segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A sublime arte de ouvir “não”


Poucos são os exemplos (se é que existem) de autores que jamais ouviram um “não” de uma editora, uma revista ou um concurso literário. O não, feliz ou infelizmente, é parte da jornada, não só da vida de qualquer escritor, mas de qualquer pessoa.

Na literatura muitos motivos podem resultar em uma negativa por parte de uma editora, que pode ir de incompatibilidade com a linha editorial da empresa até má qualidade do texto. Sim, nem sempre somos tão bons quanto imaginamos, e é aí que entra a parte mais crítica do processo.

A frustração é natural, ninguém gosta de ser recusado. Principalmente: ninguém gosta de ser recusado e passa a achar que tudo o que a editora que recusou publica é muito ruim e, portanto, você é a pessoa mais injustiçada do planeta. Sim, sim, essa raivinha que você começa a alimentar dos que foram aprovados pela editora também é parte do processo de luto pela recusa do seu trabalho.

Luto sim, é uma perda. Geralmente – e digo geralmente porque não ouso afirmar que é assim com todos – quem escreve um livro e o submete a uma editora, o faz com uma boa dose de carinho, dedicação e cria, mesmo que sem querer, uma série de sonhos ao redor daquela publicação. Daí vem o não.

Alguns reagem com autodepreciação, se achando os piores autores do planeta quando de repente sequer foi realmente a qualidade do texto que pesou na recusa. Outros reagem de forma violenta, não aceitam de jeito nenhum que alguém ouse dizer não ao seu bebê e passam a tratar a editora e todos os seus autores como inimigos. Outros apenas seguem em frente, revisam o livro, tentam outros caminhos. Geralmente esses últimos são aqueles que já levaram nãos o bastante pra saber que não é o fim do mundo, nem da linha, nem da carreira, nem dos sonhos.

Ninguém espera que uma recusa seja recebida com alegria; é um direito do recusado se sentir desanimado ou revoltado com o resultado de sua tentativa, mas esse sentimento precisa ser passageiro. Remoer a recusa ajuda em vários nadas para dar o passo seguinte, que pode ser desde uma revisão do livro à escolha de outra editora com um perfil editorial mais adequado ao seu trabalho.

É nesse segundo ponto que entram muitos dos casos de recusa, inclusive. Não adianta enviar um livro de poesia romântica para uma editora voltada à prosa de terror ou buscar uma editora de autopublicação sem ter dinheiro para investir; esses são casos de recusa certa independente da qualidade do seu material. Uma editora focada em prosa dificilmente publicará poesia, uma editora com viés estritamente comercial dificilmente publicará um livro com menor potencial de vendas mesmo que seu conteúdo seja brilhante, uma editora focada em públicos específicos não publicará livros voltados para outros públicos. As vezes, também, está tudo certo, seu trabalho e a editora parecem formar um par perfeito mas as condições do momento, do mercado, da demanda, da sociedade, acabam por melar o casamento.

Pare, pense e reflita: você enviou para uma editora com um perfil editorial que combina com o seu trabalho? Sua narrativa usa uma linguagem que combina com o público que você pretende atingir? Seu texto possui coesão, coerência, verossimilhança e personagens tridimensionais? Sua história possui amarras que, mesmo que você use um estilo não linear, o leitor ainda saberá que está lendo o mesmo livro do começo ao fim?

Acredite, o “não” pode ser uma boa oportunidade de repensar alguns caminhos, nem que seja de qual selo queremos na capa do nosso livro se ainda não estivermos prontos para a autocrítica – por sinal, cada dia mais fundamental e nem sempre presente. É importante ressaltar que erramos sim. Todos. Editores dispensam livros ótimos todos os dias, autores entopem as caixas de entrada de editoras com livros medíocres todos os dias. Estamos todos sujeitos ao erro. O editor mais experiente pode deixar escapar um potencial grande nome da literatura e um grande nome da literatura pode escrever um livro horrível no auge da sua carreira.

A grande questão é que vivemos na era dos egos, de todos os lados. Temos sim, claro, editores que pisam nos sonhos de autores de forma muitas vezes até cruel (aconteceu comigo, por sinal, já tem um tempo, me recuso a expor nomes), e temos também gente sem nenhum preparo, nenhum interesse no aprimoramento da escrita, nenhuma vontade de aprender, que só quer ter seu nome estampado na capa de um ou de muitos e muitos livros, e acha que isso deve ser o bastante, sendo obrigação das editoras aprovar sua obra.

Não é assim que a vida funciona. Não é assim que o mercado editorial funciona. Começa que nem tudo é justo e tem sim muita gente boa se ferrando sem oportunidade e muita gente nhé se dando bem, no mundo inteiro, em todas as áreas. Sabemos que as coisas são assim, mas não é esperneando que a coisa se resolver.

Fundamental é viver de cabeça erguida e fazer a sua parte. Talvez o editor que disse não está errado e sua obra é incrivelmente maravilhosa, talvez ele esteja certo e sua obra precisa ser revista, talvez não bateu o santo e outro editor vai gostar do seu material, mas seja qual for a explicação para o seu “não”, a melhor saída será sempre dar uma olhada a mais, continuar buscando conhecimento (como já dizia o icônico ET Bilu), lendo muito, buscando opiniões de terceiros, praticando.

A literatura é de uma subjetividade absurda. Podemos acertar a mão em uma obra e errar feio na outra. Quando resenho livros de contos ou poesias aqui no blog, é normal ter uma porcentagem mínima de textos do livro que destoam dos demais. Não teve um único romance que eu resenhei que não achei algum furo na história. E posso garantir que acontece o mesmo com os meus livros, porque escritores não são robôs e a perfeição nas artes é uma questão de ponto de vista. Ter textos que não gostei entre poesias e contos ou pequenos furos nas narrativas longas não mudou minha percepção da qualidade das obras porque é NORMAL.

Como é normal, NORMAL, ser recusado.

Portas fecham, portas abrem. Portas só permanecem fechadas para quem fica esperneando do lado de fora. Levanta, sacode a poeira e vai atrás de seus sonhos onde eles forem bem-vindos.


~Maya


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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Anti-minimalismo

Nada contra o clichê, o previsível, às vezes fazemos uma leitura de relaxamento querendo que nas próximas páginas esteja exatamente o que a gente espera que esteja. Bom, definitivamente não é o caso do livro "Lente de aumento para coisas grandes", de Sabrina Dalbelo.



Passamos a vida ouvindo que devemos dar valor às pequenas coisas, os pequenos gestos, os pequenos momentos, uma hipervalorização do minimalismo. Na contramão do microsentimentalismo, Sabrina inverte o óbvio e traz à tona o valor das grandes coisas. Das coisas gigantescas.

Justamente movida por essa ideia de que tudo o que é belo e sublime - e que deve ser valorizado - é pequeno que julguei que o livro de Sabrina seria uma sátira, talvez uma grande brincadeira com coisas materialmente grandes, até pelo título, afinal, quem precisa de lente de aumento para ver algo grande?

E então, durante a leitura, descobri que precisamos mesmo. Talvez até de um chacoalhão.

Sabrina não inventou a roda em seu livro. Nem transformou tudo em uma grande piada. Nem fez uma sátira com objetos grandes. Ela apenas subverteu a lógica do minimalismo. E fez muito mais sentido. A valorização das pequenas coisas virou a valorização das coisas grandes sob a ponta da caneta de Sabrina. A amizade não é algo pequeno, o amor não é algo pequeno, o nascer do sol não é algo pequeno. São grandes, são gigantes, e passam despercebidos, ou passam como as "pequenas coisas da vida", daí a ideia de lente de aumento.

Já que estamos falando de lente, o livro é dividido em quatro focos: a observação, o barulho, a descoberta e a identificação das coisas grandes.

Da valorização do pequeno, observamos os grandes que:
- o carinho cura
- a desigualdade fere
- o amor basta
- a saudade preenche
- o empoderamento completa
- o amor não é concreto
- o maior poder é o respeito
- falhar não é feio
- o corpo suporta uma vida bem vivida
- coisas boas acontecem quando nos permitimos
- velhice prefere o que é verdadeiro
- o que permanece das pessoas é o amor que existiu
- amizade é aquela que te guia
- existem coisas que não podem ser explicadas

Grande também é o lirismo que Sabrina emprega na sua observação; "não parece mas / há caridade / em doar saudade / a um coração vazio".

Também há crítica no seu trocadilho "ofensa / rima com crença / não por nada". O poema em questão se chama "rima pobre" e posso até concorda que o seja, mas nesses três pequenos versos há um significado gigante em um momento social tão crítico onde grupos religiosos ameaçam direitos civis de populações inteiras em um Estado que deveria ser laico.

Esse poema é um retrato simbólico bastante adequado para o livro como um todo - não o único, por óbvio - mas é um poema extremamente curto, três versos, poucas palavras e - nas palavras da própria autora - rima pobre - mas com um significado que transcende a página, a obra e essa resenha.

É o reflexo da antítese, do anti-minimalismo a que se propõe o livro, enxergar o grande a partir daquilo que se considera pequeno, e o livro tem grande êxito nessa missão, caprichando ainda mais nas negativas do poema "teoria da relatividade das coisas", que começa com "pouco amor não é falta de amor" e segue com uma série de exemplo de coisas que nem sempre são o que julgamos ser, como "aperto de mão forte não é cumprimento leal", "ter uma bíblia debaixo do braço não santifica ninguém", "cair não é para os cabelos" e termina com "não exclusivamente".

Relativiza o pequeno, relativiza o valor, relativiza as coisas.

E segue para o barulho das coisas, onde:
- o conto de fadas pode virar violência
- o sorriso ao indigente faz bem para os dois
- conexão olho no olho tem mais alcance que internet
- a vida é feita de mortes
- quem mais grita é quem tem menos a dizer
- falar difícil não significa ter conteúdo

Assim como a gente não percebe que o germinar de uma flor entre as pedras de uma calçada é um processo gigante de superação de uma semente e considera que apreciar a flor, já viva, é uma das pequenas coisas boas da vida, também não nos damos conta que, na vida miserável daqueles renegados pelo sistema, à margem da sociedade, um sorriso é muito mais do que um sorriso, é um sentimento de reinclusão.

Como dizer que esse sorriso é algo pequeno? Parece um gesto pequeno, contrair músculos do rosto para que os lábios fiquem arqueados. Simples, claro, mas para aquele que recebe o sorriso, esse gesto vai muito além, talvez seja até impossível de ser explicado. Precisamos dessa lente de aumento para que possamos enxergar o quão gigante é resgatar a dignidade de um ser humano com um sorriso.

Sabrina segue, denuncia, faz ela mesma o barulho. Diz ela "eu moro no subúrbio / da literatura" em denúncia a um elitismo que vem sendo combatido, mas que ainda se faz presente nos meios literários e afasta das livrarias e saraus as pessoas mais simples, quando sabemos que existe muita história e poesia às margens da dita elite intelectual. Por sinal, alguns dos maiores pesquisadores de literatura que conheço vieram de fora dessa tal elite. O mesmo posso dizer de tantos e tantas poetas que vêm ganhando cada vez mais espaço - e merecidíssimo espaço - pela qualidade de seu trabalho.

Sabrina também descobre as coisas grandes. Descobrimos juntas que
- enxergar é mais do que apenas ver
- tristeza afeta a visão
- um dia é um ciclo completo da vida
- simplicidade pode ser muita coisa
- ou tudo aquilo que é mais difícil definir, como
"o sapato sujo / conta sobre a estrada / não sobre os passos dados"

A gente se descobre nas coisas grandes, como a importância do partir, não apenas para encarar o desconhecido, mas para ter de onde voltar. Ou que o crescimento vai muito além das mudanças do corpo, mas da força imposta pela própria vida.

E quando chegamos na identificação das coisas grandes, Sabrina arrebata com uma apresentação direta de tudo aquilo que nem sempre prestamos atenção.
"- Quem é você? - perguntou ao abuso sexual.
- Sou um bloco de montar que não se encaixa nas outras peças. Não me importo, forço, nem que as quebre."

Há espaço para seriedade, há espaço para brincadeira:
"- Quem é você? - perguntou à rebeldia.
Ela saiu esbravejando, colocou uma placa de 'não perturbe' na porta e nunca respondeu."

"Lente de aumento para coisas grandes" me surpreendeu, não pela qualidade porque isso eu já esperava de Sabrina, mas pela quebra da expectativa sobre o tema. Fazer enxergar o gigantesco oculto no falso minimalismo. Jamais tinha parado para refletir sobre isso. A obra transcendeu à poesia nela impressa. É uma boa reflexão nesses tempos corridos onde temos que nos forçar a lembrar de admirar um pôr do sol vez ou outra para sobreviver ao caos. E o pôr do sol não é algo pequeno, nada pequeno.

Nada nesse livro é pequeno, nem o menor de seus versos.
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Lente de aumento para coisas grandes
Sabrina Dalbelo

Penalux: Guaratinguetá, 2018
113 páginas
Destaque para ilustrações de Eduardo Sussumo Smozono
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Sabrina Dalbelo é gaúcha, servidora do Ministério Público Federal e apaixonada por poesia, já tendo participado de antologias e publicado diversos de seus textos em páginas virtuais.

~Maya


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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Musicalidade concreta

Este blog, sempre tão movimentado, viveu seus dias de silêncio. Mas o motivo foi nobre: passei alguns dias sem acesso ao meu computador por causa da pilha de livros que se acumulou sobre minha escrivaninha enquanto meu tempo na Feira do Livro local me impedia de organizar a biblioteca. A coisa por aqui ainda não está 100%, mas o bastante para retomar nosso espaço literário.

Nesse período ausente, a leitura foi do livro "Um sol para cada montanha", uma coletânea poética de Andri Carvão, um querido amigo que conheci ainda ano passado e tive a honra de contar com sua presença no lançamento do meu último livro, em São Paulo. Na reportagem que fiz para este blog na ocasião de minha formatura em jornalismo, Andri, como um dos entrevistados entre os poetas com publicação independente, comentou que a escolha do modelo não foi bem uma escolha, mas uma falta de alternativa, já que não tinha conseguido uma editora para a publicação do seu primeiro livro.

Atualmente, Andri já está em processo de edição de outras obras com contratos assinados. Não conheço o conteúdo das obras em questão, mas depois da leitura de "Um sol para cada montanha", ficou claro pra mim o motivo das dificuldades de Andri em publicar essa obra específica: o movimento ao qual boa parte de seus poemas pertencem.



Andri, uma mistura de poeta com artista plástico, nos apresenta a mais pura poesia concreta. Uma poesia visual que mistura elementos diversos, formas, rimas e repetições de palavras, versos que, a um olhar rápido parecem idênticos mas não o são. 

A poesia concreta foi um movimento de vanguarda, com um caráter experimental, que colocou o universo literário de pernas pro ar com a quebra do poema lírico com o uso de uma linguagem visual. Seu grande marco no Brasil foi a partir da década de 1950, como herança dos modernistas, em especial do trabalho de Oswald de Andrade. Embora o movimento tenha deixado nomes de peso como herdeiros do estilo, não é uma poesia de fácil leitura ou fácil aceitação comercial, daí a dificuldade de publicação para um autor desconhecido.

A forma como Andri trabalhou seus versos na obra, e em especial na segunda parte que é integralmente de poesia visual é uma herança direta do legado da Semana de Arte Moderna de 1922, demonstrando que mesmo que o poeta tenha abandonado as artes visuais para abraçar a literatura, as artes visuais abraçaram sua literatura junto.

Me chamou a atenção, entretanto, o texto introdutório do livro, onde Andri conta um pouco de como surgiu a obra, deixando claro pra mim que o autor tem jeito pra uma prosa poética de qualidade. Relata uma adolescência problemática e o quanto esse livro é fruto justamente desse enfrentamento de uma realidade delicada. Talvez exatamente por isso alguns poemas tenham esses ares mais imaturos, talvez um tanto viscerais de quem está usando o papel e a caneta como arma de sobrevivência. A imaturidade aqui não é um demérito; nada que contribua com uma jornada comprometida com o crescimento é demérito.

Seus problemas trazidos à tona em versos começam a se tornar evidentes no poema "autorretrato com cara de paisagem", onde Andri demonstra claramente problemas de autoimagem, "O espelho é o oposto / do meu rosto". 

A partir do poema "duas quadras", percebi uma tendência que permaneceria durante toda a terceira parte do livro, composta de versos mais densos, poesias mais longas e, digamos, revoltas: existe uma musicalidade latente em seus poemas. Consigo imaginar facilmente uma banda de rock adaptando vários de seus poemas para os ritmos típicos dos anos 80 com refrões que grudam e rimas que repetimos 30 anos depois.

Além do aspecto concretista/visual e da musicalidade de seus poemas, também percebi que Andri conta histórias em alguns de seus poemas, que poderiam ser facilmente transformados em prosa. Como o texto introdutório demonstrou sua capacidade para a prosa, fico curiosa de ver como Andri adaptaria essas mesmas poesias em contos. Algo me diz que ficariam muito bons.

A partir daí tivemos características bastante pontuais no trabalho de Andri que merecem destaque. O poema "funerária & pintura" por exemplo compara de forma magistral grandes obras de pintura dos maiores nomes das artes de todos os tempos com poesia. Comparar não seria o termo ideal, mas perseguir, como Andri diz, em outras palavras. Todas as artes buscam a poesia, de uma forma ou de outra, formalmente ou não. Vejo sentido nisso.

Certamente esse poema poderia render uma discussão de horas com aqueles que acham que não gostam de poesia porque poesia é o gênero mais incompreendido das artes, o mais complexo de se julgar, o que mais depende de mil aspectos pessoais do leitor para conquista-lo. E apesar disso, o mais presente em todas as manifestações.

De forma pontual, meu poema favorito é disparado o poema "réquiem", o qual deixo a vocês na voz da poeta Mell Renault e produção de Carlos Figueiredo, da Cine Book:



Em termos gerais, a obra de Andri reflete com força a influência das artes visuais e concretas que ele traz de sua formação, trabalhando muito o jogo de palavras pela sua sonoridade ou forma, buscando um conjunto cuja harmonia nem sempre é o foco, como quando busca demonstrar sua revolta com problemas sociais através de poemas que incomodam, que causam desconforto em seus trocadilhos propositalmente trabalhados pra trazer mal-estar.

É uma obra de formação, de um poeta inconformado, de um artista que enxerga e transporta poesia para a forma, que transforma letra em desenho e desenho em palavra.
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Um sol para cada montanha
Andri Carvão

Chiado. São Paulo, 2018.
193 páginas
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Andri Carvão cursou Artes Plásticas na Escola de Arte Fego Camargo, em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA - Escola Panamericana de Arte (SP). Participou de diversas antologias, revistas e saraus literários e atualmente é graduando em Letras pela USP.

~Maya


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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Alucinógeno

Acompanhei com alegria o nascimento da editora Caos & Letras e o lançamento, mesmo à distância, do livro de contos "Estados Alucinatórios", de Eduardo Sabino. Já de imediato a capa inusitada me chamou a atenção. Com o livro na mão também observei a qualidade de todo o projeto gráfico, porque sim, isso conta. Quando se trata de uma editora tradicional, com história de mercado, um livro bem diagramado e bem impresso é o mínimo que se espera; de uma editora nova é quase um atestado de "ok, estamos prontos para publicar". É nitidamente o caso da Caos & Letras.


Embora o título e a capa já nos avisem que será um encontro com histórias com um pé no universo fantástico, nem se tivesse um texto introdutório explicando a proposta do livro chegaríamos nele realmente preparados para as surpresas que Eduardo nos preparou. Nem sempre uma narrativa contém algum significado escondido, uma metáfora, uma lição, uma mensagem edificante em suas entrelinhas, as vezes uma narrativa é apenas uma história a ser degustada, e não posso afirmar qual dos casos se enquadra nas histórias que Eduardo nos conta em Estados Alucinatórios, mas o fato é que encontrei muita coisa em histórias que misturam realismo e fantasia (ou absurdo) em narrativas incrivelmente bem desenvolvidas.

O livro começa já com uma história inusitada: Samuel é um jovem que conviveu quase a vida toda com um demônio no corpo. Longe de ser uma história de terror, é uma história com toques cômicos e repleta de metáforas. Achei simplista concluir que poderia se tratar de um amigo imaginário ou até mesmo reduzir a narrativa a uma mensagem sobre os "demônios interiores", embora isso se faça presente quando o demônio que habita Samuel influencia seu comportamento o suficiente para prejudicar alguns aspectos da sua vida.

Mas o demônio, de certa forma, também representa consciência, como uma companhia, a voz da razão e da perdição em um único ser acompanhando um garoto até então solitário. De tão solitário, o rapaz se torna amigo de seu demônio, provocando um desfecho tão hilário quanto triste, dependendo o ponto de vista.

Já de imediato, o primeiro conto me chamou a atenção exatamente pela já mencionada qualidade narrativa. Eduardo não se utiliza de recursos poéticos, que geralmente trazem elementos mais dramáticos e que, pessoalmente, me agradam muito, nem explora de forma escancarada o escracho, o cômico. É a ironia fina, de entrelinha, que conduz suas narrativas. E não somente do primeiro conto, mas praticamente do livro inteiro, fazendo com que as histórias trabalhem tanto o drama quanto o humor sem explorar recursos de forma forçada. É tudo muito natural.

Isso grita ainda mais ao olhos quando conhecemos o homem que adotou um crocodilo. Junior, o crocodilo, é, como qualquer outro crocodilo, um predador. Mas é um predador tal qual o homem, e, por isso, embora homem e crocodilo estejam distantes em formas físicas - o crocodilo vive em um aquário - se aproximam enquanto predadores. Mas não só isso, o narrador, "pai" de Junior, o ensina a falar e o presenteia com uma televisão, trazendo, em uma história que parece sem cabimento - um homem tratando como filho um crocodilo que fala, um debate atual: manipulação midiática.

Dias e dias exposto à influência da mídia, da televisão ligada o dia todo como sua única diversão fazem com que Junior, o "filho", deseje "caçar" um comunista. E aí o narrador se vale de todo tipo de estereótipo para atender os desejos do "filho" - ironizando a ideia de um "pai de pet", afinal, nesse caso, ele efetivamente educa, cria e alimenta o animal. O fato de o pai planejar a caçada para atender ao desejo selvagem do crocodilo de devorar um comunista devido ao ódio do animal criado pela influência da mídia mostram o quanto a selvageria de ambos não está muito distante.

De todo o livro, entretanto, meu conto favorito é "Blattaria". A verdade é que gostei do livro todo, teve um ou dois contos que não me impressionaram tanto quanto os outros embora não tenha deixado de gostar por isso, mas "Blattaria" me arrebatou. Além da narrativa fascinante que prende a atenção do início ao fim, de uma história extremamente bem contada, o final do conto não apenas me levou aos prantos como me obrigou a largar o livro por alguns minutos e ficar olhando pras paredes até assimilar o que tinha acabado de ler.

Por óbvio não vou contar o final do conto, mas a história relata a rotina insana de uma família de quatro pessoas, sendo pai, mãe e duas crianças - a mais velha é a narradora - residindo em uma casa muito antiga que sofre com a infestação de baratas. A narradora estuda as baratas, descobre as espécies e ela, o irmão pequeno e a mãe, entram em uma guerra com os insetos que é interrompida pelo pai, que inicia uma estranha relação de afeição pelos bichos.

Inusitado, sem dúvida. Muito bem escrito, como os demais. Justamente por se tratar de um livro de mexe com o fantástico, que traz o improvável para a realidade palpável, li o conto tentando adivinhar o que poderia acontecer com essa família. Se tornaria o pai um rei das baratas? Seria "Blattaria" uma releitura contemporânea de "A Metamorfose", de Kafka? Tudo era possível, e nada me preparou para o verdadeiro desfecho. Aplausos a Eduardo, que certamente previu que o leitor esperaria um final apoteótico e nos estapeou as fuças de forma extremamente competente. "Blatteria" entra para minha lista de contos favoritos, não do livro, da vida.

Mas claro que não para por aí, estamos só na página 73 de um livro de 200 páginas. O conto seguinte, "Um sonho chinês", não ficou pra trás no quesito qualidade narrativa. O grande destaque nesse conto - e que merece menção honrosa no meu ranking de melhores contos - é a criatividade do autor. Na história, o narrador sofre com algum distúrbio que o impede de se manter acordado muito tempo. Enquanto dorme, ele passa a viver a vida de outra pessoa, um rapaz chinês. A coisa é tão doida, tão inesperada, que eu fiquei mais tempo imaginando o que se passou na cabeça do autor enquanto escrevia esse conto do que efetivamente navegando por ele.

Já em "Pessoa Física", retomamos as metáforas explorando o mundo consumista onde literalmente as marcas fazem a festa enquanto o homem vive de pagar as contas. O que mais fascina nesse conto é a literalidade da metáfora, acho que nunca tinha visto uma metáfora ser usada de forma tão literal - capacidade de exploração do universo fantástico definitivamente é um mérito incontestável de Eduardo.

O mesmo acontece em "Ofertório". A narração aplicada nesse conto é uma ferramenta poderosa no efeito que ele causa no leitor, já que o narrador responde a terceiros mas não temos as vozes desses terceiros. Os motivos também fazem parte do próprio tema do conto: os terceiros são os pecadores que serão sacrificados em purificação de seus pecados através da encenação de famosas passagens bíblicas. Como pecadores, embora o narrador interaja com eles, eles não têm voz. O "não ter voz" não é literal dentro do conto, já que o narrador os escuta, mas o autor priva o leitor de escuta-los, garantindo que sua voz não seja ouvida e essa ideia da ausência de seus direitos por serem "inimigos" do poder vigente fique evidente. Estratégia brilhante. E claro, conto chocante, explorando a hipocrisia de um fanatismo altamente letal.

O último conto que vou tecer comentários aqui, até para que vocês também possam descobrir os demais por conta própria é o único que foge 100% da realidade, já que narra a história de uma família de porcos. Da realidade palpável, mas não metafórica, já que os porcos, no conto, tomaram o lugar dos homens, considerados uma raça inferior e extinta. De imediato me remeteu à Revolução dos Bichos, de George Orwell, embora não tenha muita relação direta uma história com a outra. Entretanto, o simbolismo que se usa do animal porco me faz crer que a escolha deste para a família do conto de Eduardo não tenha sido em vão (e triste, porque porcos mesmo são animais dóceis).

Já nas primeiras linhas do conto, ficou claro que o conto, onde um dos leitões começa a demonstrar trejeitos humanos, o que é visto como uma aberração pela sociedade porca, é na verdade uma metáfora com a homossexualidade. Até mesmo a forma depreciativa com que o pai porco descreve a sensibilidade de seu filho é semelhante ao que vemos homofóbicos falando de homossexuais. O autor ainda escolhe o termo "homossapientes" para descrever os porcos humanizados. Ok, sabemos que o termo se refere à espécie humana, homo sapiens, mas a escolha foi providencial para uma associação mais direta.

As grandes marcas de Estados Alucinatórios são, sem dúvida, a capacidade narrativa e a criatividade do autor. Começamos cada conto sem fazer ideia de pra onde ele vai nos conduzir, ou de onde ele tirou uma ideia dessas, e somos levados por toda a história de forma suave, quase sem perceber. Apelidei esse tipo de narrativa de "leitura escorregadia"; não há pedras no caminho, a leitura flui e, quando você menos espera, chega ao desfecho. Um livro fascinante tanto por histórias divertidas quanto por metáforas muito bem construídas, narradores fortes, situações inusitadas e reflexões. E alucinações, porque essa também é a ideia.
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Estados Alucinatórios
Eduardo Sabino

Caos & Letras: Nova Lima, 2019
200 páginas
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Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, Minas Gerais, em 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre Amigos (Patuá, 2016) e Ideias Noturnas sobre a Grandeza dos Dias (Novo Século, 2009) e recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto "Sombras".

~Maya


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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Lirismo

Ontem era dia de resenha, mas a correria dos últimos dias impediu a finalização da leitura e me forçou a uma quebra dos meus prazos auto-estipulados e cobrados por absolutamente ninguém. Mesmo assim me vejo corroer em culpa pela quebra de um ciclo que vinha funcionando com perfeição nos últimos três meses.

Cansada, doente, preocupada com o público do blog, abri os e-mails onde recebo material dos autores que querem figurar nesse espaço e fui ao material de Rafael Mendes. Não era dia de publicação de autores, mas ontem era dia de resenha e não deu, fazer o que?

Nessas horas é que o destino gosta de nos dar boas surpresas, penso eu, porque abri o material do Rafael e me deparei com versos que me abraçaram a alma. Uma mistura fascinante de doçura e revolta, desde escancarar a cafonice de uma rima pobre a preferir a rima pobre à necessidade da denúncia sobre a realidade em que vivemos.

Rafael tem um toque visceral em sua suavidade que muito me agrada. Foi um presente, para um dia como hoje, selecionar poemas de Rafael para esse espaço.


amor & dor

quantas vezes já se rimou amor e dor? a rima,
ainda que pobre de criatividade, enquanto afirmação,
ergue questionamento ou dúvida? desde a juventude
a humanidade debate a aspereza do amor.
tornou-se mais calmo como o lusco-fusco no verão,
ou ainda resultou inútil, carrega o mundo nas costas?
ainda existe amor, dor, pernas cansadas,
desvario da perda. ainda capazes de amar,
num tempo que exala ódio e barbárie.
existem heróis ou somos todos párias da passividade
diante da revolta e do amor — é tempo de silêncio.
haja amor, haja ação, a despeito do banquete
tosco cuspido das urnas, das fezes. antes rimar
amor e dor que vibrar diante da morte do irmão,
antes um rima gasta que cálice de sangue e cortes.
o amor, rio ganges maculado — ainda sagrado.
não cantaremos o medo, cabem ainda notas de amor.
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quarenta e nove

i
teus olhos verdes, meu pai
marcados por desesperança
e resignação dos fortes

diversos solavancos da vida
passaram primeiro por teus
olhos verdes, meu pai

haveria de ser verde
o filtro de tua esperança

ii

não nasci com pepitas de turmalina
penduradas nas cavidades de minha face

aprendi, ao olhar teus olhos, que o verde
transmuta entre a vida e a morte
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a sauna

pior do que a ausência do amor, a memória do amor - lygia fagundes telles

nem uma vez mostrou-me seus olhos de desejo adormecido,
nas suas costas não descansei meus lábios, não anotei o compasso de
suas falanges, seu umbigo não escondeu meus presságios de morte

quando apareceu como sonho, devaneio e embriaguez,
não foi nada mais que um pequeno aviso na parede opaca,
"o quadro está em restauração, desculpe-nos pelo transtorno";,
o espaço quase todo preenchido por obras de van gogh, tarsila, basquiat,
e meu olhar fixo e perdido na ausência de sua materialidade

me desfiz dos diários com nossos planos, das gravuras onde talhei nossos pecados,
dos jasmins que plantou no parapeito da alcova, dos temperos trazidos da índia
e do amazonas, livrei-me até do busto de santo antônio

os médicos todos exconjuraram os requerimentos escritos sob
a regência de uma febre lancinante — pedia o brilho opaco da amnésia, o desvario
libertador dos loucos. embarquei em barafundas propositais e inadvertidas,
vesti-me de quixote, viajei até as ilhas de crusoe, sorvi o caldo espesso
das vísceras de macunaíma, naufraguei naus de colombo

sempre a lembrança cintilante de nosso amor, que bem pode ter sido
alucinação e cansaço da quarta-feira de cinzas
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Rafael Mendes foi criado entre São Paulo e Franco da Rocha, entre a cidade e o quase interior. Reside em Dublin desde 2016. em 2018 veio sua primeira coletânea “um ensaio sobre o belo e o caos”, lançado na Europa pela editora urutau. Em outubro de 2019, terá poemas publicados na antologia “writing home: the new irish poets”, pela Dedalus Press na Irlanda. Seus poemas já foram publicados pela revista Ruído Manifesto, Revista Gueto, Literatura & Fechadura, entre outras além de rádios e saraus na irlanda.

~Maya

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Nenhuma resenha ou divulgação de autor é cobrada de autores e editores. No entanto, manter o projeto ativo demanda esforço e muito tempo. Se você gosta do trabalho desenvolvido no blog, julga digno de remuneração e tem condições de contribuir, peça meus dados via Facebook ou pelo e-mail bibliofilia.cotidiana@gmail.com.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Aplausos

Assim como tantos, Moisés Spiguel se jogou na literatura depois da aposentadoria. Não só na literatura, mas nas artes como um todo, abrindo um grupo de teatro, experiência que certamente inspirou o conto enviado por ele para estrelar o post de hoje do Bibliofilia.

Embora tenha me contado que já publicou um livro com contos de humor, o texto enviado é inédito, exclusivo para os leitores do Bibliofilia, e, embora não seja de humor nem explore um tema que inspire graça, é possível perceber seu sarcasmo e inclinação para a comédia.

Fiquem agora com o conto inédito de Moisés Spiguel!

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA.

Desta vez, quando voltou, Vanderlei não parecia disposto para conversa. Mas Luis insistia. Trancados naquele cubículo minúsculo e úmido, o silêncio era pesado e opressor.
— Como é que foi hoje? Está muito machucado? Você está bem? Você falou alguma coisa?
Luis parecia mais interessado em distrair do que interpelar.
Vanderlei suspirou. Limpou com a manga o sangue que escorria da boca.
— Estou bem. Não estou com vontade de conversar. Não falei quase nada lá.
Luis pareceu surpreso.
— Puta que o pariu! Como não falou quase nada?! Quer dizer que alguma coisa você falou! Não me diga que entregou alguém!
Vanderlei permaneceu em silêncio por algum tempo. Depois, não se conteve.
— Pra você é fácil, não é? Não te levam pra lá todo dia como levam a mim!
Luis disparou.
— Eles sabem que nunca peguei em armas como você, porra! Sempre fui um simples simpatizante. Já investigaram e sabem que eu nunca tive contato com grupos armados. Me mantém aqui, não sei por que.
Vanderlei continuava abalado, mas ainda se dispôs a responder.
— É. Lembro quando você foi levado para interrogatório. Foi uma única vez. E não me pareceu nada mal quando voltou.
Luis aparentou estar ofendido
— O que você está insinuando?
Vanderlei não estava disposto a discutir.
— Nada. Só comentei. Mas porque você se interessa tanto se entreguei, ou não, alguém?
Quase sem forças, silenciou e fechou os olhos. Luis pensou que tivesse adormecido. Mas Vanderlei continuou.
— Usei o truque de sempre. Só dei nomes dos que já foram mortos pela repressão, e de outros já conhecidos pela polícia, e que sei que estão foragidos. Mas parece que já manjaram a coisa. Pararam por hoje.
— Pararam por quê? Ainda é cedo. Me parece que é pouco mais do meio-dia — estranhou Luis.
O olhar de Vanderlei ao seu companheiro de cela demonstrava quão pouco confiava nele. Mas era visível que em seu estado físico e mental, só queria ser deixado em paz para poder talvez dormir um pouco. A única maneira era responder as perguntas o mais rápido possível.
— Houve certo atrito entre o coronel e o dono da empreiteira que estava assistindo. Eu tinha desmaiado, mas logo acordei com o barulho das vozes, sem que percebessem. Estavam discutindo. Escutei o empresário dizendo: “Não pode interromper agora! Mais um pouco e ele despejaria tudo!”. O coronel tentava justificar: “Não posso deixar de ir à formatura da minha filha. Haverá entrega de canudos, discursos e um baile de gala. Se eu faltar, ela nunca me perdoará”. O empresário não se conformava: “Olha! A gente não sustenta essa merda para que vocês deixem o trabalho pra ir a festas! Alguns membros de minha diretoria já estão começando a questionar nosso envolvimento com vocês e as despesas que estão sempre aumentando”.
Perceberam então que eu tinha acordado e o coronel mandou que me levassem de volta pra cá.

Na sala de interrogatórios, a discussão continuava. O empresário não se conformava.
— Além disso, ainda é cedo. Essas cerimônias não são sempre à noite?
O coronel continuava a argumentar.
— Sim, mas eu tenho que passar no cabeleireiro para apanhar minha mulher, ir pra casa, tomar banho para limpar toda esta sujeira, fazer a barba, me vestir. Olha, doutor, prometo que amanhã começo a sessão bem cedo, e até o fim da tarde arranco tudo daquele filho da puta. Só sai daqui, morto!
O empresário já estava se acalmando. Durante o interrogatório, era visível que estava sob o efeito da adrenalina provocada pela visão das torturas e pelos gritos do prisioneiro. Nunca perdia essas sessões. Isso o deixava visivelmente mais excitado do que uma transa. Mas agora, sua fisionomia demonstrava que a sensação já estava se dissipando, e pôde se deixar convencer. Seus olhos ainda guardavam certo brilho pela promessa de um espetáculo talvez ainda mais excitante no dia seguinte. 
Resolveu acabar logo com aquilo.
— Está bem. Vou embora. Até amanhã. Amanhã venho bem cedo, viu?
O coronel suspirou aliviado.
— Até amanhã, doutor. Amanhã será outro dia.

Na cela, Vanderlei comentou.
— Pode ser que desistiram e concluíram que eu não tenho mais informações pra dar.  O coronel me pareceu propenso a desistir. Vamos ver amanhã. Quem sabe me soltem.
Luis finalmente deixou o colega descansar.
— Ta bom. Vai, dorme. Amanhã será outro dia.
Ainda puderam ouvir gritos e gemidos vindos do outro lado da parede. Já estavam acostumados.
Vanderlei, quase dormindo, conseguiu balbuciar.
— Sim. Amanhã será outro dia.

A cortina fechou. Quando voltou a abrir, palmas soaram na platéia. Os atores agradeceram, as palmas foram esvaecendo até que pararam. O público se dispersou devagar. Alguns haviam esperado um entretenimento agradável, uma comédia romântica. Outros, mistério e suspense.  Mas os rostos não aparentavam terem sido atendidos em suas expectativas. Um senhor idoso, postura ereta, com aparência de militar reformado, comentou para seu companheiro mais jovem: “Isso é coisa de comunista. Nunca houve nada disso”. Havia expressões sombrias, olhares perdidos e testas franzidas. Não pareciam ter seus espíritos elevados artisticamente, nem suas mentes enriquecidas culturalmente. Os mais jovens não se sentiam identificados com os personagens. Pareciam duvidar que algo assim pudesse ter acontecido há poucas décadas no país. Alguns dos mais velhos tentavam não pensar no passado tenebroso. Todos pareciam perturbados. Porém sabiam que algumas boas horas de sono faria com que as lembranças do que viram no palco esmorecessem. Diziam a si mesmo: “Amanhã será outro dia”.
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Nas palavras de Moisés Spiguel: Sou engenheiro civil. Fui diretor de multinacionais.  Ao me aposentar passei a participar de diversas atividades. Fui colunista durante dois anos de um portal que já fechou e montei um grupo teatral ‘Atualidade’ no qual escrevo o texto, dirijo e também atuo. Uma das peças apresentadas, ‘Noite Feliz’, foi gravada e está no YouTube

Passei a apresentar uma série de tiras de HQ no Facebook que retrata uma família de corujas.

Em 24 de julho do presente ano lancei na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo meu livro ‘Nosso homem da CIA’, à venda em diversas livrarias, contendo trinta contos na linha do humor. Atualmente comecei a escrever um novo livro.

~Maya
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A cor dessa cidade

Vivo em uma bolha onde cada vez mais poetas tiram seu trabalho da gaveta e jogam ao mundo. Vejo diariamente livros de poesia sendo publicados em pequenas e corajosas editoras, algumas sobrevivendo de atividades paralelas, outras da verba do próprio autor, que cobre os custos da publicação de seu livro. Dentro dessa bolha onde eu vivo, o consumo da poesia vem aumentando e enchendo os poetas de esperança, mas sabemos que do lado de fora a coisa é um pouco menos conto de fadas.

Tudo se resume a uma frase que ouvi de uma editora ao tentar publicar meu primeiro livro de poesias, aos 14 anos: "poesia não vende". Não parei de escrever poemas e hoje tenho dois livros do gênero publicados, mas me chamou a atenção para uma coisa: poesia até vende, mas muitas vezes o que vende na livraria é o autor com nome famoso, que a pessoa compra pra fazer bonito e não necessariamente vai ler. Na reportagem que fiz sobre esse panorama da poesia brasileira contemporânea, em que entrevistei alguns dos editores que mais investem em poesia, a informação que surgiu é que fora do grande circuito comercial, das redes de livrarias e afins, o que vende é poesia de gente que construiu um bom público por meio de participação de eventos, premiações, saraus e afins.

Qualquer das alternativas exclui poetas fora do eixo central do país - onde a maioria dos eventos acontece - e que não possuem condições financeiras para se fazer presente. A soma dos dois fatores - nomes consagrados e gente que consegue se fazer presente pra ser visto - faz com que um número gigantesco de ótimos poetas amarguem uma vida artística de invisibilidade.

Na contramão de todo esse pessimismo, um jovem poeta, que atua como dentista para sobreviver, provindo do sertão nordestino, filho de uma cidade com 17 mil habitantes e que produziu um livro em homenagem à sua cidade de forma totalmente independente foi à São Paulo, em 2018, entrar pra história. Maílson Furtado foi o primeiro autor independente da história a ganhar o Jabuti de Livro do Ano. Não só nisso fez história, mas também não é nada comum que um poeta leve esse prêmio para casa.



Do interior do Nordeste, diretamente do sertão, para o mundo. Maílson, independente de qualquer análise (que vai acontecer abaixo) já se tornou um nome a ser lembrado, pela independência de sua produção, pelo gênero literário e, principalmente, por estar fora dos dois circuitos que mais garantem vendas e premiações.

Quanto ao livro em si, porque isso era pra ser uma resenha e não uma reportagem (se fosse uma reportagem, eu estaria com um timing de quase um ano de atraso), a primeira coisa que me chamou a atenção foi a cor.

Nunca estive no sertão nordestino. Aliás, nunca estive no Nordeste, mas fora a imagem turística das belas praias e todo o estereótipo tanto negativo quanto positivo que chega aqui no sul, sempre que penso em uma cor para o interior da região, é justamente o marrom terra. O livro de Maílson e todo dessa cor, das ilustrações às palavras. É como ter, de algum jeito, um pouco do sertão nas mãos. E não deixa de ser, já que a poesia longa apresentava no livro tem exatamente esse objetivo.

Ler a terra do sertão. Temos em mãos um livro recheado de metáforas, jogos de palavras, brincadeiras fonéticas gramaticais. Uma terra composta de figuras de linguagem. E de estreia, o começo do livro se abre em musicalidade.

Não há regras na poética de Maílson. Cada pedaço de sua poesia é como manda sua vontade, sua imaginação e a terra de Varjota, a cidade homenageada por Maílson que, ironicamente, nem livraria tem. Logo em seguida, como um organismo vivo feito de pedras e terras, as ruas da cidade são convertidas em veias por onde o fluxo da vida humana passa.

Na página 10, o poeta mistura o vivo e o não-vivo como uma coisa só. Tudo o que é vivo passa, em uma tarde da rotina comum da cidade. Menos as casas. As casas permanecem paradas mesmo que o poeta as dê vida enquanto cochilam, despertam ou dormem. E dormem em pedaços, onde as luzes se apagam, a casa adormece. Maílson humaniza a casa, como se o apagar do poste, na chegada do amanhecer, fosse seu despertador, o sinal que a casa recebe da cidade para acordar.

As ruas se tornam um elemento tão importantes na poética de "À cidade" que nos damos conta que as casas - organismos não-vivos - não pertencem aos seus moradores, mas às ruas. Os moradores se deslocam, saem, voltam, mudam de endereço, enquanto as casas permanecem no mesmo lugares, imóveis, onde devem estar. Se demolidas para saírem da rua, deixam de ser casas. A casa pertence à rua, que pertence à cidade, onde o homem, esse sim organismo vivo, habita.

Nessa mesma linha temática explorada no livro, de forma metafórica, o autor também humaniza objetos que integram a rotina dos moradores da cidade. A enxada trabalha, a casa adormece, o homem tem raízes. Uma salada de frutas de figuras de linguagem que tornam todos semelhantes entre si, mesmo que o homem tenha as veias, a cidade as ruas, que funcionam exatamente da mesma maneira - bombeando vida, mantendo o corpo - e a cidade - em movimento. Como o homem que riu, o rio que respinga.

Na descrição da rotina da cidade, Maílson traz toques de homenagem à tradição oral, responsável pelas lendas que norteiam produções literárias até os dias de hoje e que, certamente, tiveram importante papel na sua construção cultural como leitor e como poeta. E como tudo é vivo na poética do autor, reclama ele que o clima desrespeita os intervalos que a cidade e os homens fazem, trazendo um retrato poético do interior.

Nos dias que seguem, o sol é sempre o mesmo a garantir a rotina. É sempre o mesmo mesmo que não pareça estar lá. E chegamos no domingo, onde tudo o que é vivo também é folga, é namoro na praça, é o rio dele rindo com seu avô enquanto o rio da cidade goteja, sempre vivo. Domingo é dia de feira também, metaforizando que de segunda à sexta também há feira, mas não a mesma feira do domingo.

O rio da cidade é da mesma água que deságua no mar, que percorre oceano, que encosta nos países de outro continente, como se sua pequena cidade sertaneja estivesse naturalmente conectada com o mundo.

Mais tarde, em sua narrativa composta de figuras de linguagem, Maílson mistura a origem do rio com sua própria genealogia. Tudo está conectado. Como o trem no trilho, que, na obra, também ganha vida, e uma vida pulsante de quem carrega homem e progresso. Já as pontes, Maílson as chama de suturas, como os pontos que unem a pele rasgada, as pontes unem o rasgo da terra.

Enquanto segue sua descrição da cidade viva, o poeta homenageia os famosos pontos de referência, que, mesmo em cidades um tanto maiores do que a sua, por vezes se tornam mais importantes aos que transitam pela cidade do que o próprio nome da rua. Quem jamais ouviu "fica na rua do mercadinho" ou "segue pela rua da farmácia"?

Já se encaminhando para o encerramento da obra, Maílson lembra de tantos que saem de suas pequenas cidades do sertão para tentar a vida nas cidades grandes, mudanças extremas que levam esses organismos vivos para longe da cidade, mas a cidade e sua vida pulsante não abandona por completo esses organismos vivos que partiram, tal qual o rio, que se desloca mas é sempre da cidade, tal qual o trem que se desloca mas sempre volta.

O poeta finaliza sua ode ao sertão e à cidade de onde veio em especial colocando-se como parte dela, como um órgão no corpo cidade, como um glóbulo que passa carregando vida pelas suas veias-ruas.

Poesia é um gênero complexo, muito mais dependente do gosto pessoal do que a prosa, muito mais fácil de ser julgada por sua qualidade ou falta de. O que me encanta, na obra, é a verdade que o trabalho de Maílson carrega. Ele não homenageia a cidade em vão, ele homenageia um amor verdadeiro, como uma poesia à sua amada, como os tradicionais poemas de amor que tanto sucesso fazem.

Maílson não nos transporta à Varjota pela descrição. Termino o livro sem fazer ideia de como é a cidade, de forma imagética, mas nos transporta via metáfora. Sei que tem vida de interior em Varjota, sei que no domingo tem feira e os jovens namoram na praça, sei que que a sesta é respeitada, que as ruas são pulsantes, que o rio deságua, que o trem passa, sei que pessoas saem de lá mas suas raízes ficam. Sei que, de forma metafórica, folheei a terra do sertão nordestino enquanto conhecia a cidade. Não necessariamente a cidade onde nasceu Maílson, mas a cidade onde as tradições são preservadas e as casas amanhecem todos os dias.
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À cidade
Maílson FurtadoViana

Produção independente. Fortaleza, 2017
60 páginas
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Maílson Furtado Viana é autor das obras Sortimentos (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014). Membro-fundador da Cia Teatral Criando Arte e membro-fundador do Grupo Literário Pescaria. O livro "À Cidade" venceu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano em 2018.

~Maya

COLABORE COM O BIBLIOFILIA COTIDIANA!
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Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...