terça-feira, 16 de julho de 2019

Sobre Marias

Conheci Viviane no facebook, como em geral é o que acontece na minha vida, mais um ponto para a rede social. Vi que ela estava prestes a lançar um livro, As Dez Marias, e de imediato me interessei. Maria já é mais do que um nome feminino; é um símbolo.



Maria habita o imaginário coletivo seja como a mãe de Jesus, a virgem e imaculada mulher que cedeu seu ventre para conceber o filho de Deus, ou Maria Madalena, salva do apedrejamento pelo messias. Segundo alguns, prostituta redimida, segundo outros, grande amor de Jesus. Seja como for, Marias viraram o símbolo da representação feminina, a santa e a puta.

O primeiro aspecto que me fascinou na obra de Viviane, entretanto, é ela ter usado o nome símbolo sem no entanto explorar as imagens bíblicas. Pelo contrário.

A Maria que norteia o livro é Maria Leopoldina, imperatriz do Brasil, esposa apaixonada e traída por D. Pedro I, obrigada a conviver com a amante do marido, Domitila, enquanto engolia dentro de si a dor de viver um amor não correspondido.

Acompanhamos de perto os últimos dias de vida dessa Maria. Nos intervalos, conhecemos outras. Todos os textos em primeira pessoa, nos colocando diretamente dentro de cada Maria. Marias famosas, Marias anônimas. Marias que não eram Marias, mas quase, como Marielle Franco, aquela que, como mesmo diz a autora, encontrou seu lugar na história depois que lhe foi negado lugar na vida, vítima de um homicídio covarde para calar sua voz (e ela se multiplicou).

Maria Firmina, primeira romancista brasileira, negra. Maria da Penha, vítima de diversas tentativas de homicídio pelo marido cuja luta resultou na nossa lei de proteção às vítimas de violência doméstica. Maria Laura, que já foi Gabriel. Por sinal, dos pequenos textos entre os últimos dias de vida de Maria Leopoldina, o meu favorito.

Não são 10 Marias, como sugere o texto. São milhares. Milhares de Marias que sequer levam Maria no nome.

Viviane, que, da sua maneira, também é Maria, apresenta cada uma. Se me coubesse uma sugestão à autora, diria apenas para falar um pouco mais delas. Sua narrativa redondinha deixa um gosto de "quero mais" ao final de cada história. Algumas, inclusive, funcionariam muito bem como contos, retirados do contexto do livro.

As Dez Marias é um livro sensível, claramente fruto de pesquisa e com uma força que somente uma Maria poderia ter.

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As Dez Marias
Viviane Ferreira Santiago

Patuá: São Paulo, 2019
196 páginas
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Viviane Ferreira Santiago nasceu em Belo Horizonte MG e mora em São Paulo há 25 anos.
É jornalista, pós-graduada em Literatura Brasileira, graduanda em Letras.
Encontrou na literatura a ferramenta necessária para submergir de uma caótica realidade periférica, assim, tem alçado voo e conquistado espaço na escrita contemporânea.
Seu primeiro livro de contos, A Linha Amarela do Metrô, recebeu a bolsa PROAC 2017, da Secretaria da Cultura e Governo do Estado de São Paulo para publicação.
Seu livro As Dez Marias recebeu em 2018 a premiação inédita, do então, Ministério da Cultura, para publicação de livros com temática aos 200 anos da independência do Brasil, sendo assim agraciado por sua qualidade literária.



~Maya
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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Um pouco de Mariana

Não sei quem adicionou quem, só sei que ela começou a me chamar a atenção quando fez, inesperadamente, uma resenha de um conto meu. A beleza do texto, a profundidade da análise, a resenha me deixou estarrecida.

Vos digo, leitores, agora que me aventuro no campo da resenha, essa mulher é mestre no que faz. Mas mais do que isso: comecei a desafia-la a produzir a própria literatura; alguém com aquela linguagem e aquele conhecimento com toda certeza seria capaz de produzir boa literatura.

Acertei na mosca.

Ela já escrevia, só não contava pra ninguém. Aliás, até hoje dá uma trabalheira danada para fazer ela mostrar alguma coisa. Mas enfim, venci.

O nome dela é Mariana Belize, idealizadora do projeto Olho de Belize, e ela escreve MUITO. Confere aí!


Não jogue a âncora aqui

não jogue
nem mesmo as suas palavras
não jogue com elas
não jogue
não faça o nó
desfaça essa cara
disfarça
engole a revolta
e volta
transforma esse nojo
em calma
e não jogue essa pedra
não jogue
não quebre a corrente, se entregue
à maré das ocultas serpentes
se forme
não olhe pra trás
largue tudo aqui nesse barco
reme de volta pra casa
não há lar
não há fidelidade
não há fartura nem pôr-do-sol

não jogue a âncora
aqui
não jogue comigo pelo placar
não estapeie a própria cara
não brigue com a lua vermelha

não
não jogue a corda
não atenda o telefone
não escreva a carta
não

não jogue a âncora aqui
don’t play the piano
não jogue o lixo fora
não pegue o casaco
não

não escreva uma carta pro marido
não beije o cachorro
não se despeça de mim
não

não jogue a âncora
não cate essas pedras
desfaça o nós
não pule do prédio
não atravesse no sinal verde
não tome as pílulas assim
exageradamente
não
não pegue a faca.

Não jogue essa âncora.
Não deite no rio.

Não morra, por favor.
Me dê um sinal,
Virgínia.

Não.

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Dilma, Andrea, Virginia
(A todas as mulheres intelectuais que estão nas universidades provando o machismo todo dia)
Mulheres, se um homem não puder te ofender
te engolir
te comer
pelo teu trabalho intelectual,
dizendo que é medíocre
mediano
ridículo
inábil
Mulheres, se um homem não puder te ofender
pelas tuas ideias e pensamentos,
dizendo que são loucura
babaquice
transtorno
inutilidade
Mulheres, se um homem
qualquer um da Academia
não puder te definir como simplória
inocente
ingênua
/naive/
jovenzinha
coitadinha
em matéria de academicismos
muitas vezes decorativos curriculares
aquelas coisas altamente questionáveis
nós sabemos que não são eternizáveis
nós sabemos que a teoria
na prática
é outra
Mulheres,
se um homem não puder te chamar de medíocre
te ofender pela tua intelectualidade...
te chamar de burra
gorda
fedelha
cadela
vadia
vagabunda
filha da puta
Mulheres,
com certeza,
ele vai apelar...
rindo
cagando
e andando
carregando
seus podres poderes.
Mulheres,
ele vai dizer que você é feia.
Se ele disser
e ele vai dizer,
não acredite e dê uma bela gargalhada.
É, como diria meu povo aqui de Belford Roxo,
povo crudelíssimo, glória a Maria!:
Issaí é recalque, lindeza...
puro recalque.

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Cartão de visita

Revisar eternamente
o que ser mulher re-
apresenta
ao mundo de maquiavel:
requisitada dama na sala,
língua ferina no corredor,
pernas abertas na alcova.

Repisar eternamente
a graça divina
de um útero macio e fundo
parecendo um túmulo
dessa cidade de papel.

Reinterpretar a realidade
espúria
desse trinômio:
breu, silêncio, sorte.
Ser. Mulher. Morte. Repita devagar.

As três marias parecem danificadas
no céu poente que construo
não parecem coloridas
nem pulsantes.

Eu carrego meu barco
sem Barqueiro que conduza
pra dentro de qual inferno
a vida me ameaçava?

Mãe, Pai, Avó, Família
Sacra pertença, ingrata
herança, perniciosa, a monstra bebê
que nasceu curtida no fel
e na desgraça.

Ainda nem nasci e já sinto
o empuxo
da falácia.

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Lendo Euclides da Cunha

A terra:
entrada sertão
drenagem caótica das torrentes
o rabisco de um rio
arbustos flexuosos entrechassados de bromélias rubras
a truncadura malgradada
desde aqueles tempos, as lindes de um deserto.

É uma paragem impressionadora
mares de pedra
ruinarias de castelos
arestas dos fragmentos
à luz crua dos dias sertanejos.

aquele ignoto trecho do sertão:
a natureza, em roda, lhe imita o regímen brutal...
escombros de terremotos
em roda uma elipse majestosa de montanhas...

uma inércia cômoda de mendigos fartos
no ascender do verão acentua-se o desequilíbrio.
desce a noite, sem crepúsculo, de chofre…

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há uma parte de mim que corre
de canto a canto, ela se apressa
em ações desgovernadas
que eu observo sem julgar

há uma parte de mim que senta
numa cadeira todo dia tentando
esquecer o passado
que eu observo sem chorar

há uma parte de mim que ouve
canto gregoriano e heavy metal
ela se descuida de todo o resto
e eu observo sem cessar

há uma parte de mim que escreve
prosa, poema, cartas para ninguém
dedicada a ajustar as palavras...
ensaiando as lacunas que eu observo

há uma parte de mim que chora
mas essa eu não tenho coragem de encarar
fico atrás da porta do quarto escuro
encostada na porta, eu desperto e durmo

enquanto lá dentro ela clama e soluça:

Nós nunca seremos uma só
nós nunca seremos uma só

nós nunca seremos uma só…

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Foi quando ela me disse
você não é poeta,
emendou um querida
porque precisava
parecer
simpática.

Deixei o café esfriar
enquanto escrevia.
Pareço um demônio no espelho?
Quando enxergo meus chifres
e meus pés envergam
sei que a noite vai ser difícil.

As bruxas se soltaram
do porão da minha cabeça.
E eu estou sentada,
marcando uma reunião comigo mesma.

Foi quando ela disse
escrever pra quê
nem adianta se esforçar
você não é poeta
eu reconheceria
se
você
fosse

algo.

Do nunca duvidei, bicho
é o fato de que minha irmã me odeia desde
desde quando
desde?

Eu tinha quatro anos quando
entrei na casa do estranho pela
primeira vez
e foi instantâneo:
o demônio entrou no meu corpo
o demônio se apossou de mim
e quando olho no espelho e vejo
essa mulher
essa estranha
meus olhos, os olhos dela
sendo unívocos

como um sistema que se retroalimenta
de gritos e sussurros

ela insistiu
você devia ter vergonha,
você devia se esforçar mais
você devia
devia
você
me
deve
a
vida

ontem, o incêndio começou dentro do meu estômago
o prazer do silêncio
de dentro
esfumaçado pelo crepitar das chamas

foi o demônio que jogou o álcool
eu expliquei pros policiais

eu sou só uma tecelã, bicho.

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Mirror, error

Uma face desfigurada é o que se apresenta, sem olheiras, enigmática. Sobrancelhas por fazer, é a face da morte que encaro, dia após dia, ao olhar de soslaio o espelho do banheiro. Viro para a parede e não é mais de espelho que quero falar. Quero olhar dentro, tudo me cansa e amarra o tráfego.
Não há encanto para o indizível. Na verdade, os interlocutores se calaram. Não nasça com tudo na casa 12, sem uma casa 11 povoada de mulheres pagãs de fel e fome. Estou sozinha nesta barca. Eu só tenho dez centavos.
É o silêncio que assusta. O que está atrás de mim que não enxergo? À noite, ainda que seja de lua cheia, esconde as sombras maiores. Tenho pensado na relação entre o sol e a sombra. Ele é a maior luz que conhecemos, no entanto, projeta a maior sombra. Só vejo minha sombra apagada ao meio dia, a luz de pino na ribalta. Vida é teatro ou vida é sonho?
Uma princesa encantada, uma fera flechada, uma clichê cantora de ópera, uma mulher que nasceu Hamlet, mas só faria Ofélia. Eu sou um desastre na vida, não tenho roteiro e a mãe que me deram me ensinou a virulência da caçada.
Pacifista porque fraca. Vegetariana porque nojenta. Nasci mulher por um erro genético. Hoje eu dei de querer entender as coisas, a chuva veio e eu não pude sair. Não tenho narrativa. Nem em primeira pessoa as coisas se constroem. Só um berreiro permanente como uma maternidade em plena lua cheia. A Deusa que mora em mim é Mãe das Lágrimas, dos Tormentos. Mãe da Noite. Quanto maior a noite, maior o silêncio. Aradia, quanto maior a escuridão, maior é a força do mistério de quando se entrega às forças abissais. Sem trégua.
Se eu sentia prazer com o pecado, então só podia ser do Diabo. E foi assim que me marquei pra sempre e ninguém me cura. Corro, fujo e outra vez diante de Lúcifer. Basta me olhar no espelho, virado novamente com sua lâmina a me ferir. Problemas de imagem, astigmatismo, hipermetropia, dentes tortos, problemas de auto-imagem, querer morrer não é uma escolha sábia.
Busca de poder por meios inóspitos, uma bruxa carregando uma vassoura me escolheu. Ria de tudo. Me ensinava a morrer devagar. Ninguém percebia. Quatro dias em cima da cama, morrendo. No quinto dia, o médico disse que era falta de pau. No sexto dia, o médico receitou prozac. No sétimo dia, eu descansei de minha obra de silêncio e prisão.
Como escrever um romance só de vazios? Como não sucumbir à minha própria beleza refletida no espelho da minha mãe? Como não se perder quando ela largou minha mão a primeira vez no meio da rua e eu tive que achar o caminho de casa sozinha de novo e de novo e de novo…? Depois, na praia, me afoguei, mas o mar não quis que eu morresse. Mamãe quis. Eu queria tanto viver pra mamãe. Pra sempre, amando e protegendo e cuidando. Eu a amava. Mas ela jamais secou as minhas lágrimas.
Ninguém secou. Meu pai fugiu porque eu cresci e era complexa demais. Como Gregor Samsa, um dia eu acordei na casa dele com patas a mais do que ele queria. Uma gata só tem quatro patas, ele sussurrou. Mas eu nunca fui uma gata.
Aracne, sua doida, eu tecia meu tapete de fúria.
Já escreveu se ollhando no espelho? Eu vejo os mares salgados dos olhos do mundo e tudo se transforma quando apago as luzes e deixo de ver a mim mesma para partilhar do silêncio da chuva. Sagrado momento de fala cativa, salada mista com a natureza fria que me embala. Pranteio nas rosas vermelhas para que os amantes se separem, mas as rosas sobrevivam. Meu jardim de silêncios bem adubados com a rotina intempestiva de ônibus e trens e nunca vou viajar. Fico aqui eternamente falando sobre mares dos olhos que vejo no espelho. Tragada pela minha força de abismo, o fel da mágoa me corroendo. Quero colocar pra fora, mas não gosto de vomitar, acho nojento e eu escrevo hoje pra não ter veneno amanhã quando estiver em sociedade e tiver que falar o que estou pensando porque todos são invasivos como meus pensamentos.
Não, não tem roteiro. A beleza está nos detalhes porque os olhos de Lúcifer brilham nos meus, Marte volátil deslizando na terra como a serpente de Eva. Eu sou Eva pulando corda com um cipó no paraíso. Pauso o filme e esqueço porque fui engolida por essa escrita insossa.
Não sou Graciliano e por isso escolho os adjetivos para usar no texto a partir de critérios unicamente idiotas.
As pessoas gostam de histórias para ler em silêncio, eu gosto de histórias para ler em silêncio do entreguerras quando o eco das bombas ainda passa arrepiando como um espírito das trevas. Pareço com a minha mãe ou com o meu pai? Pareço comigo mesma. Busco respostas no fim da noite, mas antes que possa encontrá-las, o sol nasce.
Quero ser enterrada com rosas vermelhas pelo meu corpo inteiro. Quero ser lavada com rosas vermelhas. Quero rosas vermelhas por todo meu corpo. Quero agora uma rosa vermelha pra afastar os fantasmas já que não posso fumar. Rosa vermelha é meu fim e meu pecado.
Foi por uma rosa vermelha que fui perseguida e morta, enforcada com meu desânimo, um coração arrebatado pela imensa sensação de Deus e depois tragado pelo silêncio de uma instituição católica apostólica romana mas que não identifica seus santos, apenas seus invasores. Fiquei no meio, entre pecadora e santa porque era pobre. Enforcaram meu Desejo. Eu estou aqui.
Escrevo para não vomitar amanhã no colarinho dos professores. Não tem enredo. Acabou.
Alea jacta est.

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Mariana Belize, que criou e escreve no Projeto Literário Olho de Belize, é mestranda em Literatura Brasileira pelo Programa de Letras vernáculas da UFRJ. Estuda a obra de Ronaldo Lima Lins, mais especificamente o romance "As perguntas de Gauguin". Formada em Letras - Língua Portuguesa/ Literaturas - da UFRRJ – Nova Iguaçu. Escreve resenhas críticas com base nos seus estudos de Crítica e Teoria Literária com base na Estética da Recepção e estudos sobre a relação entre arte e vida.


~Maya

domingo, 14 de julho de 2019

Entre espelhos

Tive acesso ao trabalho de Rosângela Vieira Rocha ainda ano passado, com O Indizível Sentido do Amor, nos tempos que ainda não fazia resenhas. Esse ano, fui uma das pessoas de sorte que receberam o seu lançamento, Nenhum Espelho Reflete seu Rosto, para comentar.

Além da capa criada por Luiz Prates, eu já esperava que o livro seria de alta qualidade porque assim o é a literatura de Rosângela.



O livro conta a história de Helen, uma mulher de meia-idade que trabalha com joias e é abordada, logo no início do livro, por um psiquiatra que tem uma de suas pacientes sucumbindo a uma depressão causada por um relacionamento abusivo. Relacionamento esse que Helen conhece de perto, já que também se viu presa na teia narcísica do mesmo homem.

Helen reflete sobre o pedido do médico - revisitar esse relacionamento lhe é motivo de intensa dor - enquanto trabalha na sua primeira coleção autoral de joias.

Entre explicações sobre pedras, gemas, formas de lapidação e manuseio do ouro e o contato que Helen mantém com o psiquiatra, vamos conhecendo a personalidade de Ivan, um argentino sedutor que Helen conheceu em rede social.

Ivan é um predador. Ele sabe como atrair uma mulher à sua teia para dela tirar tudo o que lhe for interessante, do dinheiro à autoestima. E Helen por muito pouco não teve o mesmo destino da paciente do médico que a procurou.

Sabemos que Helen tem um final, digamos, feliz - ou no mínimo quase totalmente liberta de seu predador - porque é ela quem conta, em tempo passado, tudo o que passou nas mãos do narcisista, mas não sabemos se a mulher a quem ela se dispôs a ajudar terá o mesmo destino.

Ao iniciar a leitura, uma característica típica de Rosângela me causou certo grau de surpresa: a prosa concreta. Rosângela não se aventura no campo da poesia, e, por isso, sua prosa é totalmente desprovida de elementos poéticos, como devaneios ou hipérboles. Causou-me surpresa porque não apenas leio muita prosa poética como é também o estilo que adoto na minha prosa. 

Isso em absolutamente nada reduz a qualidade da prosa de Rosângela, é apenas uma observação estilística, até porque a autora tem a qualidade excepcional da descrição sem exageros. Ela é capaz de nos fazer visualizar suas cenas sem nos levar à exaustão dos detalhes. 

Nesse sentido é mais um ponto que o livro ganha em mérito: jamais tive acesso ao mundo da joalheria e compreendi sem dificuldade toda a narrativa em torno da criação e confecção das joias, tudo descrito de forma direta e agradável.

Para além das análises estilísticas, cabe destaca que a cada fim de e-mail ao médico, aumenta a vontade correr para o próximo. Sem dramas excessivos - aliás, sem drama algum - Rosângela nos coloca no centro do sofrimento de Helen sem, no entanto, explorar sua dor com sensacionalismo. São fatos, descritos como tal, mas nem por isso desprovidos de sentimento.

Não me surpreendeu a qualidade do livro, Rosângela é uma ótima escritora e eu já sabia disso. Mais uma maravilhosa leitura que me orgulho de trazer ao Bibliofilia.

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Nenhum espelho reflete seu rosto
Rosângela Vieira Rocha

Arribaçã: Cajazeiras, 2019
263 páginas
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Rosângela Vieira Rocha é natural de Inhapim (MG) mas reside em Brasília desde 1968. Escritora, jornalista e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UnB, é também advogada e Mestre em Comunicação Social pela USP. Autora de 12 livros entre infantis e adultos, Rosângela coleciona prêmios ao longo de sua produtiva carreira.


~Maya

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sexta-feira, 12 de julho de 2019

Desembrulhando: curadoria de julho

E cá vem mais um DESEMBRULHANDO!

(eu precisava receber mais caixas com surpresas pra ter mais desses)

Como sou assinante dos dois clubes da TAG, todo mês vai ter dois desembrulhando. Esse, portanto, é o segundo e último de julho. Dessa vez, desembrulhei o pacote da TAG Curadoria.

A caixinha do Curadoria é um pouco diferente da caixinha do Inéditos, dá um pouco mais de trabalho abrir. Refletindo agora parece até proposital pra aumentar a expectativa e a excitação de abrir as abas da caixa. Olha ela aí:


Assim como a Inéditos desse mês, por ser aniversário da TAG, os livros e mimos - que tem como proposta ser uma surpresa, foram previamente anunciados. Eu preferia que fossem surpresa, teria tido um brilho e tanto a mais, mas admito que comercialmente falando, foi muito inteligente o anúncio, já que esse mês vieram 4 livros em cada caixinha.


A imagem acima é da abertura da caixa, a primeira imagem dela.


Esse foi o conteúdo da caixinha! Como eu já sabia o que vinha, minha grande expectativa era ver a diagramação dos livros, o que é um ponto muito forte da TAG, eles sempre são muito lindos. E tcharan, vieram assim!





Pra variar o livro principal é lindo e, como já tinha sido perceptível na outra caixinha, o box de clássicos é sensacional.

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(em breve começo uma campanha "quero ser curadora da TAG" hihihihih)

~Maya

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Conhecendo Ayrton

As redes sociais têm algo que é insubstituível: ter em nossa rede de contatos gente que não conheceríamos em outras situações.

E foi em uma chamada para apresentar o trabalho de outros escritores que Ayrton Neto me procurou. Timidamente, queria saber como funcionava para divulgar seu trabalho aqui. Esse tipo de situação me deixa ansiosa, nunca se sabe o que vai vir e, ao mesmo tempo em que quero manter um certo nível de qualidade nesse blog, também não quero ser a pessoa que fecha portas.

São sonhos. Sei muito bem como é, também tenho os meus.

Então Ayrton me mandou um texto. Li com gosto e vi que Ayrton é mais um daqueles casos de gente com talento que o mundo ainda não conheceu.

Então eu mostro.

Conheçam Ayrton Neto!

27.

era algo de outra vida.

não acredito em sobrenaturalidades. não valorizo essas inutilidades. essas explicações simplórias e as juras de certezas que ignóbeis arremessam ao vento. não comprimo meus sentimentos com astrologia, rivotril ou Jesus Cristo. eu acredito em mim, não no mundo e o que traz. mas era algo de outra vida.

tudo começou com meu cigarro escapando pra tua boca.

segurei teu braço, te dei abrigo e trocamos goles do que bebíamos. eu ouvia sua voz, eu juro, mas não a entendia. sou essencialmente tímido, mas te olhei e fiquei encarando. linda, era. com meu casaco, mais. vivíamos o desembaraço de uma mesa de bar, mas continuava sem entender nada. tive acesso aos teus sorrisos de boca fechada, mas não ao som de tua voz. estava furioso por isso, confesso. acendia um cigarro no outro. pouco ligava para as cinzas que manchavam minha calça preta. sei que balbuciava algumas palavras em troca das tuas, mas não as alcançava. queria entender. queria te ouvir. queria saber mais sobre quem não sei direito ainda quem é.

lembro que segurava um copo maior que o meu e que me entregou um livro. quis agradecer com um beijo no rosto, mas não pude. em um último gole do meu trago, encontrei sanidade o suficiente para ler em teus lábios sobre a importância do número vinte e sete. após isso, muni-me de amor e me despedi. nada mais me faltava nessa vida. decidi acreditar e esperar por ti nas próximas.

desde então, em cada copo que bebo e cigarro que acendo, sinto um pouco de ti.

_______________________

Ayrton Neto está há 24 anos à procura de divergência, por acreditar que a simetria seja politicamente correta demais.



~Maya

terça-feira, 9 de julho de 2019

Desembrulhando: para aquecer o coração

Sou aquela pessoa que junta moedas o ano todo pra renovar minha assinatura no clube de livros. A partir desse post, começarei a "desembrulhar" as caixinhas da TAG conforme elas vão chegando. Sei que essa prática de mostrar a abertura de pacote tem um nome específico em inglês, mas correndo o risco de errar a digitação, preferi colocar em português mesmo.

Vamos aos fatos: hoje chegou a caixinha da TAG Inéditos, que sou assinante desde que foi criada.


A-DO-RO quando as caixinhas chegam e abro beeeeem devagar pra me deliciar com a sensação. Pessoalmente acho a caixa (de papelão) do inéditos mais prática que a curadoria. Então, passei a tesoura na fita e voilà.


Uma das coisas mais emocionantes da TAG é que não só os livros são uma surpresa como o brinde que vem junto também é. Mas esse mês, aniversário da TAG, eles divulgaram que o mimo seria um box com três clássicos, por isso tive uma grande surpresa quando abri a caixa e dei de cara com o quadrinho e as frases. Inclusive foi o primeiro mimo da TAG inéditos e eu amei, pendurei na parede, então receber o segundo quadrinho me deixou super feliz.

De cara, achei que o quadrinho era um mimo pelo meu aniversário, que é no final do mês e já recebi surpresas de aniversário da TAG antes. E então puxei a cartinha que veio junto. Bom, me levou às lágrimas. Vou colar aqui o que escrevi no meu perfil de Facebook:
"Ano passado entrei em depressão e, por causa disso, perdi o emprego. Consegui requerer auxílio doença devido à gravidade. O auxílio era pouco porque era a média dos salários anteriores e eu ganhava um pouco mais que o mínimo. No começo desse ano, um dia depois de renovar a assinatura da TAG - Experiências Literárias inéditos, o governo cortou todos os benefícios e meus laudos de dois psiquiatras e um psicólogo foram ignorados. Era pouco mas era tudo o que eu tinha, e eu ainda estava doente. Entrei em pânico, fiz contato com a TAG pra cancelar a assinatura, acabei transformando nossa troca de e-mails em uma terapia. Eles foram compreensivos e iam cancelar sem me dar dor de cabeça, mas eu desisti. Literatura é o que me mantém viva, eu não podia abrir mão de uma das poucas coisas que eu enxergava de bom na vida enquanto ainda estava na fase aguda da doença. 
Mantive a assinatura. E hoje eles me fizeram chorar de emoção. É mais do que amor pelos livros, é vida."



Depois de me recuperar da emoção, fui explorar o box, dá uma olhada:



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Valeu pessoal!

~Maya

domingo, 7 de julho de 2019

Bicharada

Intercâmbios entre autores é uma prática super comum, e foi numa dessas que Manoel Herzog me presenteou com sua obra Os Bichos. De imediato tive uma boa impressão, já que os capítulos são divididos entre os reis da França e os capítulos se iniciam todos com o depoimento de um animal. Sim, um animal, cujo ciclo se encaixa com perfeição começando pelo urubu e terminando pelo homem.

A história começa pela morte - o que, para quem conhece meu trabalho, combina lindamente comigo - não só pelo primeiro animal ser o urubu, animal que come carniça, o resto apodrecido do corpo morto alheio, mas porque somos apresentados ao protagonista Luís Theófilo em um velório.



Luís Theófilo que amava Agda, que era filha de Lira, inimigo do pai de Theófilo. Agda o amava de volta, mas por conveniência política casou com o filho do prefeito. E tudo começou porque Theófilo não queria se envolver com política, moralista que era.

A ironia fina que se desenha na obra é fascinante: Theófilo, moralista, mantém o relacionamento extraconjugal com Agda e acaba se entregando aos braços sujos da corrupção política usando sua influência como advogado.

Os bichos, todos eles, têm alguma ligação com Theófilo, e a maioria deles sucumbe nas mãos de Francinaldo, que trabalha para Theófilo na fazenda. Embora a história de Theo, como é chamado pelo seu cachorro Hector, seja muito boa, as histórias dos bichos e sua morte relatada por eles mesmos (nem todos morrem em seu próprio relato, importante destacar) dão um brilho extra à obra.

Embora todas as histórias dos bichos sejam excelentes, não posso deixar de destacar a história do robalo, o peixe que acredita que os camarões artificiais são praticamente dádivas divinas e descreve sua pesca - sem saber o real significado dela - como o próprio arrebatamento cristão; e a história da abelha, que está em julgamento por ter iniciado uma verdadeira revolução na colmeia depois de experimentar do manjar dos deuses que deveria ser exclusivo da rainha. No relato da abelha temos uma amostra grátis de como nossa própria sociedade funciona.

Aliás, o próprio Theófilo nos traz de tanto em tanto um comparativo/reflexo da nossa sociedade, a mesma sociedade que vivemos há séculos, tornando impossível que os comparativos feitos por Herzog em seu livro um dia se vejam datados.

No meio dessa loucura toda ainda estão os arcanos e os reis da França, eventualmente todos explicados pelo personagem Luís de Lira, pai de Agda. Um sujeito que não sabemos definir o caráter em momento algum do livro - mais condizente com a realidade política.

Fiquei um tempo refletindo como resenhar um livro com tantas nuances diferentes e confesso que não me dou por satisfeita. Falta de experiência como resenhista, certamente. Independente de qualquer coisa, é mais fácil dizer ao leitor: "leia que vale a pena" do que tentar desfazer esse nó. Creio, honestamente, que além do prazer de ler um livro dessa natureza, ainda vou acordar, dentro de alguns meses, com uma epifania sobre ele.

Sim, é o tipo de livro que fica armazenado na cabeça para nos dar um susto tempos depois com uma grande revelação que ultrapassa suas páginas.

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Os Bichos
Manoel Herzog

Realejo: Santos, 2012
141 páginas

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Manoel Herzog nasceu em Santos, em 1964 e iniciou na literatura em 1987 com Brincadeira Surrealista, poemas. Em 2012 publicou Os Bichos, romance, pela Editora Realejo. Em 2013, Companhia Brasileira de Alquimia, romance, pela Editora Patuá. Em 2014, também pela Editora Patuá, o pornoépico A Comédia de Alissia Bloom, terceiro lugar no prêmio Jabuti 2015. Em 2015 lançou O Evangelista, romance. Em 2016 foi a vez de Sonetos de Amor em Branco e Preto, poemas, com apoio do Proac. Ainda em 2016 lançou Dec (ad) Ência, romance, pela Patuá, em 2017 A Jaca do Cemitério é Mais Doce, pela Alfaguara e em 2019 Boa Noite, Amazona, também pela Alfaguara.



~Maya

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