quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Carolina e o ovo

Carolina me procurou. Ela não queria simplesmente que seu conto fosse divulgado por aqui, ela queria antes de mais nada saber o que eu achava dele. O li, a minha primeira impressão foi de uma linguagem gostosinha, leve, uma pessoa comum contando uma história incomum. Gosto disso.

Ao mesmo tempo, apontei o que considerei que poderia ser melhorado. Dialogamos. Deixei claro a ela que minha opinião pessoal não deve servir de termômetro para a identidade dela como escritora. Por mais que eu tenha uma longa estrada de leitura e escrita, uma opinião pessoal ainda é uma opinião pessoal e poucas coisas são mais subjetivas do que a arte.

Sim, gostei do que li. Me senti incomodada com alguns elementos (ou a falta deles) e comentei com ela. Ela revisitou o conto e o assumiu por completo. É a identidade dela. Ela abraçar esses elementos me fez gostar mais ainda do conto, porque o primeiro passo para uma carreira literária é encontrar seu próprio jeito de escrever. Fórmulas devem ser exclusivas das ciências exatas. Usamos matrizes literárias pré-fabricadas para dar começar, treinar os primeiros versos ou as primeiras frases. Depois a gente tem que ser capaz de caminhar sozinhos.

E desviar caminhos. E construir novas estradas e pontes.

A maturidade literária é impossível de ser classificada porque a mutação pode ser constante. Não era Fernando Pessoa quem alimentava várias personas literárias diferentes para poder escrever cada dia de um jeito novo?

Me encantou que Carolina abraçou seu conto. Nem ela está errada por não ter incluído os elementos que senti falta, nem eu estou certa por ter sentido falta dele. Está bem escrito, isso ficou claro pra mim desde a primeira linha. E agora sei que tem identidade. Carolina encontrou seu norte, e eu faço sinceros votos de que seja uma estrada longa e próspera sob seus pés de escritora.

Conheçam "O ovo de Ariel", de Carolina Valverde.


O ovo de Ariel

Doutora, antes de me levar para a sala de cirurgia, gostaria de lhe contar um caso que aconteceu comigo há muito, muito tempo atrás. Quando me recordo, sinto a vida esticar. E ela está muito encolhida pro meu gosto. Muito. Será que a senhora me emprestaria seus ouvidos? Vou tentar não me demorar. Sei que o anestesista está me esperando e que o tempo não brinca em serviço. Sei bem disso. Na carne. Essa lembrança é a única herança que posso deixar. E sei que a vida tem prazo de validade, sem garantias. Sei de coisas que preferia não saber. E somente as histórias ultrapassam nossa vida tão efêmera. Faça essa caridade de me ouvir.

Tudo aconteceu no primeiro mês após eu ter sido transferido para a Delegacia Regional Tenente Leôncio Neves. Fui recrutado para trabalhar na equipe de buscas a pessoas desaparecidas ou sequestradas. Naquele dia, me lembro muito bem, o calor judiava com as plantas e mucosas. Eu só fazia suar. A manhã seguia arrastada, até que, depois do almoço, recebi um telefonema. Tratava-se de uma mãe apavorada, dizendo que seu filho de treze anos havia desaparecido dentro de uma clínica médica. Os funcionários do estabelecimento estavam atônitos, pois o menino não havia deixado rastros. Sumira, de repente. Eu estava sozinho naquela hora. Peguei o endereço de onde ela estava, recrutei uma equipe de busca pelo rádio, e parti imediatamente ao encontro dela.

Quando cheguei, Ana estava desolada e sem forças, deitada em uma maca, e a clínica em total alvoroço. Peguei meu caderno de notas, puxei uma cadeira, e comecei a pegar os dados para a investigação. A equipe de polícia estava atendendo a outra chamada e demoraria um pouco para chegar. Ela se sentou, tomou um gole de água, respirou fundo e começou a me contar o que tinha acontecido. Disse que era só ela e ele na vida. Não tinha mais ninguém na família. Não tinha a quem pedir ajuda e por isso ligou para a delegacia. Há mais de três horas todos estavam procurando o menino pelas redondezas e ninguém, ninguém, havia dado notícias do paradeiro de seu filho.

Ela tinha levado Ariel para uma consulta com o ortopedista de coluna por conta de um ovo que nascera no meio de suas costas, entre as omoplatas. Fizeram a consulta normalmente, e quando estavam saindo, ela o pediu que esperasse, pois teria que esvaziar a bexiga antes de pegar o ônibus para a longa viagem que fariam até onde moravam. Não aguentaria esperar chegar em casa. Foi isso. Simples assim. Quando saiu do banheiro, ele já havia sumido. E as secretárias não viram o menino sair. Não viram!

Perguntei a ela se eles haviam brigado, ou se havia alguma chance dele ter, simplesmente, fugido. Se esse sumiço não poderia ter sido voluntário. Nesse momento ela se encostou na parede atrás da maca e começou a me contar sobre Ariel. Disse que não, não haviam brigado. Que o filho era manso e sempre fora muito obediente. Perguntei se o diagnóstico do médico tinha sido muito grave e se será que ele poderia ter ficado assustado com a notícia. Ela disse que não era um problema sério. Era mesmo uma corcunda postural.  Aumento da cifose torácica. Foi assim que o médico falou. Era isso.
Disse que Ariel era um adolescente normal, tirando uma única questão que era a sua obsessão por voar. Desde pequeno, desde que começou a falar, dizia que um dia voaria feito passarinho. Só queria saber de histórias sobre voos e ficava horas a fio vendo livros, filmes, revistas ou qualquer outra coisa que falasse sobre o assunto. Um dia ela resolveu leva-lo ao aeroporto imaginando que ficaria feliz. Quando chegaram bem perto daqueles imensos aviões, ele disse que não. Não era assim. Que ele não ia precisar de nada que o fizesse voar. Não queria saber de balões, helicópteros, aviões... Ele voaria um dia. Ele mesmo! Por conta própria. E o tempo foi passando. Ariel cada vez mais debruçado nas imagens de seres alados. Tão debruçado, que um dia a mãe viu um ovo nas costas dele. Estavam em uma loja, comprando uma camisa social para a primeira festa de gente rica que ele iria. Quando tirou a blusa, dentro do provador, a mãe viu aquele caroço. Perguntou pra ele se doía. Ele disse que só um pouco. Ela se preocupou e foi por isso havia marcado a consulta com o médico. Ela imaginou que deveria ser um problema de coluna, de tanto que o menino ficava torto. Postura péssima! E não deu outra. A mãe havia acertado na mosca.

Me contou que quando ele era pequeno, nos carnavais da escola, fazia questão de se fantasiar de coisas que voassem. Já se fantasiou de fada, mosquito, abelha, anjo, Hermes, Pégasus, dragão, borboleta, morcego , pássaro, Phoenix e até de barata voadora. Enquanto listava, foi contando nos dedos para ver se lembrava das doze fantasias. Tudo começou quando ele tinha dois anos. Se alguém perguntasse sobre Ícaro e Dédalus, sobre pterodáctilos, ele sabia de tudo, de tudo sobre asas, sobre vento e sobre tempestades. Nesse momento da conversa, a equipe de resgaste chegou. O tempo urgia. Me despedi da mãe e saí olhando para o céu.

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Carolina Valverde, nascida em Cataguases/Minas Gerais, é fisioterapeuta, musicista e professora. Apaixonada por literatura desde muito cedo e sobrinha de Oswaldo Abritta, um dos fundadores da Revista Verde, sempre recebeu incentivo por parte de seu pai e de sua avó paterna (ambos escritores) em direção à leitura e escrita. Tem na escrita seu remédio e na leitura o seu porto.

~Maya

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Além dos significados

Conheci Ana Elisa em um antigo e desgastante debate virtual sobre os termos "poeta" e "poetisa", gostei do comentário que ela fez no post de uma amiga, já que ambas defendemos a mesma ideia. Pessoalmente, não gosto e não uso a palavra "poetisa", sempre me identifiquei como poeta e acho que essa palavra se resolve muito bem com os dois gêneros (ou mais).

Comento esse fato - embora prefira evitar a fadiga - porque à ocasião, uma pessoa aparentemente disposta a me fazer aceitar a alcunha de "poetisa", usou uma fotografia do dicionário para provar seu ponto, um ponto que, aliás, não me convence.

O fascinante da coisa toda é que conheci Ana em um debate sobre uma palavra. No mesmo dia, outra amiga comentava sobre a beleza de seu novo livro, Dicionário de Imprecisões; duas situações em poucas horas me levaram a conhecer Ana, e, claro, stalkear seu perfil. Cinco minutos de passeio por lá e eu tive a cara de pau de mandar convite de amizade.

Não muito depois, seu livro estava nas minhas mãos. Sim, uma belezura de livro. Nenhuma foto é justa o bastante para a beleza estética de aparente simplicidade. Um livro macio, de capa com relevo em papel especial. Uma diagramação de tirar o fôlego, de tanto em tanto, uma folha vegetal ornada com uma ilustração assinada por Wallison Gontijo.



De cara, o livro dá vontade de abraçar. Nos conhecemos debatendo uma palavra. De repente, em minha mão, um dicionário impreciso de autoria dela. Um livro que eu definiria, já de imediato, como "delícia". Livro para ler várias vezes, para ler alto, para ler para os amigos, para presentear, distribuir, encontrar coisas novas a cada passada de olho.



São poemas. E não são. Algumas palavras ganharam poemas na sua forma mais tradicional. Outros, verbetes, ironias, alfinetadas, reflexões. A riqueza do dicionário de imprecisões de Ana deixaria Aurélio com inveja.

A própria palavra "dicionário" contém um poema que marquei com postit para declamação futura em vídeo, porém, minhas marcações são inúmeras. Sublinhados e diálogos com o livro. Nessa palavra em especial, dialoguei à lápis, trazendo o que pra mim foi o ponto central do debate particular que tive com aquela pessoa mencionada no início do texto: o significado no dicionário (ou sua origem enquanto palavra) não necessariamente traz em si o significado da palavra dentro do contexto social e histórico em que ela foi cunhada.

Usamos cotidianamente palavras cujo significado no dicionário é totalmente inofensivo, mas o contexto onde a palavra foi criada não é nem um pouco bonito, muitas vezes sequer aceitável (onde entra minha opinião imutável sobre o termo "poetisa", por exemplo).

Aliás, dentro desse mesmo debate, Ana brinca:
"Poeta: substantivo comum de dois ou mais gêneros, no entanto controverso porque um se considera em sua posse exclusiva."

As alfinetadas não terminam por aí - e dão um sabor ainda mais doce ao livro.

Na palavra "grisalho", por exemplo, Ana define: "adjetivo masculino sem restrição para homens". A crítica no poema é clara: homens grisalhos são tidos como elegantes, mulheres como desleixadas. Já em "morte", Ana define: "substantivo feminino, comum a todos, mas mais às mulheres por motivo fútil". Uma frase simples, formal, típica de dicionário, com uma denúncia gigante em tão poucas palavras.

Além das denúncias e alfinetadas, o livro brinca, se diverte, como na palavra "Carinhoso", onde, em certo momento de sua definição, Ana nos presenteia com:

"Carinhoso é uma das canções que mais arrepios provocou e provoca aos ouvintes sensíveis de todas as décadas de ao menos dois séculos.
Meu coração, não sei por que, bate feliz, quando te vê, a começar grave e terminar aguda, é quase inalcançável para a extensão vocal da maioria das pessoas, menos as que cantam durante o banho".

"Branco" é outra palavra que vai além de uma definição esperada no dicionário, proporcionando uma experiência que explica melhor do que um texto formal.



Dicionário de Imprecisões é um dos livros mais complexos em termos de significados que já li. Ele é simples em sua forma: algumas palavras e uma grande brincadeira em torno de seus significados informais, cotidianos, experienciais; em uma diagramação notadamente bela, agradável, que cria imediata intimidade com o leitor. Ele é intenso, complexo, contundente, irônico, divertido e criativo em seu conteúdo.

Não subestime o poder de reflexão de um livro com tantos toques de humor em um formato tão despretensioso. Ana se propôs ultrapassar o limite dos dicionários em um seleto número de palavras, e o fez de forma surpreendente.

Em meu cadernos de leituras, grifei a vontade de ter um estoque dele para sair presenteando pessoas, torcendo que leiam com o mesmo olhar atento que eu dediquei a ele. Não é um livro de poemas convencional (nada contra livros de poemas convencionais, inclusive eu os escrevo), até porque nem tudo ali é um poema, as vezes é um tapinha na cara da forma mais simpática possível. A denúncia é feita sem alarde ou sensacionalismo, mas está ali, para a gente rir por um minuto e refletir depois, sem prazo para terminar.

Marquei muito mais coisas do livro para comentar, mas farei, com o tempo, a devida justiça a ele em vídeo, com declamações e possíveis comentários adicionais dos poemas que já deixei marcados.

Por hora, diria que se o livro é sobre significados, ele mesmo significou muito pra mim.
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Dicionário de imprecisões
Ana Elisa Ribeiro

Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2019
125 páginas
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Ana Elisa Ribeiro é autora de livros como Anzol de Pescar Infernos (semifinalista do prêmio Portugal Telecom), Xadez e Álbum (prêmio Manaus). Foi uma das editoras da coleção Leve um Livro, projeto que distribuiu publicações gratuitas de poesia contemporânea por três anos em Belo Horizonte. Participou de eventos literários no Brasil, Colômbia, Cuba e França e publicou em diversas antologias em português, inglês, espanhol e francês. É Doutora em Linguística e professora do CEFET-MG. 

~Maya

sábado, 10 de agosto de 2019

A vez de Lucas

Lucas me procurou.
Sempre que um autor me procura querendo mostrar seu trabalho, dá aquele quentinho de que estou fazendo a coisa certa, ninguém oferece seu trabalho para quem não o valoriza, certo?

Muito que bem. Pedi a ele como peço a todo alguns textos, fotografia e minibio, até para manter o padrão do blog.

Mas como o blog é meu, não tenho problemas em quebrar padrões.

Lucas construiu uma plaquete. Meu blog, minhas regras, o primeiro pensamento foi: vou tirar duas ou três poesias dali e manter o padrão de divulgação do blog.

Mas e isso é respeito com o trabalho dos outros, menina?

Não, Lucas Grosso preparou uma plaquete com amor para os leitores do Bibliofilia e o mínimo que eu posso fazer é respeitar o carinho dele para com seu trabalho e seus leitores.

Por isso coloquei a plaquete no Drive do Bibliofilia, não faço ideia se fiz do jeito certo, mas está lá, disponível para leitura para quem clicar aqui!

Gostei bastante do trabalho do Lucas, que tem livro publicado pela Patuá.

Obrigada, Lucas, pela contribuição ao Bibliofilia. Tudo mais que eu poderia dizer já está dito na plaquete, e espero que os leitores do projeto apreciem tanto quanto eu.

~Maya

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Mais caixinhas

Hoje o post ia ser um desembrulhando, afinal, começo do mês é época de TAG em casa e o curadoria já chegou, mas vou aproveitar o embaço, empurrar o desembrulhando pra outro dia e divulgar mais essa opção de lindeza todo mês na sua casa.

Já tem um tempo que comecei a comprar livros das editoras independentes, que são as que mais abrem portas pra gente ainda sem pedigree e as que mais sofrem os efeitos das dificuldades oferecidas por uma bela crise, como vive nosso futuro Haiti, ainda chamado Brasil.

Uma dessas editoras, por quem tenho enorme apreço, é a Patuá. Óbvio que o fato de meu último livro ter saído por essa editora conta muito, mas também vocês devem ter reparado que a maioria dos livros aqui resenhados levam esse mesmo selo - não, isso não é uma nova espécie de bairrismo, é só que quando eu assinei contrato, comecei a prestigiar os colegas, e depois quando fui conhecendo melhor as outras, eu já estava sem renda...



Mas enfim, voltando ao que interessa. Como comentei antes de pegar o desvio, a maioria dos livros resenhados até o momento são da Patuá, e vocês devem ter notado quantos elogios tenho feito, certo? Pois foi que Eduardo Lacerda, nosso editor, criou seu próprio clube de leitura!

Sim! Agora temos o Clube de Assinaturas da Editora Patuá! Clicando ali no nome você cai direto na página onde são oferecidas três opções de assinatura: prosa, poesia e prosa+poesia.

(imagine as chances que você tem de receber meu bebê em casa em algum desses meses?)

Enfim, todos sabemos que a situação não está nada boa pra ninguém, mas o legal desses clubes é que acaba nos tirando da zona de conforto, possibilitando conhecer novos autores, livros que não conhecíamos e não compraríamos exatamente por isso.

Que seja muito bem-vindo esse novo clube, e que tenha vida longa!


~Maya

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Aos gatos que sobreviveram

Não faço a menor ideia de como conheci Rafaela, mas estava numa fase que ainda podia prestigiar nossos autores nacionais e comprei o seu "Enterrando Gatos". Nunca fui muito fã de ler contos e esse blog não estava nem em fase embrionária para eu me propor a ler o livro de Rafaela, mas comprei.

Terminei a leitura ontem e precisei desse prazo para assimilar, porque me impressionou sobremaneira a capacidade de Rafaela construir tramas e personagens com tamanha complexidade em um espaço tão pequeno.


De cara, um conto sobre uma menina cleptomaníaca que sente necessidade de destruir os objetos furtados. A destruição dos objetos é muito mais do que parte de um vício tão destrutivo como a cleptomania - já que além de doença, é também crime furtar objetos. Marina é fruto também de uma criação veladamente opressora, e o vício é uma válvula de escape.

Mas ele tem um preço. Não vemos Marina ser punida por seus furtos e pela destruição dos objetos. É sua consciência que a pune enquanto assiste outra pessoa ser violentamente acusada de seus próprios pecados. A culpa a massacra, ao mesmo tempo em que ela é somente fruto do que uma família relapsa e pouco amorosa causou nela.

A mesma relação aparece no segundo conto, Bolinha. Por sinal, meu favorito. As relações familiares com a criança protagonista do conto, nos dois casos, são mostradas de forma muito rápidas, e aí entra um mérito surpreendente na escrita de Rafaela: mesmo assim a gente compreende que essas crianças estão sendo negligenciadas e até mesmo desprezadas por essas famílias.

Murilo, do conto Bolinha, por exemplo, é considerando um menino-problema. Se encrenca na escola, já repetiu de ano, tira notas baixas e, por óbvio, é tratado como um problema pelos pais. A longo do conto, em que ele e sua irmã mais nova se aventuram pela cidade buscando pelo seu cachorro desaparecido, o que vemos é um menino, embora com jeito meio emburrado, extremamente responsável e cuidadoso.

O desfecho do conto, entretanto, me levou às lágrimas. Precisei fechar o livro e ficar aqueles 10 minutos de limbo da vida olhando pro teto e refletindo até sobre a origem do universo. Não vou dar spoiler aqui, mas todo o raciocínio que Murilo fez e a atitude que tomou é a prova contundente que ele não é enxergado pelos pais da forma como merece. E não, essas características de Murilo não são fruto da ficção de Rafaela, sobra exemplos no mundo de crianças como ele. Murilo é uma criança verdadeira e com um gigante coração, mas não é isso que a família enxerga dele e muito menos é dessa forma que ele é tratado.

As relações de invertem quando chegamos ao conto que dá nome ao livro. Ali vemos uma mãe completamente desesperada diante de um filho com traços muito fortes de psicopatia. Lembrei do livro "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lionel Shriver - que posteriormente virou filme. É um conto que pode nos tocar em vários aspectos, tanto pela empatia com os animais que a criança mata (e jura inocência) quanto pela mãe que não faz a mais vaga ideia do que fazer com o filho até decidir abandona-lo em um parque de diversões.

Novamente não vou dar spoilers, mas o desfecho do conto, sob minha ótica, é desesperador exatamente por não ser um desfecho. Porque se aqueles personagens fossem reais, os problemas estariam muito longe de acabar, e poderiam facilmente se converter em uma grande tragédia, como citado o caso do Kevin.

Não vou entrar em detalhes dos demais contos para não fazer um texto longo demais, mas não posso deixar de pontuar a sensação de liberdade da protagonista de "A madrugada ainda tem cinco horas" eu se livrar - sem saber - de uma provável relação abusiva e da sensibilidade no conto "Poesia de rodoviária".

Por sinal, a crítica que posso fazer sem medo é justamente de o conto que fecha o livro ser apenas um conto. Ao contrário dos primeiros cujas relações familiares ficaram evidentes em poucas palavras, em "Poesia de rodoviária" senti falta de mais... caldo. O conto em si, como todos os outros, está lindamente escrito, não perde nada em nível e narrativa, mas Sarita é uma personagem com um "background" tão imenso, que merecia um romance, uma novela que seja. Se Rafaela se propusesse a levar Sarita para um romance, não tenho dúvidas de que seria imensamente bem sucedida.

Enterrando Gatos é um livro para ser degustado. Doce e amargo na medida certa. Uma gigante estreia para uma escritora.
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Enterrando Gatos
Rafaela Tavares Kawasaki

Patuá: São Paulo, 2019
145 páginas
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Rafaela Tavares Kawasaki é jornalista formada pelo Centro Universitário Toledo. Viveu 12 anos no Japão e foi finalista do Prêmio Santander Jovem Jornalista.

~Maya

domingo, 4 de agosto de 2019

A santa suicida

Conheci Micheliny primeiro de ouvir falar mesmo. Ouvia algumas pessoas dizendo "Fulana vai ser prefaciada pela Micheliny" e os demais aplaudiam. Eu já a tinha em meu facebook, mas demorei uma eternidade para associar Micheliny à amiga de rede social Onça Verunschk. Quando isso aconteceu, fui entender porquê o nome dela traz tanto status.

Micheliny não tem meias palavras. É provocadora, irônica e irreverente. Tive a oportunidade de conhecê-la em São Paulo e descobri que é também muito simpática e divertida.

Pois bem, enfim, das quatro obras que tenho de Micheliny, escolhi começar com Nossa Teresa, uma obra que, já em seu subtítulo, aborda o suicídio.



De imediato, seu narrador provoca o leitor religioso: "Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade". A provocação é válida, já que o próprio tema do livro é a história de uma jovem suicida que virou santa. Mas suicidas não são pecadores?

Teresa ganha a exceção. Nem tanto por provas de santidade - que o narrador nos apresenta - mas porque seu suicídio partiu de sua própria profecia de que deveria voltar o mais rápido possível aos braços do Senhor e que, no efeito borboleta de sua volta aos céus, o padre que atuava como seu mentor espiritual se tornaria Papa. Assim o foi.

O narrador não nos conta a história de Teresa, pelo menos não de uma forma previsivelmente linear. Temos alguns flashes da vida da menina casta, como a imagem de Pietá que compara a mãe de Teresa com a filha morta nos braços e Maria, a virgem, com seu Jesus torturado e morto na mesmíssima posição. Ou quando outro padre que também acompanha a trajetória da menina antes da morte precisa suportar as reações de seu próprio corpo diante da excitação sexual que a futura santa o causava.

Nesse meio, outros tantos temas ganham espaço, seja no suicídio da bisavó de Teresa mediante a vergonha do adultério, seja o fanatismo religioso de um rapaz de custa a vida de outros, seja a gata Ásia que extrapola a expectativa de vida de um felino depois que seu tutor, perito, atua na exumação do corpo da santa.

Ou da ironia de Teresa ser filha de ateus que não reconhecem sua santidade.

Micheliny, e seu narrador que se declara morto ao final do livro, já que sua serventia se finda ao final do mesmo, nos apresenta não apenas uma obra complexa e envolvente, mas uma série de reflexões sobre morte, fé, sobre a própria percepção da vida. Tudo isso quebrando a quarta parede narrativa, ou seja, dialogando cara a cara com o leitor.

Não vou negar que livros dessa natureza sempre me pegam desprevenida - quando a gente espera simplesmente um relato da vida e morte da santa suicida, somos estapeados por uma narrativa fragmentada, hipnotizante e longe de qualquer tipo de clichê. A surpresa agrada.

Marquei muitos trechos do livro, pensando em cita-los nessa resenha, mas o livro precisa (e merece) ser lido em seu conjunto. Que cada leitor faça suas próprias marcações.
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Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida
Micheliny Verunschk

Patuá: São Paulo, 2014
185 páginas
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Micheliny Verunschk é poeta, escritora, finalista do Prêmio Portugal Telecom, doutora em Comunicação e Semiótica e publicou Nossa Teresa com patrocínio da Petrobrás Cultural.

~Maya

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Voz da periferia

Lilia não é um nome muito comum. Quando conheci Lilia Guerra, a chamei no inbox na maior cara de pau pra contar que minha mãe também se chama Lilia. Dias depois minha mãe recebia um exemplar de Perifobia, livro de contos da xará paulistana de mamãe. Mamãe chorou.

Poucos meses depois, na minha inesquecível viagem à São Paulo para lançar meu último livro de poesia, uma moça com um sorriso estonteante se aproximou de mim e me deu um abraço que guardo com imenso carinho na memória. Como péssima fisionomista que sou, olhei pra ela meio desconfiada e falei "por favor, me diz que tu é a Lilia". Ela confirmou. Eu dei um gritinho.

Lilia Guerra é um pessoa absolutamente encantadora. Quando criei o blog, já planejava dar um post a ela só por isso, sem sequer ter lido ainda o livro. Bom, eu li.


Lilia sabe do que está falando. Perifobia é um retrato de várias facetas da periferia, da doméstica "parte da família" sem direito a nada ao chefe do tráfico cuja história de vida não poderia ter levado a destino diferente. Da diarista que chega ao seu limite com a cliente sem noção ao rapaz de cobra suas moedas para atender o telefone público da comunidade.

Para além disso, o nome do livro já é de um brilhantismo ímpar, a mistura das palavras "periferia" com "fobia" - que não significa somente medo, como muita gente falsamente atribui, mas aversão, ódio. É isso. No próprio livro temos o retrato da fobia de algumas classes com o povo que vem da periferia. O retrato de trabalhar até o corpo sucumbir e ainda ser chamado de "vagabundo" por quem foi criado a base de danoninho.

Em um dos contos, já mais para o final do livro, a personagem está tão envolvida com sua condição relegada à inferioridade de classe baixa que, em um ato de ousadia, compra um vestido caro e o esconde por vergonha de si mesma, como se a ela, mulher de periferia, não fosse dado o direito de usar um vestido de primavera em um raro dia de folga.

Embora o livro seja de contos, muitos deles são, na verdade, sequência de outros. Ao longo de suas 305 páginas, existem duas grandes histórias, dois grandes arcos narrativos que, em um dos contos, chegam a se cruzar (a gente só descobre isso em outro conto) e mais alguns contos avulsos, todos trazendo a realidade da periferia sem sensacionalismos, de forma diria até singela.

Confesso que em certos momento, quando a sequência pulava um conto, tinha vontade de pular também pra ver o que ia acontecer. Essa fragmentação inicialmente seria relatada aqui como uma crítica ao livro, mas na verdade esse efeito só foi possível pela qualidade narrativa de Lilia. Se a história não fosse bem contada, não daria vontade de continuar, certo?

Uma coisa que ficou muito clara pra mim, lendo Perifobia, é que Lilia consegue migrar de personagem a outro sem absolutamente nenhuma dificuldade, respeitando linguagem e personalidade deles. Não sei como foi o processo de criação da obra, mas essa mudança tão grande de linguagem conforme personagens demonstra no mínimo uma boa maturidade narrativa.

Lilia tem fôlego pra romancista. E um belo fôlego. Queria conhecer mais a fundo a história de Isabel e Tiago, por exemplo, coisa que o próprio formato curto do conto não permitiu.

Por fim, ainda quero saber por que Tiago matou Bigode.
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Perifobia
Lilia Guerra

Patuá: São Paulo, 2018
305 páginas
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Lilia Guerra é paulistana, lançou em 2014 o romance Amor Avenida e contribuiu com várias coletâneas, além de participar de oficinas e ateliês literários.


~Maya

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...