segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Musicalidade concreta

Este blog, sempre tão movimentado, viveu seus dias de silêncio. Mas o motivo foi nobre: passei alguns dias sem acesso ao meu computador por causa da pilha de livros que se acumulou sobre minha escrivaninha enquanto meu tempo na Feira do Livro local me impedia de organizar a biblioteca. A coisa por aqui ainda não está 100%, mas o bastante para retomar nosso espaço literário.

Nesse período ausente, a leitura foi do livro "Um sol para cada montanha", uma coletânea poética de Andri Carvão, um querido amigo que conheci ainda ano passado e tive a honra de contar com sua presença no lançamento do meu último livro, em São Paulo. Na reportagem que fiz para este blog na ocasião de minha formatura em jornalismo, Andri, como um dos entrevistados entre os poetas com publicação independente, comentou que a escolha do modelo não foi bem uma escolha, mas uma falta de alternativa, já que não tinha conseguido uma editora para a publicação do seu primeiro livro.

Atualmente, Andri já está em processo de edição de outras obras com contratos assinados. Não conheço o conteúdo das obras em questão, mas depois da leitura de "Um sol para cada montanha", ficou claro pra mim o motivo das dificuldades de Andri em publicar essa obra específica: o movimento ao qual boa parte de seus poemas pertencem.



Andri, uma mistura de poeta com artista plástico, nos apresenta a mais pura poesia concreta. Uma poesia visual que mistura elementos diversos, formas, rimas e repetições de palavras, versos que, a um olhar rápido parecem idênticos mas não o são. 

A poesia concreta foi um movimento de vanguarda, com um caráter experimental, que colocou o universo literário de pernas pro ar com a quebra do poema lírico com o uso de uma linguagem visual. Seu grande marco no Brasil foi a partir da década de 1950, como herança dos modernistas, em especial do trabalho de Oswald de Andrade. Embora o movimento tenha deixado nomes de peso como herdeiros do estilo, não é uma poesia de fácil leitura ou fácil aceitação comercial, daí a dificuldade de publicação para um autor desconhecido.

A forma como Andri trabalhou seus versos na obra, e em especial na segunda parte que é integralmente de poesia visual é uma herança direta do legado da Semana de Arte Moderna de 1922, demonstrando que mesmo que o poeta tenha abandonado as artes visuais para abraçar a literatura, as artes visuais abraçaram sua literatura junto.

Me chamou a atenção, entretanto, o texto introdutório do livro, onde Andri conta um pouco de como surgiu a obra, deixando claro pra mim que o autor tem jeito pra uma prosa poética de qualidade. Relata uma adolescência problemática e o quanto esse livro é fruto justamente desse enfrentamento de uma realidade delicada. Talvez exatamente por isso alguns poemas tenham esses ares mais imaturos, talvez um tanto viscerais de quem está usando o papel e a caneta como arma de sobrevivência. A imaturidade aqui não é um demérito; nada que contribua com uma jornada comprometida com o crescimento é demérito.

Seus problemas trazidos à tona em versos começam a se tornar evidentes no poema "autorretrato com cara de paisagem", onde Andri demonstra claramente problemas de autoimagem, "O espelho é o oposto / do meu rosto". 

A partir do poema "duas quadras", percebi uma tendência que permaneceria durante toda a terceira parte do livro, composta de versos mais densos, poesias mais longas e, digamos, revoltas: existe uma musicalidade latente em seus poemas. Consigo imaginar facilmente uma banda de rock adaptando vários de seus poemas para os ritmos típicos dos anos 80 com refrões que grudam e rimas que repetimos 30 anos depois.

Além do aspecto concretista/visual e da musicalidade de seus poemas, também percebi que Andri conta histórias em alguns de seus poemas, que poderiam ser facilmente transformados em prosa. Como o texto introdutório demonstrou sua capacidade para a prosa, fico curiosa de ver como Andri adaptaria essas mesmas poesias em contos. Algo me diz que ficariam muito bons.

A partir daí tivemos características bastante pontuais no trabalho de Andri que merecem destaque. O poema "funerária & pintura" por exemplo compara de forma magistral grandes obras de pintura dos maiores nomes das artes de todos os tempos com poesia. Comparar não seria o termo ideal, mas perseguir, como Andri diz, em outras palavras. Todas as artes buscam a poesia, de uma forma ou de outra, formalmente ou não. Vejo sentido nisso.

Certamente esse poema poderia render uma discussão de horas com aqueles que acham que não gostam de poesia porque poesia é o gênero mais incompreendido das artes, o mais complexo de se julgar, o que mais depende de mil aspectos pessoais do leitor para conquista-lo. E apesar disso, o mais presente em todas as manifestações.

De forma pontual, meu poema favorito é disparado o poema "réquiem", o qual deixo a vocês na voz da poeta Mell Renault e produção de Carlos Figueiredo, da Cine Book:



Em termos gerais, a obra de Andri reflete com força a influência das artes visuais e concretas que ele traz de sua formação, trabalhando muito o jogo de palavras pela sua sonoridade ou forma, buscando um conjunto cuja harmonia nem sempre é o foco, como quando busca demonstrar sua revolta com problemas sociais através de poemas que incomodam, que causam desconforto em seus trocadilhos propositalmente trabalhados pra trazer mal-estar.

É uma obra de formação, de um poeta inconformado, de um artista que enxerga e transporta poesia para a forma, que transforma letra em desenho e desenho em palavra.
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Um sol para cada montanha
Andri Carvão

Chiado. São Paulo, 2018.
193 páginas
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Andri Carvão cursou Artes Plásticas na Escola de Arte Fego Camargo, em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA - Escola Panamericana de Arte (SP). Participou de diversas antologias, revistas e saraus literários e atualmente é graduando em Letras pela USP.

~Maya


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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Alucinógeno

Acompanhei com alegria o nascimento da editora Caos & Letras e o lançamento, mesmo à distância, do livro de contos "Estados Alucinatórios", de Eduardo Sabino. Já de imediato a capa inusitada me chamou a atenção. Com o livro na mão também observei a qualidade de todo o projeto gráfico, porque sim, isso conta. Quando se trata de uma editora tradicional, com história de mercado, um livro bem diagramado e bem impresso é o mínimo que se espera; de uma editora nova é quase um atestado de "ok, estamos prontos para publicar". É nitidamente o caso da Caos & Letras.


Embora o título e a capa já nos avisem que será um encontro com histórias com um pé no universo fantástico, nem se tivesse um texto introdutório explicando a proposta do livro chegaríamos nele realmente preparados para as surpresas que Eduardo nos preparou. Nem sempre uma narrativa contém algum significado escondido, uma metáfora, uma lição, uma mensagem edificante em suas entrelinhas, as vezes uma narrativa é apenas uma história a ser degustada, e não posso afirmar qual dos casos se enquadra nas histórias que Eduardo nos conta em Estados Alucinatórios, mas o fato é que encontrei muita coisa em histórias que misturam realismo e fantasia (ou absurdo) em narrativas incrivelmente bem desenvolvidas.

O livro começa já com uma história inusitada: Samuel é um jovem que conviveu quase a vida toda com um demônio no corpo. Longe de ser uma história de terror, é uma história com toques cômicos e repleta de metáforas. Achei simplista concluir que poderia se tratar de um amigo imaginário ou até mesmo reduzir a narrativa a uma mensagem sobre os "demônios interiores", embora isso se faça presente quando o demônio que habita Samuel influencia seu comportamento o suficiente para prejudicar alguns aspectos da sua vida.

Mas o demônio, de certa forma, também representa consciência, como uma companhia, a voz da razão e da perdição em um único ser acompanhando um garoto até então solitário. De tão solitário, o rapaz se torna amigo de seu demônio, provocando um desfecho tão hilário quanto triste, dependendo o ponto de vista.

Já de imediato, o primeiro conto me chamou a atenção exatamente pela já mencionada qualidade narrativa. Eduardo não se utiliza de recursos poéticos, que geralmente trazem elementos mais dramáticos e que, pessoalmente, me agradam muito, nem explora de forma escancarada o escracho, o cômico. É a ironia fina, de entrelinha, que conduz suas narrativas. E não somente do primeiro conto, mas praticamente do livro inteiro, fazendo com que as histórias trabalhem tanto o drama quanto o humor sem explorar recursos de forma forçada. É tudo muito natural.

Isso grita ainda mais ao olhos quando conhecemos o homem que adotou um crocodilo. Junior, o crocodilo, é, como qualquer outro crocodilo, um predador. Mas é um predador tal qual o homem, e, por isso, embora homem e crocodilo estejam distantes em formas físicas - o crocodilo vive em um aquário - se aproximam enquanto predadores. Mas não só isso, o narrador, "pai" de Junior, o ensina a falar e o presenteia com uma televisão, trazendo, em uma história que parece sem cabimento - um homem tratando como filho um crocodilo que fala, um debate atual: manipulação midiática.

Dias e dias exposto à influência da mídia, da televisão ligada o dia todo como sua única diversão fazem com que Junior, o "filho", deseje "caçar" um comunista. E aí o narrador se vale de todo tipo de estereótipo para atender os desejos do "filho" - ironizando a ideia de um "pai de pet", afinal, nesse caso, ele efetivamente educa, cria e alimenta o animal. O fato de o pai planejar a caçada para atender ao desejo selvagem do crocodilo de devorar um comunista devido ao ódio do animal criado pela influência da mídia mostram o quanto a selvageria de ambos não está muito distante.

De todo o livro, entretanto, meu conto favorito é "Blattaria". A verdade é que gostei do livro todo, teve um ou dois contos que não me impressionaram tanto quanto os outros embora não tenha deixado de gostar por isso, mas "Blattaria" me arrebatou. Além da narrativa fascinante que prende a atenção do início ao fim, de uma história extremamente bem contada, o final do conto não apenas me levou aos prantos como me obrigou a largar o livro por alguns minutos e ficar olhando pras paredes até assimilar o que tinha acabado de ler.

Por óbvio não vou contar o final do conto, mas a história relata a rotina insana de uma família de quatro pessoas, sendo pai, mãe e duas crianças - a mais velha é a narradora - residindo em uma casa muito antiga que sofre com a infestação de baratas. A narradora estuda as baratas, descobre as espécies e ela, o irmão pequeno e a mãe, entram em uma guerra com os insetos que é interrompida pelo pai, que inicia uma estranha relação de afeição pelos bichos.

Inusitado, sem dúvida. Muito bem escrito, como os demais. Justamente por se tratar de um livro de mexe com o fantástico, que traz o improvável para a realidade palpável, li o conto tentando adivinhar o que poderia acontecer com essa família. Se tornaria o pai um rei das baratas? Seria "Blattaria" uma releitura contemporânea de "A Metamorfose", de Kafka? Tudo era possível, e nada me preparou para o verdadeiro desfecho. Aplausos a Eduardo, que certamente previu que o leitor esperaria um final apoteótico e nos estapeou as fuças de forma extremamente competente. "Blatteria" entra para minha lista de contos favoritos, não do livro, da vida.

Mas claro que não para por aí, estamos só na página 73 de um livro de 200 páginas. O conto seguinte, "Um sonho chinês", não ficou pra trás no quesito qualidade narrativa. O grande destaque nesse conto - e que merece menção honrosa no meu ranking de melhores contos - é a criatividade do autor. Na história, o narrador sofre com algum distúrbio que o impede de se manter acordado muito tempo. Enquanto dorme, ele passa a viver a vida de outra pessoa, um rapaz chinês. A coisa é tão doida, tão inesperada, que eu fiquei mais tempo imaginando o que se passou na cabeça do autor enquanto escrevia esse conto do que efetivamente navegando por ele.

Já em "Pessoa Física", retomamos as metáforas explorando o mundo consumista onde literalmente as marcas fazem a festa enquanto o homem vive de pagar as contas. O que mais fascina nesse conto é a literalidade da metáfora, acho que nunca tinha visto uma metáfora ser usada de forma tão literal - capacidade de exploração do universo fantástico definitivamente é um mérito incontestável de Eduardo.

O mesmo acontece em "Ofertório". A narração aplicada nesse conto é uma ferramenta poderosa no efeito que ele causa no leitor, já que o narrador responde a terceiros mas não temos as vozes desses terceiros. Os motivos também fazem parte do próprio tema do conto: os terceiros são os pecadores que serão sacrificados em purificação de seus pecados através da encenação de famosas passagens bíblicas. Como pecadores, embora o narrador interaja com eles, eles não têm voz. O "não ter voz" não é literal dentro do conto, já que o narrador os escuta, mas o autor priva o leitor de escuta-los, garantindo que sua voz não seja ouvida e essa ideia da ausência de seus direitos por serem "inimigos" do poder vigente fique evidente. Estratégia brilhante. E claro, conto chocante, explorando a hipocrisia de um fanatismo altamente letal.

O último conto que vou tecer comentários aqui, até para que vocês também possam descobrir os demais por conta própria é o único que foge 100% da realidade, já que narra a história de uma família de porcos. Da realidade palpável, mas não metafórica, já que os porcos, no conto, tomaram o lugar dos homens, considerados uma raça inferior e extinta. De imediato me remeteu à Revolução dos Bichos, de George Orwell, embora não tenha muita relação direta uma história com a outra. Entretanto, o simbolismo que se usa do animal porco me faz crer que a escolha deste para a família do conto de Eduardo não tenha sido em vão (e triste, porque porcos mesmo são animais dóceis).

Já nas primeiras linhas do conto, ficou claro que o conto, onde um dos leitões começa a demonstrar trejeitos humanos, o que é visto como uma aberração pela sociedade porca, é na verdade uma metáfora com a homossexualidade. Até mesmo a forma depreciativa com que o pai porco descreve a sensibilidade de seu filho é semelhante ao que vemos homofóbicos falando de homossexuais. O autor ainda escolhe o termo "homossapientes" para descrever os porcos humanizados. Ok, sabemos que o termo se refere à espécie humana, homo sapiens, mas a escolha foi providencial para uma associação mais direta.

As grandes marcas de Estados Alucinatórios são, sem dúvida, a capacidade narrativa e a criatividade do autor. Começamos cada conto sem fazer ideia de pra onde ele vai nos conduzir, ou de onde ele tirou uma ideia dessas, e somos levados por toda a história de forma suave, quase sem perceber. Apelidei esse tipo de narrativa de "leitura escorregadia"; não há pedras no caminho, a leitura flui e, quando você menos espera, chega ao desfecho. Um livro fascinante tanto por histórias divertidas quanto por metáforas muito bem construídas, narradores fortes, situações inusitadas e reflexões. E alucinações, porque essa também é a ideia.
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Estados Alucinatórios
Eduardo Sabino

Caos & Letras: Nova Lima, 2019
200 páginas
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Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, Minas Gerais, em 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre Amigos (Patuá, 2016) e Ideias Noturnas sobre a Grandeza dos Dias (Novo Século, 2009) e recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto "Sombras".

~Maya


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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Lirismo

Ontem era dia de resenha, mas a correria dos últimos dias impediu a finalização da leitura e me forçou a uma quebra dos meus prazos auto-estipulados e cobrados por absolutamente ninguém. Mesmo assim me vejo corroer em culpa pela quebra de um ciclo que vinha funcionando com perfeição nos últimos três meses.

Cansada, doente, preocupada com o público do blog, abri os e-mails onde recebo material dos autores que querem figurar nesse espaço e fui ao material de Rafael Mendes. Não era dia de publicação de autores, mas ontem era dia de resenha e não deu, fazer o que?

Nessas horas é que o destino gosta de nos dar boas surpresas, penso eu, porque abri o material do Rafael e me deparei com versos que me abraçaram a alma. Uma mistura fascinante de doçura e revolta, desde escancarar a cafonice de uma rima pobre a preferir a rima pobre à necessidade da denúncia sobre a realidade em que vivemos.

Rafael tem um toque visceral em sua suavidade que muito me agrada. Foi um presente, para um dia como hoje, selecionar poemas de Rafael para esse espaço.


amor & dor

quantas vezes já se rimou amor e dor? a rima,
ainda que pobre de criatividade, enquanto afirmação,
ergue questionamento ou dúvida? desde a juventude
a humanidade debate a aspereza do amor.
tornou-se mais calmo como o lusco-fusco no verão,
ou ainda resultou inútil, carrega o mundo nas costas?
ainda existe amor, dor, pernas cansadas,
desvario da perda. ainda capazes de amar,
num tempo que exala ódio e barbárie.
existem heróis ou somos todos párias da passividade
diante da revolta e do amor — é tempo de silêncio.
haja amor, haja ação, a despeito do banquete
tosco cuspido das urnas, das fezes. antes rimar
amor e dor que vibrar diante da morte do irmão,
antes um rima gasta que cálice de sangue e cortes.
o amor, rio ganges maculado — ainda sagrado.
não cantaremos o medo, cabem ainda notas de amor.
_____________________________

quarenta e nove

i
teus olhos verdes, meu pai
marcados por desesperança
e resignação dos fortes

diversos solavancos da vida
passaram primeiro por teus
olhos verdes, meu pai

haveria de ser verde
o filtro de tua esperança

ii

não nasci com pepitas de turmalina
penduradas nas cavidades de minha face

aprendi, ao olhar teus olhos, que o verde
transmuta entre a vida e a morte
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a sauna

pior do que a ausência do amor, a memória do amor - lygia fagundes telles

nem uma vez mostrou-me seus olhos de desejo adormecido,
nas suas costas não descansei meus lábios, não anotei o compasso de
suas falanges, seu umbigo não escondeu meus presságios de morte

quando apareceu como sonho, devaneio e embriaguez,
não foi nada mais que um pequeno aviso na parede opaca,
"o quadro está em restauração, desculpe-nos pelo transtorno";,
o espaço quase todo preenchido por obras de van gogh, tarsila, basquiat,
e meu olhar fixo e perdido na ausência de sua materialidade

me desfiz dos diários com nossos planos, das gravuras onde talhei nossos pecados,
dos jasmins que plantou no parapeito da alcova, dos temperos trazidos da índia
e do amazonas, livrei-me até do busto de santo antônio

os médicos todos exconjuraram os requerimentos escritos sob
a regência de uma febre lancinante — pedia o brilho opaco da amnésia, o desvario
libertador dos loucos. embarquei em barafundas propositais e inadvertidas,
vesti-me de quixote, viajei até as ilhas de crusoe, sorvi o caldo espesso
das vísceras de macunaíma, naufraguei naus de colombo

sempre a lembrança cintilante de nosso amor, que bem pode ter sido
alucinação e cansaço da quarta-feira de cinzas
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Rafael Mendes foi criado entre São Paulo e Franco da Rocha, entre a cidade e o quase interior. Reside em Dublin desde 2016. em 2018 veio sua primeira coletânea “um ensaio sobre o belo e o caos”, lançado na Europa pela editora urutau. Em outubro de 2019, terá poemas publicados na antologia “writing home: the new irish poets”, pela Dedalus Press na Irlanda. Seus poemas já foram publicados pela revista Ruído Manifesto, Revista Gueto, Literatura & Fechadura, entre outras além de rádios e saraus na irlanda.

~Maya

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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Aplausos

Assim como tantos, Moisés Spiguel se jogou na literatura depois da aposentadoria. Não só na literatura, mas nas artes como um todo, abrindo um grupo de teatro, experiência que certamente inspirou o conto enviado por ele para estrelar o post de hoje do Bibliofilia.

Embora tenha me contado que já publicou um livro com contos de humor, o texto enviado é inédito, exclusivo para os leitores do Bibliofilia, e, embora não seja de humor nem explore um tema que inspire graça, é possível perceber seu sarcasmo e inclinação para a comédia.

Fiquem agora com o conto inédito de Moisés Spiguel!

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA.

Desta vez, quando voltou, Vanderlei não parecia disposto para conversa. Mas Luis insistia. Trancados naquele cubículo minúsculo e úmido, o silêncio era pesado e opressor.
— Como é que foi hoje? Está muito machucado? Você está bem? Você falou alguma coisa?
Luis parecia mais interessado em distrair do que interpelar.
Vanderlei suspirou. Limpou com a manga o sangue que escorria da boca.
— Estou bem. Não estou com vontade de conversar. Não falei quase nada lá.
Luis pareceu surpreso.
— Puta que o pariu! Como não falou quase nada?! Quer dizer que alguma coisa você falou! Não me diga que entregou alguém!
Vanderlei permaneceu em silêncio por algum tempo. Depois, não se conteve.
— Pra você é fácil, não é? Não te levam pra lá todo dia como levam a mim!
Luis disparou.
— Eles sabem que nunca peguei em armas como você, porra! Sempre fui um simples simpatizante. Já investigaram e sabem que eu nunca tive contato com grupos armados. Me mantém aqui, não sei por que.
Vanderlei continuava abalado, mas ainda se dispôs a responder.
— É. Lembro quando você foi levado para interrogatório. Foi uma única vez. E não me pareceu nada mal quando voltou.
Luis aparentou estar ofendido
— O que você está insinuando?
Vanderlei não estava disposto a discutir.
— Nada. Só comentei. Mas porque você se interessa tanto se entreguei, ou não, alguém?
Quase sem forças, silenciou e fechou os olhos. Luis pensou que tivesse adormecido. Mas Vanderlei continuou.
— Usei o truque de sempre. Só dei nomes dos que já foram mortos pela repressão, e de outros já conhecidos pela polícia, e que sei que estão foragidos. Mas parece que já manjaram a coisa. Pararam por hoje.
— Pararam por quê? Ainda é cedo. Me parece que é pouco mais do meio-dia — estranhou Luis.
O olhar de Vanderlei ao seu companheiro de cela demonstrava quão pouco confiava nele. Mas era visível que em seu estado físico e mental, só queria ser deixado em paz para poder talvez dormir um pouco. A única maneira era responder as perguntas o mais rápido possível.
— Houve certo atrito entre o coronel e o dono da empreiteira que estava assistindo. Eu tinha desmaiado, mas logo acordei com o barulho das vozes, sem que percebessem. Estavam discutindo. Escutei o empresário dizendo: “Não pode interromper agora! Mais um pouco e ele despejaria tudo!”. O coronel tentava justificar: “Não posso deixar de ir à formatura da minha filha. Haverá entrega de canudos, discursos e um baile de gala. Se eu faltar, ela nunca me perdoará”. O empresário não se conformava: “Olha! A gente não sustenta essa merda para que vocês deixem o trabalho pra ir a festas! Alguns membros de minha diretoria já estão começando a questionar nosso envolvimento com vocês e as despesas que estão sempre aumentando”.
Perceberam então que eu tinha acordado e o coronel mandou que me levassem de volta pra cá.

Na sala de interrogatórios, a discussão continuava. O empresário não se conformava.
— Além disso, ainda é cedo. Essas cerimônias não são sempre à noite?
O coronel continuava a argumentar.
— Sim, mas eu tenho que passar no cabeleireiro para apanhar minha mulher, ir pra casa, tomar banho para limpar toda esta sujeira, fazer a barba, me vestir. Olha, doutor, prometo que amanhã começo a sessão bem cedo, e até o fim da tarde arranco tudo daquele filho da puta. Só sai daqui, morto!
O empresário já estava se acalmando. Durante o interrogatório, era visível que estava sob o efeito da adrenalina provocada pela visão das torturas e pelos gritos do prisioneiro. Nunca perdia essas sessões. Isso o deixava visivelmente mais excitado do que uma transa. Mas agora, sua fisionomia demonstrava que a sensação já estava se dissipando, e pôde se deixar convencer. Seus olhos ainda guardavam certo brilho pela promessa de um espetáculo talvez ainda mais excitante no dia seguinte. 
Resolveu acabar logo com aquilo.
— Está bem. Vou embora. Até amanhã. Amanhã venho bem cedo, viu?
O coronel suspirou aliviado.
— Até amanhã, doutor. Amanhã será outro dia.

Na cela, Vanderlei comentou.
— Pode ser que desistiram e concluíram que eu não tenho mais informações pra dar.  O coronel me pareceu propenso a desistir. Vamos ver amanhã. Quem sabe me soltem.
Luis finalmente deixou o colega descansar.
— Ta bom. Vai, dorme. Amanhã será outro dia.
Ainda puderam ouvir gritos e gemidos vindos do outro lado da parede. Já estavam acostumados.
Vanderlei, quase dormindo, conseguiu balbuciar.
— Sim. Amanhã será outro dia.

A cortina fechou. Quando voltou a abrir, palmas soaram na platéia. Os atores agradeceram, as palmas foram esvaecendo até que pararam. O público se dispersou devagar. Alguns haviam esperado um entretenimento agradável, uma comédia romântica. Outros, mistério e suspense.  Mas os rostos não aparentavam terem sido atendidos em suas expectativas. Um senhor idoso, postura ereta, com aparência de militar reformado, comentou para seu companheiro mais jovem: “Isso é coisa de comunista. Nunca houve nada disso”. Havia expressões sombrias, olhares perdidos e testas franzidas. Não pareciam ter seus espíritos elevados artisticamente, nem suas mentes enriquecidas culturalmente. Os mais jovens não se sentiam identificados com os personagens. Pareciam duvidar que algo assim pudesse ter acontecido há poucas décadas no país. Alguns dos mais velhos tentavam não pensar no passado tenebroso. Todos pareciam perturbados. Porém sabiam que algumas boas horas de sono faria com que as lembranças do que viram no palco esmorecessem. Diziam a si mesmo: “Amanhã será outro dia”.
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Nas palavras de Moisés Spiguel: Sou engenheiro civil. Fui diretor de multinacionais.  Ao me aposentar passei a participar de diversas atividades. Fui colunista durante dois anos de um portal que já fechou e montei um grupo teatral ‘Atualidade’ no qual escrevo o texto, dirijo e também atuo. Uma das peças apresentadas, ‘Noite Feliz’, foi gravada e está no YouTube

Passei a apresentar uma série de tiras de HQ no Facebook que retrata uma família de corujas.

Em 24 de julho do presente ano lancei na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo meu livro ‘Nosso homem da CIA’, à venda em diversas livrarias, contendo trinta contos na linha do humor. Atualmente comecei a escrever um novo livro.

~Maya
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A cor dessa cidade

Vivo em uma bolha onde cada vez mais poetas tiram seu trabalho da gaveta e jogam ao mundo. Vejo diariamente livros de poesia sendo publicados em pequenas e corajosas editoras, algumas sobrevivendo de atividades paralelas, outras da verba do próprio autor, que cobre os custos da publicação de seu livro. Dentro dessa bolha onde eu vivo, o consumo da poesia vem aumentando e enchendo os poetas de esperança, mas sabemos que do lado de fora a coisa é um pouco menos conto de fadas.

Tudo se resume a uma frase que ouvi de uma editora ao tentar publicar meu primeiro livro de poesias, aos 14 anos: "poesia não vende". Não parei de escrever poemas e hoje tenho dois livros do gênero publicados, mas me chamou a atenção para uma coisa: poesia até vende, mas muitas vezes o que vende na livraria é o autor com nome famoso, que a pessoa compra pra fazer bonito e não necessariamente vai ler. Na reportagem que fiz sobre esse panorama da poesia brasileira contemporânea, em que entrevistei alguns dos editores que mais investem em poesia, a informação que surgiu é que fora do grande circuito comercial, das redes de livrarias e afins, o que vende é poesia de gente que construiu um bom público por meio de participação de eventos, premiações, saraus e afins.

Qualquer das alternativas exclui poetas fora do eixo central do país - onde a maioria dos eventos acontece - e que não possuem condições financeiras para se fazer presente. A soma dos dois fatores - nomes consagrados e gente que consegue se fazer presente pra ser visto - faz com que um número gigantesco de ótimos poetas amarguem uma vida artística de invisibilidade.

Na contramão de todo esse pessimismo, um jovem poeta, que atua como dentista para sobreviver, provindo do sertão nordestino, filho de uma cidade com 17 mil habitantes e que produziu um livro em homenagem à sua cidade de forma totalmente independente foi à São Paulo, em 2018, entrar pra história. Maílson Furtado foi o primeiro autor independente da história a ganhar o Jabuti de Livro do Ano. Não só nisso fez história, mas também não é nada comum que um poeta leve esse prêmio para casa.



Do interior do Nordeste, diretamente do sertão, para o mundo. Maílson, independente de qualquer análise (que vai acontecer abaixo) já se tornou um nome a ser lembrado, pela independência de sua produção, pelo gênero literário e, principalmente, por estar fora dos dois circuitos que mais garantem vendas e premiações.

Quanto ao livro em si, porque isso era pra ser uma resenha e não uma reportagem (se fosse uma reportagem, eu estaria com um timing de quase um ano de atraso), a primeira coisa que me chamou a atenção foi a cor.

Nunca estive no sertão nordestino. Aliás, nunca estive no Nordeste, mas fora a imagem turística das belas praias e todo o estereótipo tanto negativo quanto positivo que chega aqui no sul, sempre que penso em uma cor para o interior da região, é justamente o marrom terra. O livro de Maílson e todo dessa cor, das ilustrações às palavras. É como ter, de algum jeito, um pouco do sertão nas mãos. E não deixa de ser, já que a poesia longa apresentava no livro tem exatamente esse objetivo.

Ler a terra do sertão. Temos em mãos um livro recheado de metáforas, jogos de palavras, brincadeiras fonéticas gramaticais. Uma terra composta de figuras de linguagem. E de estreia, o começo do livro se abre em musicalidade.

Não há regras na poética de Maílson. Cada pedaço de sua poesia é como manda sua vontade, sua imaginação e a terra de Varjota, a cidade homenageada por Maílson que, ironicamente, nem livraria tem. Logo em seguida, como um organismo vivo feito de pedras e terras, as ruas da cidade são convertidas em veias por onde o fluxo da vida humana passa.

Na página 10, o poeta mistura o vivo e o não-vivo como uma coisa só. Tudo o que é vivo passa, em uma tarde da rotina comum da cidade. Menos as casas. As casas permanecem paradas mesmo que o poeta as dê vida enquanto cochilam, despertam ou dormem. E dormem em pedaços, onde as luzes se apagam, a casa adormece. Maílson humaniza a casa, como se o apagar do poste, na chegada do amanhecer, fosse seu despertador, o sinal que a casa recebe da cidade para acordar.

As ruas se tornam um elemento tão importantes na poética de "À cidade" que nos damos conta que as casas - organismos não-vivos - não pertencem aos seus moradores, mas às ruas. Os moradores se deslocam, saem, voltam, mudam de endereço, enquanto as casas permanecem no mesmo lugares, imóveis, onde devem estar. Se demolidas para saírem da rua, deixam de ser casas. A casa pertence à rua, que pertence à cidade, onde o homem, esse sim organismo vivo, habita.

Nessa mesma linha temática explorada no livro, de forma metafórica, o autor também humaniza objetos que integram a rotina dos moradores da cidade. A enxada trabalha, a casa adormece, o homem tem raízes. Uma salada de frutas de figuras de linguagem que tornam todos semelhantes entre si, mesmo que o homem tenha as veias, a cidade as ruas, que funcionam exatamente da mesma maneira - bombeando vida, mantendo o corpo - e a cidade - em movimento. Como o homem que riu, o rio que respinga.

Na descrição da rotina da cidade, Maílson traz toques de homenagem à tradição oral, responsável pelas lendas que norteiam produções literárias até os dias de hoje e que, certamente, tiveram importante papel na sua construção cultural como leitor e como poeta. E como tudo é vivo na poética do autor, reclama ele que o clima desrespeita os intervalos que a cidade e os homens fazem, trazendo um retrato poético do interior.

Nos dias que seguem, o sol é sempre o mesmo a garantir a rotina. É sempre o mesmo mesmo que não pareça estar lá. E chegamos no domingo, onde tudo o que é vivo também é folga, é namoro na praça, é o rio dele rindo com seu avô enquanto o rio da cidade goteja, sempre vivo. Domingo é dia de feira também, metaforizando que de segunda à sexta também há feira, mas não a mesma feira do domingo.

O rio da cidade é da mesma água que deságua no mar, que percorre oceano, que encosta nos países de outro continente, como se sua pequena cidade sertaneja estivesse naturalmente conectada com o mundo.

Mais tarde, em sua narrativa composta de figuras de linguagem, Maílson mistura a origem do rio com sua própria genealogia. Tudo está conectado. Como o trem no trilho, que, na obra, também ganha vida, e uma vida pulsante de quem carrega homem e progresso. Já as pontes, Maílson as chama de suturas, como os pontos que unem a pele rasgada, as pontes unem o rasgo da terra.

Enquanto segue sua descrição da cidade viva, o poeta homenageia os famosos pontos de referência, que, mesmo em cidades um tanto maiores do que a sua, por vezes se tornam mais importantes aos que transitam pela cidade do que o próprio nome da rua. Quem jamais ouviu "fica na rua do mercadinho" ou "segue pela rua da farmácia"?

Já se encaminhando para o encerramento da obra, Maílson lembra de tantos que saem de suas pequenas cidades do sertão para tentar a vida nas cidades grandes, mudanças extremas que levam esses organismos vivos para longe da cidade, mas a cidade e sua vida pulsante não abandona por completo esses organismos vivos que partiram, tal qual o rio, que se desloca mas é sempre da cidade, tal qual o trem que se desloca mas sempre volta.

O poeta finaliza sua ode ao sertão e à cidade de onde veio em especial colocando-se como parte dela, como um órgão no corpo cidade, como um glóbulo que passa carregando vida pelas suas veias-ruas.

Poesia é um gênero complexo, muito mais dependente do gosto pessoal do que a prosa, muito mais fácil de ser julgada por sua qualidade ou falta de. O que me encanta, na obra, é a verdade que o trabalho de Maílson carrega. Ele não homenageia a cidade em vão, ele homenageia um amor verdadeiro, como uma poesia à sua amada, como os tradicionais poemas de amor que tanto sucesso fazem.

Maílson não nos transporta à Varjota pela descrição. Termino o livro sem fazer ideia de como é a cidade, de forma imagética, mas nos transporta via metáfora. Sei que tem vida de interior em Varjota, sei que no domingo tem feira e os jovens namoram na praça, sei que que a sesta é respeitada, que as ruas são pulsantes, que o rio deságua, que o trem passa, sei que pessoas saem de lá mas suas raízes ficam. Sei que, de forma metafórica, folheei a terra do sertão nordestino enquanto conhecia a cidade. Não necessariamente a cidade onde nasceu Maílson, mas a cidade onde as tradições são preservadas e as casas amanhecem todos os dias.
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À cidade
Maílson FurtadoViana

Produção independente. Fortaleza, 2017
60 páginas
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Maílson Furtado Viana é autor das obras Sortimentos (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014). Membro-fundador da Cia Teatral Criando Arte e membro-fundador do Grupo Literário Pescaria. O livro "À Cidade" venceu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano em 2018.

~Maya

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Pela dor

Talvez seja o caso de um estudo mais profundo, embasado, mas a poesia parece galgada sobre três pilares centrais: a ode, o amor e a dor. E a rima de amor com dor que nos acompanha desde os tempos pré-púberes.

Tem poesias cuja contundência das palavras de ordem ou a imagética do caos nos transmite a dor do tema tratado. Ou o tesão, dependendo do poeta. Tem outros que, com a simplicidade de uma folha ao vento, carregam todo o sentimento do mundo em um único verso.

E tá cheio de gente fazendo isso de forma subliminar entre palavras bonitas e um aperto no peito que vem sem a gente, o leitor desavisado, sequer perceber.

A beleza da poesia está justamente em nos tocar profundamente sem a gente sequer perceber de fato o que está acontecendo.

Conheçam agora o trabalho de Lucas Luis da Silva:

FUGIDIO
Marco-me à ferro, ferradura.
Marco-me como são marcados
os animais distraídos:
ausente de eternidade.
A cabra-burra pávida
pela altura.
Marco-me ao chão, 
cabeça-baixa,
discernindo esquinas.
Quem em sã-consciência
orbita o céu sem refletir
todo seu azul-piscina?
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CULT
as mensagens de Delfos
insurgem criptografadas
pela pitonisa digital:
devorar-se beats
um título marginal
ei-lo o culto 
código de barras
na poesia pós-m.
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BOA-NOVA
A cada um cabe sua visão de paraíso.
O Éden particular inserido ao cerne.

Rompido os versos bonitinhos
& as rimas piegas,
nenhum livro histórico herdará 
meu nome com destaque.

Amor & dor não mais siameses. 

Acumulo palavras, e serão elas,
Ozymandias, o testemunho
da minha essência,
essa decadência 
imanente.
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RUÍDO
Algumas vezes afirmaram-me ser diferente
o verso agasalhado em minha linha.
Por desconhecer reações tomo o elogio 
em mãos como um peixe.

Sonho a beleza incômoda 
de bastar-me miúdo.

Mas não sem antes desabarem sobre mim 
todas as pragas egípcias: que valor terão 
esses pobres traços em décadas?
Serei poeta apenas com a palavra
talhada em insuficiência?
Que definirá esse ruído em meio 
os ecos de Hesíodo produzidos 
aos baldes?

Nada sou que não sejam outros milhares. 
Outros melhores.

Eu homem não-título investindo
contra vida à qual sigo 
estrangeiro.

__________________________________

Lucas Luiz  nasceu em Guararema no ano de 1991. Continua em pé, embora carregue a sequela da invisibilidade. Iniciou publicando crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois poemas no site de variedades “Guararema Tem”. Redator do programa "Guararema Online" da Produz Áudio&Vídeo. Recentemente colaborou com as Revistas Literárias: Avessa, Inversos, LiteraLivre, Ser Esta, A Bacana, Subversa e Mallarmargens. Também com uma participação na Antologia “Além do céu, além da terra” da Editora Chiado. Segue sem exceder os limites do município. Ou já o fez sem que ninguém perceba.

~Maya
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sábado, 28 de setembro de 2019

Pelos cantos mais estranhos do mundo

Quando eu era mais ou menos uma pré-adolescente, comprei um exemplar de Romeu & Julieta, de Shakespeare, não por interesse na história porque todo mundo conhece a história, mas para levar para a escola e mostrar pra todo mundo que eu lia Shakespeare. O que eu não vi na hora da compra é que o livro veio em formato de roteiro de teatro. Acima de tudo, Shakespeare era dramaturgo, e na época eu sequer sabia que essa palavra existia. Não consegui ler o livro.

Passados uns 25 anos de minha pequena "tragédia" particular, chegou em minhas mãos a obra "Nos países de nomes impronunciáveis", de Paula Autran. Para além de um nome instigante e uma capa espetacular, me deu arrepios ver, logo acima do nome do livro, os dizeres "Coleção Palavras para Teatro". Socorro. Paula Autran é dramaturga, já anunciei o livro dela para resenha no Bibliofilia, e agora?

Bom, entendo vários nadas de dramaturgia, então sou absolutamente incapaz de dizer se o texto que o livro contém é o mesmo trabalhado sobre os palcos ou se foi adaptado para a publicação, só sei que, ao contrário do meu exemplar há décadas doado de Romeu & Julieta, "Nos países de nomes impronunciáveis" não é apenas fácil de ler: é uma delícia. É importante frisar que, para a análise completa da obra e seus personagens, algumas das diversas revira-voltas serão reveladas. Portanto, contém spoiler.


O resumo da ópera (ou da peça, no caso) é que temos três mulheres que arrumam as malas e saem de casa, deixando para trás somente uma carta aos que ficaram. A primeira é Kátia, uma jovem que passou a vida trancada em uma casa cheia de cadeados porque a mãe temia que a propriedade fosse invadida por bandidos. A segunda é Ocridalina, uma jovem que sente que precisa viver a liberdade antes de assumir um compromisso concreto com o namorado Henrique, mas principalmente, precisa descobrir a origem de seu nome peculiar. A terceira é Joana, uma mãe que sente que se perdeu de si mesma depois da maternidade embora esteja claro o amor que sente pelo filho.

Cada uma dessas três mulheres, distintas entre si e fugindo de relacionamentos de naturezas tão diferentes, tem motivos fortes para a necessidade que as impele à fuga. Todas as cartas, as primeiras, assumem um tom de desabafo com grande profundidade, como se a autora assumisse integralmente os sentimentos de cada uma delas ao escrever as cartas - e é o que se espera de um bom escritor.

Kátia, ao se despedir da mãe e de sua paranoia, o faz dizendo "eu sou o ladrão que, ao invés de entrar, sai. Assim não te tiro nada, mas te trago, pela ausência". Kátia sentia uma solidão profunda isolada em uma casa transformada em fortaleza, "era eu que ia lá e areava todos aqueles cadeados e tirava o pó das chaves todas". Para além disso, não apena o isolamento causado pela fortaleza, mas também pela ausência da mãe. Relembra Kátia que suas melhores lembranças de infância viveu ao lado da empregada, Maria José, e seus livros de bancas de revistas e novelas mexicanas.

Mais tarde, quando temos um adendo das três cartas, ainda descobrimos que a mãe de Kátia nem sempre se lembrava de pagar o salário da empregada. Kátia se sente dolorida, abandonada como toda criança negligenciada, mas com um agravante: ela sente, pelo foco constante da mãe na manutenção da casa sempre fortemente vedada, que, para a mãe, o bandido imaginário era mais importante do que ela, ou pelo menos era a ele destinada muito mais atenção do que a ela.

Seguimos para a carta desabafo de Ocridalina, "entenda o que as palavras não podem dizer", relata ela ao se revelar oprimida por uma relação que parece estar ficando séria demais para seus desejos de liberdade, em especial sobre um anel que representou um amor desses avassaladores; o anel que pertenceu à mãe de Henrique e seu casamento com o pai do rapaz. "Eu quero entender a coragem que sinto em mim, e que às vezes percebo que te assusta", diz ela, declarando em seguida que se assusta também, mas que precisa, como Cabral, se lançar aos mares. Aqui a referência é justamente sobre sua sabida origem portuguesa.

Ao fim da carta, Ocridalina não deixa dúvidas de que não importa o tamanho do amor, o que ela sente por Henrique não cabe nos limites dos sonhos matrimoniais do rapaz. O que impressiona nessa carta é que, ao ler, a sensação que se tem é que já se tratava de um amor esvaziado, que a fuga de Ocridalina foi, na verdade, uma tentativa de encerrar a relação. Depois da tristeza de Kátia por uma infância de clausura e de negligência da mãe, o sentimento de dor não se repete, o que se percebe aqui é quase uma desculpa para fugir da relação. A diferença entre as narradoras é gritante, são vozes destoantes cujas personalidades são expostas por alguém que tem o domínio na criação de personagens.

A terceira carta, por sua vez, é a que trouxe a maior carga dramática. Joana é mãe, sente-se envergonhada em escrever uma carta de despedida ao filho, como se confessasse um crime. Joana descreve sua despedida como uma "descarta", uma "não-carta". Em dado momento, Joana desabafa: "Você nasceu grande e eu me fiz cada vez menor do teu lado. Você aprendendo a falar e engolindo as minhas palavras".

A carta de Joana carrega em si a maior carga dramática e traz à tona um dos assuntos mais cheios de tabu que a maternidade carrega: a anulação completa de um ser humano ao tornar-se mãe. Joana ama o filho. A dor de partir e deixa-lo para trás é evidente em cada linha e quase nos estapeia as fuças. Eu, que não vivo a experiência da maternidade, pude sentir profundamente a culpa que Joana carrega pela decisão de partir.

Eis que se desdobra um debate importante - e que faz dessa carta um material riquíssimo para análises mais profundas e técnicas para quem estuda e trabalha com os desafios e imposições sociais da maternidade: Paula aqui não mede palavras, nem sobre a anulação de Joana ao se tornar mãe e deixar de ser Joana, nem sobre o quanto essa mulher anulada nutre um amor concreto e inquestionável pelo filho. Cabe múltiplas interpretações, se colocada a carta no nosso contexto social onde a mãe é uma figura de quase sacralidade (ao mesmo tempo que sofre isolamento com a proibição de crianças em vários ambientes e a polêmica sobre amamentação pública, que faz com que muitas mães sejam empurradas para fora do convívio social) e uma mulher é um ser de menor valor diante de seu papel maternal.

Joana, que descobrimos depois ser poliglota e com notável conhecimento em línguas, se sente absolutamente silenciada. "eu aprendi que o silêncio é só a outra face da mesma moeda da fala". O relato de Joana, além de todas as questões sobre maternidade que renderiam uma tese inteira, ainda tem um importante tratado sobre o silêncio. Para ela, buscar o silêncio onde ele é exigido já não lhe basta porque, poliglota, entende que o silêncio dela e de alguém que fala em inglês é idêntico.

O que ela precisa é da incapacidade de se comunicar, um silêncio de incompreensão, para resgatar a si mesma, e, por isso, decide partir para algum país cuja língua lhe seja um completo mistério. Ainda assim, no adendo de sua carta, Joana deixa ao filho, Caio, receita de lasanha de legumes para aproveitar os legumes que estão na geladeira, em uma tentativa de dar ao filho algum tipo de autonomia e a si mesma um pouco de paz.

Findadas as cartas, descobertas nossas viajantes para países de nomes impronunciáveis, vamos recebendo notícias de que fronteiras estão sendo fechadas por motivos diferentes.

Como não há uma narrativa linear por parte de Paula, em uma leitura desatenta é provável que passe despercebido esse detalhe, mas a cada notícia de fechamento de fronteira, temos a carta resposta a cada uma delas, presas em embaixadas de países com nomes impronunciáveis.

Clarice, mãe de Kátia, adquire quase um tom debochado, como se encarasse a atitude da filha como um ato de rebeldia juvenil. Ao contrário da carta de Joana - outra mãe - Clarice zomba, justifica que os cadeados eram mesmo contra ladrões e, como se diz popularmente, "faz pouco caso" do desabafo da filha, que não escondeu seu sofrimento na primeira carta.

Não há como se ter empatia por Clarice. Não há por ela o amor materno que há de Joana por Caio. Por mais que a própria sociedade no leve a entrar na pele de Kátia e sentir com ela o sofrimento do abandono (mesmo que não concreto) que a levou a sair de casa, fica ainda a sugestão de reflexão sobre a anulação completa da mulher que se torna mãe. Clarice é dona de si. O que a torna aqui alvo de crítica - e essa sim, válida - é que Clarice é uma dona de si com ar de arrogância que tentou, inclusive, tirar da filha sua única lembrança boa da infância, e que esquece de pagar o salário da empregada como se a única coisa que realmente importasse, além de si mesma, fosse defender sua propriedade. Mesmo que alegue tentativa de proteger a filha, ali o que vale ainda é a ideia de propriedade.

Depois da próxima notícia que nos situa na prisão de Ocridalina em uma embaixada, a resposta de Henrique muda toda a imagem criada pela carta dela sobre a relação dos dois. Não se trata de uma moça indisposta a se manter na relação dos sonhos do namorado, tradicional, com o anel símbolo do amor eterno e verdadeiro. Henrique tampouco está interessado em uma relação dessa natureza. Inclusive está furioso que Ocridalina deixou a chave com o porteiro.

Nessa segunda carta resposta, nos deparamos com uma história que completa o quadro de uma forma basicamente oposta à esperada pela carta deixada pela moça. Foi um choque me deparar com uma carta seca, com um tom raivoso, e não um namorado choroso implorando pelo retorno da namorada. Uma grata surpresa, aliás, uma quebra completa de expetativa. 

Já caio, filho de Joana, se revela um rapaz que, mesmo adulto, se viu completamente perdido com a ausência da mãe, e nos revela surpreso ao ver uma filóloga, "tradutora das Mil e Uma Noites, uma mulher reconhecida e premiada pela potência de sua fala em quase uma dezena de línguas ter sido presa pelo que eles chamaram de: 'falta de comunicação'". As informações reveladas por Caio em sua carta dão uma dimensão ainda maior do drama relatado por Joana em sua despedida. Uma mulher que trabalha, vive e é reconhecida por sua fala sente que perdeu a voz.

Antes de um desfecho - e aqui encerram-se os spoilers - o resto recomendo a leitura do livro porque novas surpresas virão - ainda temos a notícia da abertura das fronteiras com a possibilidade de volta para a casa das três mulheres e os depoimentos de Maria José - empregada de Clarice - Jaílson, o porteiro no prédio de Henrique, e Marcinha, namorada de Caio. A partir daí as cartas são substituídas por bilhetes

A abertura das fronteiras poderia representar, de forma simbólica, um retorno ao ponto de origem sem uma solução concreta dos fatos que levaram as três mulheres a terminar em países de nomes impronunciáveis. Como prometido, encerrados os spoilers, não posso seguir adiante relatando os fatos do livro, então me atenho a uma última análise de tudo o que nos é apresentado nesse pequeno livro.

Temos três mulheres que vivem três tipos de relações arruinadas: a mulher negligenciada pela mãe, a mulher que vive uma relação fracassada com o namorado e a mulher que se percebe completamente anulada em sua relação com o filho. O desfecho da obra, tanto os bilhetes de um lado quanto de outro deixam a falência dessas relações ainda mais nítidas e dramáticas, embora em momento algum a obra apresente um tom lamuriento ou piegas.

Paula Autran nos apresenta um livro que, mesmo com temas tão sérios, é uma leitura leve e cativante, além de escancarar sua imensa habilidade na construção de personalidade dos personagens, já que temos Kátia, Clarice, Ocriadlina, Henrique, Joana, Caio, Maria José, Jaílson e Marcinha não apenas como personagens da trama, mas como narradores, os 6 primeiros de forma mais contundentes e os últimos três de forma mais rápida, nos depoimentos. 6 narradores principais com uma personalidade bem definida não é uma tarefa fácil, exige treino, experiência e trabalho.

Como disse no começo do texto, não sei se o livro está no formato de dramaturgia, mas, mesmo identificado como texto de teatro e mesmo sendo sua autora uma dramaturga, trata-se de uma peça de ficção de indiscutível qualidade. É um livro em formato de bolso, de 87 páginas, inteiro no formato de cartas, bilhetes, depoimentos e pequenas notícias, mas que construiu com maestria três tipos de relações falidas, abrangendo um enorme campo simbólico sobre cada personagem e sua personalidade. É um feito louvável, em especial se fizermos um paralelo entre as duas mães e suas visões sobre a maternidade. Renderia um excelente debate.
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Nos países de nomes impronunciáveis
Paula Autran

Patuá: São Paulo, 2014
87 páginas
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Paula Autran é mestre (e doutoranda) em artes cênicas pela ECA/USP. É formada em história (USP) e jornalismo (PUC). Tem seis livros publicados, entre eles o livro de poemas Manifesto de mim mesma (editora Patuá). Teve sete peças encenadas. Integrou o Núcleo de Dramaturgia do CPT, de Antunes Filho, e o workshop do Royal Court Theatre. Também ministra aulas de dramaturgia.


~Maya


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Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...