo com imenso carinho na memória. Como péssima fisionomista que sou, olhei pra ela meio desconfiada e falei "por favor, me diz que tu é a Lilia". Ela confirmou. Eu dei um gritinho.

Lilia Guerra é um pessoa absolutamente encantadora. Quando criei o blog, já planejava dar um post a ela só por isso, sem sequer ter lido ainda o livro. Bom, eu li.


Lilia sabe do que está falando. Perifobia é um retrato de várias facetas da periferia, da doméstica "parte da família" sem direito a nada ao chefe do tráfico cuja história de vida não poderia ter levado a destino diferente. Da diarista que chega ao seu limite com a cliente sem noção ao rapaz de cobra suas moedas para atender o telefone público da comunidade.

Para além disso, o nome do livro já é de um brilhantismo ímpar, a mistura das palavras "periferia" com "fobia" - que não significa somente medo, como muita gente falsamente atribui, mas aversão, ódio. É isso. No próprio livro temos o retrato da fobia de algumas classes com o povo que vem da periferia. O retrato de trabalhar até o corpo sucumbir e ainda ser chamado de "vagabundo" por quem foi criado a base de danoninho.

Em um dos contos, já mais para o final do livro, a personagem está tão envolvida com sua condição relegada à inferioridade de classe baixa que, em um ato de ousadia, compra um vestido caro e o esconde por vergonha de si mesma, como se a ela, mulher de periferia, não fosse dado o direito de usar um vestido de primavera em um raro dia de folga.

Embora o livro seja de contos, muitos deles são, na verdade, sequência de outros. Ao longo de suas 305 páginas, existem duas grandes histórias, dois grandes arcos narrativos que, em um dos contos, chegam a se cruzar (a gente só descobre isso em outro conto) e mais alguns contos avulsos, todos trazendo a realidade da periferia sem sensacionalismos, de forma diria até singela.

Confesso que em certos momento, quando a sequência pulava um conto, tinha vontade de pular também pra ver o que ia acontecer. Essa fragmentação inicialmente seria relatada aqui como uma crítica ao livro, mas na verdade esse efeito só foi possível pela qualidade narrativa de Lilia. Se a história não fosse bem contada, não daria vontade de continuar, certo?

Uma coisa que ficou muito clara pra mim, lendo Perifobia, é que Lilia consegue migrar de personagem a outro sem absolutamente nenhuma dificuldade, respeitando linguagem e personalidade deles. Não sei como foi o processo de criação da obra, mas essa mudança tão grande de linguagem conforme personagens demonstra no mínimo uma boa maturidade narrativa.

Lilia tem fôlego pra romancista. E um belo fôlego. Queria conhecer mais a fundo a história de Isabel e Tiago, por exemplo, coisa que o próprio formato curto do conto não permitiu.

Por fim, ainda quero saber por que Tiago matou Bigode.
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Perifobia
Lilia Guerra

Patuá: São Paulo, 2018
305 páginas
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Lilia Guerra é paulistana, lançou em 2014 o romance Amor Avenida e contribuiu com várias coletâneas, além de participar de oficinas e ateliês literários.


~Maya

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Dia de Matheus

Consigo imaginar Matheus Henrique, completamente ruborizado, escrevendo no inbox da página do Bibliofilia. Apagando. Escrevendo de novo. Apagando. Escrevendo e dando o "enter" com o coração na boca. Consigo imaginar pelo tom tímido do seu contato.

Oras, Matheus, sei que deixei claro, desde o início, que o blog teria curadoria para garantir uma mínima qualidade nesses espaço. Sei também que trago aqui resenhas de gente com bons anos de experiência nas costas, prêmios e o escambau.

Mas eles, eu, você, qualquer um que se aventure no mundo das letras, começa de algum lugar. E esse lugar, podes ter certeza, não é concorrendo ao Nobel.

Não tenham vergonha, jovens autores, de mostrar seu trabalho. Trabalho escondido não evolui. A crítica teve um papel crucial na caminhada de todos os maiores nomes, e dos médios, e dos que se pretendem grande um dia. O blog aqui não tem intenção de julgar ninguém, mas quem sabe de ser um espaço de crescimento?

Então Matheus tomou coragem e me mandou um conto e um poema.

Gostei de ambos.

Gostei como quem gosta de uma massa de bolo. Está gostoso assim, imagina quando estiver pronto?

Matheus já tem pegada (epa, não é isso que vocês estão pensando, sequer conheço o menino ao vivo!), já tem direção. Pode mudar no futuro, é verdade, mas os elementos da receita estão todos aí.

O que falta? Para alguns leitores talvez não falte nada, inclusive. Coragem de produzir mais e começar a bater na porta de editoras, quem sabe? Pra mim, pessoalmente, falta só a maturação, aquele processo que só o tempo traz, um toquinho de malandragem.

Gostei de conhecer Matheus. Gosto quando jovens autores me mostram seu trabalho e eu vejo um caminho ali. É bom pensar que o potencial tá todo ali. Ruim é estragar o sonho de alguém, o que não é o caso. Segue firme, Matheus, você está indo por um caminho bem legal.

Conheçam Matheus Henrique:


Moinho de Vento

O ato começa quando a mosca entra no meu quarto, já de noite.
Abrem-se as cortinas, focam-se as luzes, e eis no palco a bailarina.
Todo o teatro se desenrola entre minha rotineira leitura e o zum-zum dela, de um lado para o outro, de cima a baixo. Observei todo o espetáculo. Foi quando, descansando ela na parede, percebi a situação: a peça já havia acabado e ela não sabia voltar para casa.
Generoso que sou, aceitei a tarefa como que a um repto. Empunhei o guarda-chuva fechado, aquele pedaço de fibra de carbono enrolado em pano antiaderente, e esgrimei a bendita com vontade. O sabre zunia tão rápido que não sabia quem estava mais tonto.
Quando o braço não aguentava mais, troquei os avanços da tecnologia pela rudeza de uma vassoura. Não adiantou. Voava para fora da porta e voltava. Da janela nem chegou perto.
Começando a ficar irritado, decidi utilizar o dom que me difere da mosca: a idiotice. Apaguei a luz para encará-la no escuro. Eu não via e nem ela. A única visão? A janela. Minha esperança.
De repente, silêncio. Acendi a luz e não mais a encontrei.
No fundo, fiquei envergonhado.
Fecharam-se as cortinas, apagaram-se as luzes, e eis que estava sozinho no quarto.
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(sem título)

Ando tendo sonhos de canto,
de palavra falada, cantada,
sonho em ouvir minha voz em um tom mais bonito,
mais devagar
devagarinho
ser passarinho, gorjeando no fins de tarde,
no início das manhãs,
ser chamado sábio
sabiá dos caminhos
cantando, sem saber de notas e acordes,
sem instrumento, só voz, emoção e plateia a se sentir encantada
com outra voz na música popular brasileira
ou ser outra voz na beleza diária brasileira
de alguém.
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Me chamo Matheus Henrique, tenho 23 anos, sou nascido, criado e vivido entre capivaras, jacarés e araras na terrinha de Manoel de Barros, no pantanal campograndense. Sou formado em filosofia pela universidade federal do estado e escrevo literatura unicamente por prazer, para fazer da vida uma experiência mais bonita e curiosa. Sonho pelo dia que todos possam e saibam apreciar as riquezas infinitas da arte, o que não é nada mais do que as riquezas infinitas da vida.


~Maya


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Da pólvora, o cheiro queimado da inspiração

Hoje, 29.07, é aniversário dessa que vos fala. Para me auto-celebrar, trago aqui uma resenha extraordinária escrita pela crítica literária Mariana Belize, idealizadora do projeto Olho de Belize, sobre meu livro de poesia mais recente, "Poemas para Ler no Front". Espero que apreciem a resenha e o livro!




Poemas para ler no front difere substancialmente da outra obra poética de Maya Falks, Versos e outras insanidades. O tom melancólico de Versos foi substituído por uma frieza e uma mecanicidade, uma espécie de aceitação da tragédia que circunda o eu-lírico. Frieza como gélido é o olho daquele que encara a morte. Mecanicidade como um aspecto de escrita seca, que sulcando uma terra coberta de neve, tenta colher rastros de sobreviventes, mas só rasteja sobre os ossos dos que partiram.
Distante e ausente do front, o eu-lírico é, ao mesmo tempo, dissimulado, cínico pelas circunstâncias e, renegando o porvir, simplesmente decreta as perplexidades que somente chocam àqueles que não se traumatizaram, ainda, com o troar dos canhões.
“Da mão do oponente, meu corpo ao chão”. E não há consequência.
A guerra só dói no primeiro instante. Depois se torna uma ausência, um descolamento do eu-lírico de sua própria tentativa de denunciar o que vê e o que pressente. O eu-lírico segue o conselho de Walter Benjamin, poeticamente reescrevendo liricamente a história a contrapelo, utilizando os versos para focalizar os invisíveis: os soldados anônimos morrendo sem motivos, os moradores de rua, as mães que perdem seus filhos por conta de uma política de extermínio em massa… As mulheres assassinadas por aqueles que acreditam que elas são suas propriedades, creem ter sobre elas direitos de vida e morte.
Theodor Adorno afirmou ser impossível escrever poemas pós-Auschwitz. Mal sabia que poemas eram escritos EM Auschwitz. Não apenas isso, as pinturas levavam o sabor sutil mas poderoso da liberdade vermelha, como podemos ler e compreender melhor lendo a tese de doutorado de Ubiratan Machado, escrita em 2017 e que pode ser encontrada em domínio público para leitura acurada sobre essas descobertas. A prova de que a arte é, de alguma forma, um bálsamo…
Em Aos versos, poema que abre o livro, teremos uma noção ampla do que o eu-lírico trama para o leitor. Ao engolfar nossa leitura em sangue, a intenção não é chocar. Os poemas de Maya não são sensacionalistas. A questão é mais profunda: o transtorno no leitor é justamente a vertiginosa queda nos labirintos da leitura, ser afundado não numa escuridão, nem na insondável luz, mas cegados por uma poeira, sentimos na boca o gosto de um sangue que não sabemos nosso ou alheio.
Os dois.
Voltemos aos versos, porque há de ter um belo epitáfio em meu túmulo”
À espera de um belo epitáfio, o eu-lírico verte em versos a morte de qualquer esperança, assim como o recado à porta do inferno que Dante Alighieri construiu. Mas ao contrário de Dante, o eu-lírico de Poemas para ler no front, não alcançará o paraíso, nem é o que deseja. A morte é seu ponto final, como um caminho sem volta e sem continuação.
Também não é a angústia que o impele. Travado no presente, o eu-lírico é o esgotamento da fala e o verso que rompe o branco do papel com a escrita da retina traumatizada pelo que viu resgatada pela mão que escreve, pacientemente, o que o abismo grita. O registro num frame que se repete ad infinitum
Ele olhou para o abismo nos olhos do homem da guerra e viu que era só… vazio.
E o poema reflete a cavalgada, não das Valquírias, mas o caminhar ritmado do soldado em direção à morte.
Seu sentido é a enterrar-se na trincheira do esquecimento. Um soldado é só mais um.
Guerreiros perdidos no tempo, na sorte e na vida
Caminham sem eira nem beira, na marcha sofrida
Respondem às aves nortenhas, vis cintilantes que pairam no céu
Sonham com a glória perdida, a noiva roubada vestida de véu
Encontram o triste destino na vala sem nome e identificação
Exaustos, sem alma no corpo encontram a morte a caminho do chão.”
Encontrar a morte a caminho do chão é morrer aos poucos, em câmera lenta, como na espetacularização da guerra a que estamos submetidos, seja por Hollywood e seus milhões de filmes de mesmo enredo, seja na repetição mórbida das estratégias militares dos países viciados em guerra.
A guerra é poderosa porque se alimenta da indiferença dos que não são afetados por ela.
E as guerras particulares, os infernos anônimos, as barbáries cotidianas?
O exército dos indiferentes mantém-se fadados ao rivotril.
O destino, que assim queria, trazia às mães a dor da solidão
Olhavam pro céu em tristeza, com a certeza da impunidade
Tiravam a vida dos filhos, a vida dos trilhos, cruel realidade”
Quanto tempo escutaremos o eco de “Ó Senhor Deus dos desgraçados!” nem o pranto de Las Madres de la Plaza de Mayo? E aqui já não basta citar uma questão de época ou diminuir a carga emocional de Haviam os trovões. Os poemas de Maya constroem-se dramaticamente como visões de um pesadelo recorrente. É um livro que, sob a égide do trauma, pode ser utilizado como didática para compreender não pela razão, mas pelo corpo. Todas as guerras e seus traumas ali presentes, seja Aleppo, seja Complexo do Alemão, o eu-lírico a tudo observa e descrê de que está sobrevivendo.
Era manhã mas era noite, porque o clima era denso
Nos parques havia restos, árvore com um homem suspenso”
Em verdade vos digo: a cada verso, ele se esvai um pouco. Como se a tinta fosse seu próprio sangue. E é bem capaz de que seja.
A pena do corvo, o sangue da escrita… mas sem pieguices. Aqui o panorama cinzento destrói qualquer tentativa de emocionalismo barato. A lágrima é cortante, o verso é uma facada no desavisado que pensa encontrar um livro de pantomimas coloridas, de entretenimento fácil…
Ou um roteiro hollywoodiano.
Da pele, o rasgo que fere
A 7 palmos nada mais importa
Senão a vida perdida que chama
Senão a carne que é morta”
É um livro de carne, de sangue e fel.
Desaba, já sem dor e sem vida, naquele segundo findou sua estrada
O riso que antes se ouvia agora se convertia em mero descaso
Azar de tal vagabundo, perdido e imundo, vestido de trapos
Agora o homem queimado, sem futuro ou passado, ou história possível
Voltava ao seu posto de resto, de nada com nada, um homem invisível”
O eu-lírico ataca a memória do leitor, acuando nossas indiferenças diárias, nossa desmemória confortável, nosso conformismo execrável. Nossa condenação é dada pelos mortos que desprezamos a cada passo que damos para longe dos invisíveis. Os fantasmas nos agarram pelos pés.
Na guerra da vida
Sobrevivem os fortes
Não é o meu caso
Quis o acaso que eu caísse no chão”
E se a cada quarenta minutos uma mulher é espancada…
Abusa da minha anatomia, decepa minha autonomia
Me aprisiona em tua vontade, me mata só por vaidade
Virei estatística”
No poema, construído no imperativo, o eu-lírico realmente pede. A angústia da primeira pessoa do singular vinculada ao imperativo afirmativo é a ironia alarmante da maneira como a sociedade vê a morte das mulheres. Segundo muitos, elas pedem. Então o poema repete, um eu que pede, um eu que ordena, através da linguagem, seu próprio extermínio.
Daí o absurdo. Quem ordenaria a própria condenação à morte?
A cegueira é coletiva
Sorte sua em estar viva”
Sorte não. Sina.
Pensa na escuridão e no grande frio
Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.”
Brecht, Ópera dos três vinténs
Pois bem, Maya pensou, sentiu e ouviu os lamentos, por isso pergunto: quem vai encarar a própria caveira nessa Danse Macabre, repetindo seu Memento Mori, ao folhear Poemas para ler no front?
Quem vai abraçar Kim Phuc, Maria da Penha, Marcos Vinícius da Silva, Marielle, Lula?
Quem?
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Poemas para ler no front
Maya Falks

Patuá: São Paulo, 2019
112 páginas
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Maya Falks nasceu Márcia, no dia mais frio de 1982 (no caso hoje, há 37 anos). Começou a criar histórias aos 3 anos, ditando as narrativas à mãe. Escreveu seu primeiro romance aos 7 anos, o segundo aos 10 e a primeira antologia poética aos 14, nenhum deles publicados. Atualmente Maya é publicitária, jornalista e autora dos livros "Depois de Tudo", "Versos e Outras Insanidades", "Histórias de Minha Morte" e "Poemas para ler no front".



~Mariana Belize
Olho de Belize

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...