terça-feira, 24 de setembro de 2019

Entre trevas – arte e censura lado a lado outra vez


Todo artista, ou entusiasta de qualquer tipo de arte entende que vivemos tempos obscuros. Os exemplos são jogados sobre nossas fuças quase que diariamente e sempre dividem as opiniões entre os que seguem nas trincheiras pela nossa liberdade artística e de expressão e aqueles que repetem ad infinitum o argumento de que artista é tudo vagabundo.

Os ataques, por óbvio, não são de hoje. Toda ascensão de governos autoritários carrega duas vertentes centrais de limitação do acesso ao conhecimento pelo povo: a educação e a arte. Não à toa que em qualquer regime dessa natureza professores são vigiados, currículos escolares alterados e artistas censurados. Exemplos pipocam pelo mundo – talvez o mais icônico seja a queima de livros pelo regime Nazista.

Educação e cultura não são dois lados da mesma moeda – até porque isso os faria opostos – mas duas moedas de igual valor no combate à ignorância e na criação do pensamento crítico. Por isso os programas de incentivo à leitura desde a infância são fundamentais (aqui cito a literatura por ser o foco deste blog), por isso professores que vão além do “be-a-bá” são considerados perigosos e artistas tratados como verdadeiros marginais.

O bombardeio contra a cultura já vinha se desenhando há algum tempo, antes de mudanças concretas na estrutura do poder (mudanças de presidente, um no meio de uma gestão e outro via eleição), quando os famosos boots começaram a espalhar mentiras sobre a Lei Rouanet. Lembro-me com clareza que, quando surgiram em grande volume fake News manipulando a opinião pública contra a Lei, muitos de nós (por nós, aqui me coloco como artista) já tínhamos entendido que não era uma situação isolada. A demonização da Lei através da mentira e desinformação foi um passo importante para um novo processo de isolamento e desprezo dos artistas como uma classe.

Por isso que, mesmo que nos seja assustador, os atos de censura que testemunhamos atualmente não nos pegaram de surpresa. A ideia de que o cidadão de bem estava pagando para sustentar vagabundo que expõe pornografia a crianças se tornou tão comum que é usado mesmo quando a arte não possui pornografia e quando o público da arte não é infantil.

Citando uma situação bem particular de censura que não gerou nenhum tipo de barulho, no ano de 2017 lancei meu segundo romance, Histórias de Minha Morte, cuja protagonista e narradora é uma mulher negra e periférica. O livro foi aprovado em edital público de fomento à cultura e, em minha cidade, é tradição que os livros lançados por esse edital sejam trabalhados nas escolas para que os estudantes tenham acesso aos artistas locais, tanto pela obra quanto pela possibilidade de presença do artista junto aos estudantes. O livro em questão não é uma leitura leve; contém violências de várias naturezas, mas propõe debates importantes como racismo, estupro, relacionamentos abusivos e transtornos psiquiátricos.



Por óbvio não esperava que a obra fosse trabalhada com crianças ou jovens de 12, 13 anos, mas adolescentes na faixa dos 15, 16 anos já estariam aptos a trabalhar o livro. Para minha surpresa, o livro foi barrado nas escolas. Nas públicas, a justificativa foi que o livro era muito “pesado” para adolescentes, nas particulares o que pesou foi o medo da reação dos pais, um patrulhamento ideológico já em andamento, mesmo que o livro – uma ficção – discuta temas sociais que envolvem seres humanos de qualquer espectro político.

Claro que meu livro é um exemplo muito pequeno, muito local. Talvez o leitor mais desavisado não compreenda que essa “inocente” proibição é parte de algo muito maior, até porque alguns dos casos de maior repercussão dos últimos tempos em temos de cerceamento da liberdade artística usam o mesmo argumento de proteção à criança. Aliás, não só artístico, mas educacional também.
Entre os mais icônicos testemunhados esse ano está a censura a uma revista em quadrinhos na Bienal do Rio de Janeiro por conter uma ilustração de um beijo entre um casal gay. Mesmo que a revista não estivesse sendo comercializada para o público infantil, e mesmo que ilustrações com beijos entre casais héteros jamais tenham sofrido retaliações quando disponíveis às crianças, a proteção contra uma suposta sexualização da infância se tornou a justificativa de muitos a um ato que não tem outro nome que não homofobia e censura.

Foi na contramão dessa ação que um famoso youtuber realizou certamente o ato mais caro em termos financeiros, adquirindo 14 mil exemplares de livros de temática LGBT para distribuição gratuita no evento. Como vivemos em tempos de extremos, o youtuber passou a receber ameaças de morte.
Nesse mesmo sentido, vítima de ação de um poder público que se orgulha de desconhecer a arte e suas funções – e talvez por isso a despreze tanto – a poeta Angélica Freitas teve seu livro “Um útero é do tamanho de um punho” como alvo de um pedido de moção de repúdio na Câmara dos Deputados, em Santa Catarina, depois de adotado no vestibular de duas universidades. Outra autora, Natália Polesso, já havia sentido o peso da total falta de senso de interpretação artística quando parte de um conto seu esteve presente na prova do ENEM.

O caso de Angélica foi emblemático, porque o que tornou o livro da poeta objeto de repúdio na moção foi a citação do útero, como se falar de partes da anatomia fosse algo abjeto por si só, desprezível, que deva ser escondido da sociedade e dos jovens de 17 anos. O que há de imoral ou criminoso em se citar um órgão característico da anatomia feminina de forma poética a um público que deve saber que este órgão existe e como funciona? Deveríamos também amoralizar a anatomia humana nos estudos de biologia para “proteger nossas crianças”?


Não é o foco do presente texto, mas sabemos que a proteção à infância fica só no campo das artes. Vi, incrédula, cidadãos elogiando o governador carioca pela ação policial que causou a morte de uma criança de 8 anos. Agatha devia ser protegida da exposição a um casal gay ou à descrição de um útero, mas não da bala que custou sua vida?

Muitas outras questões se misturam quando o tema é censura. Mesmo quando não existe de fato uma censura – ou provém de uma fonte sem tal poder – o cerceamento das artes encontra respaldo onde menos se esperaria, que é dentro da própria classe artística. Exemplos igualmente não faltam, com uma onda de artistas conservadores dispostos a puxar o tapete do colega sabe-se lá porquê. No período da ditadura artistas famosos se aliaram ao regime delatando colegas e hoje, se os métodos de repressão retornarem com o mesmo formato da época, não faltarão artistas dispostos a fazer o mesmo.

Até esse humilde blog, que hoje completa 3 meses de existência, conta com poucas visitações em termos gerais, já recebeu sua pitada de silenciamento. Chegou aos meus ouvidos uma crítica feita por uma pessoa da mesma classe que defendo e divulgo nessas paragens de que o trabalho aqui realizado possui baixa qualidade analítica e falta de ética pela ausência de um diploma de Letras em meu Lattes. O que surpreende não é a crítica de uma baixa qualidade analítica, opiniões são sempre muito particulares, o que me chocou de fato foi a acusação de falta de ética por eu ousar criar um projeto de divulgação da literatura através de exposição do trabalho alheio e resenhas de minha autoria sob a justificativa de uma suposta falta de qualificação acadêmica.

Não me falta. A graduação em jornalismo, cujo diploma expus orgulhosamente nas redes sociais na ocasião de minha formatura, me autoriza formalmente a me tornar uma resenhista, a resenha integra o escopo de minha formação acadêmica, a minha vida inteira dedicada à literatura me confere a ética de falar sobre aquilo que mais entendo. O momento obscuro que vivemos de um retorno nada sutil da censura contra as artes me impele a criar mais um espaço de resistência, abrindo as portas aos autores e editoras que estão todos com a corda no pescoço. Embora a crítica não cite o blog ou meu nome, cita em aspas palavras minhas e meu recente ingresso no curso de Letras, e chegou a mim por várias fontes que reconheceram, nas palavras do emissor, o óbvio alvo da crítica.

Um caso isolado, isoladíssimo diante do apoio inconteste que o blog recebe de autores, editoras e leitores. O mesmo não acontece com a atriz que já virou um ícone da nossa cultura, Fernanda Montenegro. Prestes a completar 90 anos, a atriz foi capa da revista Quatro Cinco Um em ocasião do lançamento de sua biografia pela Companhia das Letras (inclusive quero), onde, entre outras fotos de um ensaio fotográfico cheio de referências artísticas, Fernanda aparece “amarrada” sobre um monte de livros em claríssima alusão às fogueiras medievais.

Mariana Maltoni - Revista Fórum

Fernanda viveu na pele a repressão da Ditadura Militar, não somente pelas censuras aos textos das peças que encenava, que variavam de local para local obrigando elenco a readaptar as peças frequentemente conforme as vontades e interpretações dos censores, mas também as violências e o medo. A própria atriz relatou, para a revista Pragmatismo Político em 2014, que em uma determinada situação, o elenco inteiro de uma peça foi espancado dentro do teatro por um grupo intitulado “Comando de Caça aos Comunistas”. Em outra, ela foi diretamente ameaçada de morte, quando a informaram que levaria um tiro na testa se subisse ao palco. Apesar do medo, ela subiu. Em outro dia, neste mesmo período, atiraram contra a janela do quarto onde ela e o marido dormiam hospedados na casa de um colega. A bala, por sorte, se alojou no teto e ninguém saiu ferido.

Mais do que ninguém, Fernanda Montenegro conhece bem os meandres da censura. E foi justamente por não ter medo dela, com a mesma coragem que sobreviveu à Ditadura, que Fernanda se manifestou contra os atos recentes. Claro que a polêmica estava plantada, e um de seus mais agressivos críticos foi um colega. Diretor de teatro, o colega em questão chamou Fernanda de “sórdida” e atribuiu a uma revista especializada em literatura o rótulo de “revista de esquerda”. Seria óbvio pensar que uma revista de literatura não apoiaria nenhuma forma de censura, mas vemos que dentro da própria classe artística a ideia do cerceamento, do silenciamento e da retirada de direitos sobre o fazer arte estão presentes, hora de forma sutil, hora de forma escancarada, e escandalosa.

As palavras do Diretor de teatro, galgado a alto cargo no governo por seu posicionamento político declarado abertamente, ganharam eco e hoje vemos uma senhora de quase 90 anos e um irretocável histórico de contribuição artística pelo país ser covardemente atacada por fazer uso daquilo que é nosso por direito: a voz.

Não existem fórmulas mágicas. A arte sobreviveu a todas as formas de repressão porque é, antes de tudo, resistência. Agora não será diferente.

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Maya Falks é escritora, poeta, publicitária, jornalista e acadêmica de Letras. Idealizadora e resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana. 





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domingo, 22 de setembro de 2019

Sobre ossos

A leitura da poesia é um processo extremamente individual, cada um a sente à sua maneira conforme suas vivências e sua percepção da realidade. Não gosto de discutir técnicas porque o fazer artístico transcende técnicas, regras e manuais pré-estabelecidos. Fôssemos considerar somente a técnica, perderíamos toda a poesia de rua, os slams, as expressões poéticas de periferia que pipocam por aí e dão um brilho todo especial ao que conhecemos por poesia.

A quebra de qualquer noção de "regra" (e uso aspas porque imposição de regra na arte é quase uma ofensa ao que torna a arte bela ou revolucionária) foi a primeira coisa que me chamou a atenção no livro "Casa dos ossos", de Prisca Agustoni. O livro, editado em 2017 pela Edições Macondo, é para ser lido em um só fôlego. Não apenas por ser um livro curto, mas por suas interligações que unem três partes em um conjunto harmônico.



Na primeira parte, chamada de "Além da Soleira", Prisca explora a fonética das palavras, o seu som, a combinação de sons que tornam seus poemas especiais para uma leitura em voz alta, uma declamação. Prisca não usa pontuação, deixando o leitor escolher onde fazer seus intervalos. É aí que entra a magia da declamação: em uma leitura silenciosa, os poemas podem ser vistos como um bloco único, uniforme. É na necessidade de pausas para renovação do oxigênio que o poema se redesenha ao gosto do leitor.

Esse recurso, tanto da fonética para embelezar a leitura, quanto da ausência da pontuação, faz com que o poema ganhe significados distintos para cada leitor e cada leitura. Inclusive eu mesma testei a leitura de alguns com mudança de espaço de intervalo, e foi uma experiência bem interessante.

O recursos fonéticos ficam claros no poema da página 13, com a semelhança sonora de palavras usadas em vários versos, como "descalça, "cetro", "senda", ou a rima criada do meio do verso ao final do outro: "eu paro perdida abro os olhos / no meio do caminho da vida". Percebe-se que a rima só funciona se a pausa isolar o "perdida" no verso, e o uso da pausa depende exclusivamente da vontade do leitor.

Além de uma construção livre e fascinante dos versos, Prisca, na primeira parte de seu livro, proporciona ao leitor recursos para interagir com os poemas, permitindo que cada peça seja totalmente mutável, adquira significados próprios e novos a cada leitura.

A segunda parte, "Casa dos Ossos", empresta aos versos alguns exemplos de pontuação, mas se difere da primeira parte na exploração de metáforas, inserindo a língua e o corpo em comparações fascinantes do corpo como instrumento da língua. Por língua, vale frisar, me refiro ao português mesmo, e não à língua como parte de nossa anatomia.

Um exemplo muito forte disso está no poema da página 19, onde Prisca, em dado momento do poema, nos diz:
dedos e unhas
na ponta de cada sílaba
são facas sutis que adentram
          a língua
para expelir
os unguentos oleosos
do texto

Elementos corporais misturados anatomicamente com elementos textuais, como um organismo vivo que é tanto o corpo em funcionamento quanto o texto em sua construção e em sua vida útil. Como se o texto ignorado, abandonado, pudesse ser comparado ao corpo morto, inanimado.

À página 22, Prisca escreve, em certa parte de seu poema:
Pouco além da porta
rastejam os verbos
entre a língua e o hímen

As metáforas construídas por Prisca conferem vida pulsante ao texto e seus elementos, mas não se restringem a eles. Como na página 28, em que escreve:
tua presença
reduz o cômodo 
a um aquário:

quero ar
quero ar

longe de lábios parasitas

Nesse trecho do poema vemos a força claustrofóbica de uma relação abusiva, sufocante, trazendo a relação do diminuto espaço do aquário e a dificuldade de respirar, a sensação de afogamento, que uma prisão psicológica pode causar. Nada ali é literal, não se trata de um pessoa efetivamente presa em um aquário ou vivendo uma situação concreta de afogamento, mas de uma pessoa sufocada por uma realidade opressiva.

Destaco ainda, nessa segunda parte do livro, os versos antes que teu rosto / mergulhe na memória pela simples beleza dessa construção, embora fosse possível tirar daí uma análise mais profunda da metáfora utilizada para a distância, separação ou mesmo tentativa de esquecimento da pessoa a qual o poema se refere.

A terceira parte do livro, "Rubras Veias", embora ainda trabalhe com metáforas como a segunda e com fonética como a primeira, traz um trabalho mais imagético e repleto de simbolismos.

Quando, à página 49, Prisca se compara a um ícone exposto e se vê murchada pelos olhares da multidão representada por uma única pessoa, também contrapõe o símbolo ao dizer que suas palavras murchadas são igualmente duras como os ossos, trabalhando uma contradição simbólica entre o esvaziamento e a rigidez, ambas sinal de um certo grau de sofrimento do emissor.

Entretanto, o simbolismo que mais me atrai e que fecha o livro com chave de ouro faz justamente um trocadilho com o dito popular aqui citado, talvez até de forma proposital (somente a autora poderia confirmar isso), quando encerra seu último poema com tantas e tantas portas / e nenhuma chave.

Eis a discordância do leitor: muitas e muitas chaves são entregues ao leitor ao longo de uma obra que, embora dividida em três partes, se mantém coesa.

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Casa dos ossos
Prisca Agustoni

Juiz de Fora: Macondo Edições, 2017
53 páginas
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Prisca Agustoni é poeta, tradutora, ficcionista e autora de literatura infantojuvenil. Vive entre a Suíça e o Brasil onde trabalha como professora de literatura comparada. Seu trabalho literário se desenvolve em português, francês e italiano. 

~Maya

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O som do silêncio

Eu não lembro quando conheci Augusto. Minha memória não é lá essas coisas, mas sei que conheço Augusto há muito tempo. Ele se faz frequentemente presente na minha trajetória como escritora e foi inclusive a pessoa que me convidou para o primeiro sarau da minha vida, como poeta, há poucos meses.

Mas Augusto não é apenas um amigo por quem tenho um carinho imenso, um leitor e entusiasta do meu trabalho. Augusto também é um cara extremamente inteligente, cheio de conteúdo. E também é poeta.

Estive no lançamento do primeiro livro dele, "O Meu Silêncio tem Som" (Chiado, 2019) e o convidei para mostrar um pouco do seu trabalho nesse "setor" do blog, já que a fila está grande e o livro dele vai demorar um pouco para ganhar resenha.

Então, caros leitores, conheçam um pouco da poesia de Augusto Valentini! Esses textos são inéditos, especialmente para vocês!

Às vezes sem mentir

Às vezes sem mentir
Falamos coisas  insinceras
São coisas da superfície
E as coisas precisam vir de dentro
Não se mente um “te amo”
Mesmo assim ele pode não ser sincero
Pode ser frase automática
Fala resposta a outro “te amo”

Agora, um “eu te amo” sim é sempre sincero
O eu é pesado
Traz consigo o âmago
“Eu te amo” é grave
É preciso saborear as palavras enquanto se as diz
“Eu te amo” vem com um aperto
No coração, no pulmão ou no estômago
Um dos três sai do ritmo logo antes do eu
Sintonizar contigo
“Eu te amo” deve ser sincero pela natureza da oração
Por difícil que seja dizê-la, a frase suicida-se
Joga-se da ponta da língua de olhos abertos
“Eu te amo” é sempre dito de olhos abertos
Olhando-se os olhos abertos do tu
“Eu te amo” à distância perde o eu
Escrito perde o eu
Rápido perde o eu

Eu te amo devagar com pausas e pequenos ataques cardíacos de um
Eu te amo com gosto cheiro e cor com toque peso e gravidade de um
Eu te amo com esforço de arremessar da minha língua para a tua esse
Eu te amo com a dor do peito ansioso por expressar tal
Eu te amo como quem morre uma pequena morte em francês num
Eu te amo como se poetizaram banalidades numa Remington em Portugal e
Eu te amo sem aspas e sem ponto sem teu nome sem minha assinatura
Basta o “eu te amo” repetido e tu sabes que o “eu” sou eu
Que o “tu” é tu
E que o “amo” é sincero
Porque te lo he dicho
Mirándote en los ojos
And that’s enough.

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Como Clarice em um avião enfrentando a turbulência

Me faria bem ter alguma fé
Conseguir crer sem evidências.
Queria poder
Como Clarice em um avião enfrentando a turbulência
Dizer
"Minha cartomante falou que não vou morrer de desastre"
E sorrir
Tranquilo.

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Distração

A lâmpada segue acesa
E a música segue tocando
Escrevo esse poema
Tentando calar a madrugada
Para que
Ao menos dessa vez
O sono venha antes do sol
E eu possa fingir que não sinto
A cada dia mais
Medo da morte.

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Augusto Valentini nasceu, vive em trânsito e morre de amor em Caxias do Sul, RS. Estudante de Letras e Teatro, é um amante incorrigível de todas as Artes, sejam elas 7, 8 ou 80. Já teve alguns textos breves premiados em concursos e selecionados para antologias. "O meu silêncio tem som" é seu primeiro livro publicado. Viciado em referências e reverências poéticas, as espalha por quase tudo que escreve.

~Maya

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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Fora de ordem

Vai parecer estranho, mas esse parágrafo não é o começo da resenha. Planejei cuidadosamente como seria o começo da resenha, e não, não era assim, mas achei pertinente começar com uma observação engraçada sobre um comportamento comum que também foi o meu: "livros grossos assustam, eu prefiro os finos". Ao contrário do que você vai pensar, livros grossos não me assustam (inclusive minha biblioteca tem muito mais grossos do que finos e o parágrafo está desandando), a questão é que, depois de duas leituras rápidas de livros de poesia, decidi que a próxima resenha seria de um romance, para variar. Valorizando não só autores que me disponibilizam suas obras, mas editoras também, decidi que o romance seria um dos três livros gentilmente cedidos pela Caiaponte Edições.

Ok, ok, erro de cálculo, esse parágrafo também não é o começo da resenha. Na hora de escolher o livro, sabendo que tinha uns projetos pessoais pra tocar, usei como critério o tamanho. Sim, escolhi o livro mais fino entre os enviados pela editora para fazer minha leitura minuciosa em um tempo mais curto para manter o blog alimentado enquanto tocava outros projetos. Pensa numa pessoa que aprendeu na marra que livro menor não significa leitura mais curta. E agora sim, vou começar a resenha.

Lembro da primeira vez que assisti "Amnésia", filme do ano 2000 dirigido por Cristopher Nolan, ou de praticamente todas as vezes que assisti qualquer coisa dirigida por David Lynch incluindo a série Twin Peaks (uma de minhas favoritas, por sinal). Deste último, tirando o belíssimo Homem Elefante, não teve um único filme que não tenha me causado o efeito de vertigem.

Qualquer dessas obras citadas tem como base de sua criação o estranhamento. A gente não entende exatamente o que está acontecendo; temos na mão um ou outro elemento mais concreto que nos permite no mínimo ter curiosidade de saber o que vai acontecer depois, pelo menos na esperança de uma explicação que junte as pecinhas.

Só que o filme te conduz pelas imagens. No livro, as imagens são aquelas que o leitor constrói com base no que foi descrito ou relatado pelo autor. E as imagens do leitor acabam sendo totalmente livres. O livro "Lugares Ogros", de Telma Scherer causou exatamente esse efeito em mim: da vertigem, da confusão e do receio, em cada capítulo, de ter criado uma imagem diferente da necessária para a compreensão do livro. Isso poderia parecer uma crítica negativa ao trabalho de Telma não fosse um detalhe: foi tudo de propósito.



O livro tem 106 páginas. No meu caso as 106 páginas estão repletas de anotações, perguntas, conclusões e post-its. Nunca tinha usado tanta flag num único livro. Posso provar.


A primeira situação que me fisgou foi quando, no prólogo, o narrador (ou narradora, já chegamos nesse ponto) cita uma mulher de vermelho. Ao longo do livro, a referência da mulher de vermelho aparece muitas vezes, algumas de forma mais evidentes atribuindo a simbologia à própria narradora-protagonista-ou-talvez-nem-tanto ou à mulher tagarela atrapalhando as orações no Centro Espírita, que me parece ser um lugar de extrema importância para Roberto, um dos narradores-protagonistas-ou-talvez-nem-tanto.

O causo é que a mulher de vermelho tem uma simbologia muito forte na cultura pop, principalmente depois do sucesso de bilheteria que seria inspiração para as mais insanas teorias da conspiração, Matrix. No filme, enquanto Morpheus explica a Neo sobre a finalidade e os perigos da Matrix, Neo se distrai com uma mulher de vestido vermelho que se destaca entre tantas outras pessoas de roupas escuras. Nessa cena, não fosse o fato de a mulher de vermelho ser uma simulação, Neo teria sido morto pelo Agente Smith. No contexto do uso simbólico da mulher de vermelho, essa personagem representa uma distração em um mundo padronizado em tons de cinza (e essa não é uma referência a mais um filme), o que significa que a autora já nos dá, em um dos primeiros parágrafos do livro, a simbologia da distração.

Assim como na metáfora apresentada em Matrix, a mulher de vermelho - mesmo que não a mesma mulher, ou mesmo que não sempre com o mesmo tipo de vestimenta - acaba aparecendo em momentos-chave do livro, seja atrapalhando os fiéis no Centro, seja atraindo a atenção de outro narrador-protagonista-ou-talvez-nem-tanto.

Temos como elementos concretos uma mulher, estudante universitária, que acaba de ser despejada de seu apartamento e sai dele apenas com uma mochila pesada. Ela está grávida embora esse fato não seja efetivamente explorado de forma contundente. Temos também Jorge e Roberto, dois homens que não apenas são parte da vida da narradora como vez ou outra são eles mesmos narradores. Jorge, por sinal, é o pai da criança. Roberto é espírita. Claudina está internada no mesmo hospital psiquiátrico onde um coletivo de teatro ocupa um espaço. Cecília, a avó, tem Alzheimer. E Maria. Passei o livro inteiro peguntando se Maria era a protagonista inicial, a mulher da mochila, da gravidez, indignada com a greve na faculdade, que cortou a mão lavando um copo, que pegou o ônibus para Vila Nova e que dialoga com alguém que, ao longo do livro, questionei se seria outro personagem, um diário ou o próprio leitor.

Gostei do tom filosófico já de largada do livro: "Lá longe lembrarei apenas das coisas e não dos nomes. Terei pena dos nomes porque eles são vazios". Discordo um pouco da frase porque nomes são a ferramenta inicial da atribuição de significados às coisas, mas a composição da frase me encantou. O que eu concordo é que eu esquecerei mesmo todos os nomes (já esqueço) e isso não diminui a importância dos donos desses nomes para mim. Por sinal, do prólogo saiu uma anotação minha dizendo "prosa poética em estado puro". Também até ali entendi que ela sabia que o parceiro não era o pai da criança. Bom, as coisas não correram como eu previa.

Gosto de colocações abstratas, como quando a narradora reclama que sofre opressão do papel quando recebe um folheto na rua e reflete que "querer coisas pesa". A sensação que deu é que seu despejo não era exatamente literal (era), mas simbólico, que ela sentia a necessidade de fugir de alguma coisa. Um relacionamento abusivo talvez? Mais tarde sabemos que Jorge queria sair com uma determinada mulher para ser visto na faculdade com uma "atriz gostosa". A protagonista (Maria, talvez?) fala de música, fala de teatro, e lá pelas tantas é chamada de escritora por Jorge, o que nos leva à ideia de que sejam pessoas diferentes. O tempo todo.

Sim, a confusão é proposital. Quando entramos com a narradora (uma delas) no ônibus, ela nos descreve o que vê. Em seguida somos jogados a um capítulo, nomeado "Sem número" onde o narrador, narradora ou coisa, se diz um tripé. Tripé de câmera mesmo. Temos o elemento do teatro e da dramaturgia. Imaginei como uma metáfora das percepções da personagem, mas, ao longo da trama, as trocas de narrador me fazem agora crer que talvez a narração seja literalmente da coisa, do tripé.

Voltemos à carne e osso. Telma nos presenteia com "Dói para ser perfeito. Mas eu não me importo com a dor. Não, não me importo. Eu faço meus alongamentos, tomo meus remedinhos, passo as minhas pomadinhas, e passa. A dor passa, fica a precisão. Fica o jeito perfeito de emitir aquela nota. Fica a sensação de naturalidade exuberante que acompanha a boa interpretação". Julgava ser ela, a narradora, talvez Maria, mas uma palavra no masculino me confundiu. Falava de música, achava que ela era quem fazia música. Confesso que não consigo responder se aquela palavra que identifica o narrador masculino foi um erro de digitação ou se trocamos para um narrador desconhecido. Mas um narrador que fala bonito.

Apesar do elogio recém feito do narrador que fala bonito, não há basicamente nenhuma alteração de linguagem entre narradores. Claro que se todos os narradores são provenientes de uma mesma classe, um mesmo cenário sócio-econômico, um mesmo background social, não seria de se estranhar que tenham todos linguagem tão semelhantes, mas ainda assim, o simples fato de não sabermos quem está narrando até que o narrador nos dê um elemento concreto nos priva um tanto da personalidade de cada um. Esse foi o ponto que mais me gerou desordem mental na leitura: todos me pareceram a mesma pessoa, com pequenas distinções mais pontuais, como gênero, ou o fato de Roberto ser espírita, ou a narradora estar realmente revoltada com a greve. Jorge, personagem ou narrador, é o homem que se encantou por Maria, sabemos disso porque ele dá um bolo em Roberto para ficar com ela, mas ao mesmo tempo em que quer ser visto com a atriz gostosa mas não quer nada além disso, também é o cara que fica deslumbrado pela escritora. Ao que tudo indica, as duas mulheres são a mesma pessoa.

Em um determinado ponto, nossa narradora comenta "Olha, Jorge, eu não sou escritora, sou atriz, e era isso. E eu não sei porque tu não gostou. Ah! Por que me chamei de poeta? Por quê? Não fica bem? Só ela pode ser poeta? Eu queria que tu me explicasse o que é que confere esse título honorífico a uma pessoa". Ao final do capítulo, pergunta: "Jorge, por que tu parou de gostar de mim?". Teria Jorge algum fascínio por escritoras que o tenha levado à decepção por ela não o ser de fato? Mas e a atriz com quem ele queria ser visto?

Estamos literalmente na metade do livro. Eu, com meu lápis na mão e minhas flags de post-it, já não sei mais nem quem eu sou. Há um homem poeta. Eu não sei quem ele é. Concluo que Jorge trocou a narradora por Maria. No fim, não me parece que isso se confirma, já que decretei que a narradora e Maria são a mesma pessoa.

Da metade pro fim do livro as vozes de misturam, cada vez mais. Ela, seja quem for, já não está mais no ônibus, fala de tomar uma cerveja com alguém, lá em cima. Só sabemos do ônibus. E da mulher de vermelho. Maria. Que dança, canta, interpreta. "Não faça nada com meu filho", pede Jorge em carta.

Embora mantenha minha queixa da metade da resenha de que as vozes só se misturam dessa forma a ponto de não sabermos quem narra cada capítulo ou descobrirmos através de informações bem pontuais porque faltou, nesse curto espaço de 106 páginas, uma diferenciação mais contundente das personalidades dos personagens, também enxergo um mérito aqui: é uma história contada em ordem não cronológica, de forma não linear, sob os diferentes pontos de vista de todos os envolvidos nela.

Sim, conseguimos montar parte do quebra-cabeça que Telma criou. Essa construção da personalidade dos personagens teria nos facilitado entender que são personagens diferentes, com visões diferentes dos fatos, mas não era essa a intenção da autora. O simples uso da alegoria da mulher de vermelho me deixa segura para dizer que a autora queria mesmo que o livro não fosse uma narrativa como estamos acostumados.

Ao criar uma narrativa dessa natureza, Telma assumiu um risco enorme. Acho louvável. Assim como os diretores citados no começo da resenha, cujas obras dividem opiniões entre os que não entenderam nada e detestaram, os que não entenderam nada e acharam genial exatamente por isso, os que fingem que entenderam por medo de parecer menos inteligentes por não terem entendido e os que entenderam e gostaram ou não da narrativa. O risco de Telma mora exatamente nessa ambiguidade (termo errado, porque são várias opções e não apenas duas, mas vocês entenderam, né?), ela pode tanto ser vista como uma autora brilhante que contou uma história de uma forma tão peculiar que é de se espantar que ela mesma tenha conseguido manter o raciocínio narrativo no livro inteiro, ou ser vista como uma autora que jogou qualquer coisa de qualquer maneira entre aqueles que inclusive abandonarão o livro sem chegar ao capítulo final, em que ela mais ou menos nos explica um pouco melhor quem é quem.

Em termos gerais gosto da ideia de o livro ter várias vozes que contam as histórias a partir do seu ponto de vista. Também não desgosto da ideia de ter capítulos que parecem completamente alheios ao livro - como a existência de Cecília ou a própria Claudina, embora eu aprecie o contexto em que Claudina aparece no livro.

Mas uma coisa é inegável na obra de Telma: ela torna qualquer julgamento de um leitor ou resenhista mais atento bastante difícil. Eu poderia dizer que detestei o livro porque tive muita, MUITA dificuldade de acompanhar as trocas de narradores ou de compreender quem é quem e quem faz o que, mas ao mesmo tempo não posso ignorar que a autora construiu uma narrativa ancorada na confusão, no desencontro, nas várias versões de uma mesma história e em metáforas bem executadas, como da mochila pesada, do partir, paralisar e da própria mulher de vermelho. Como julgar ruim um livro que atingiu os objetivos da autora?

Não tenho resposta a essa pergunta. Se me perguntarem se gostei do livro também não saberei responder. Como qualquer ser humano, não gosto de não entender alguma coisa, de me deparar com algo que em uma primeira vista não me parece fazer nenhum sentido, mas como escritora, leitora e resenhista, também me fascina quem assume riscos e trabalha "fora da caixa". "Lugares Ogros" é, sem dúvida, uma aventura.
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Lugares Ogros
Telma Scherer

Caiaponte Edições: Florianópolis, 2019.
106 páginas
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Telma Scherer é artista e professora do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC. Como poeta, publicou Desconjunto, Rumor da Casa, Depois da Água e Entre o Vento e o Peso da Página.

~Maya


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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poesia em carta

Marco Aurélio de Souza me abordou timidamente com um poema um tanto peculiar. Lembro que achei graça porque ele, como muitos autores que me procuram, queria mostrar seu trabalho inseguro se estaria à altura do Bibliofilia. Pois bem, well (já entrando no clima do poema), não entendo muito disso de "nível de" porque, exceto aquilo que é muito escandalosamente tenebroso (um livro racista, por exemplo), ser bom o bastante para conquistar esse espaço é tipo sal à gosto: o tempero varia conforme o paladar.

Não me sinto confortável em fazer esse tipo de julgamento, e o blog não foi feito para mim, somente por mim. Ele é para o leitor, e o leitor é talvez o conceito mais diverso que existe. Para estar à altura do blog, só precisa ser literatura e não trazer em seu conteúdo nenhum tipo de discriminação, que pra mim, como curadora, texto discriminatório não é arte, é outra coisa bem diferente.

Me comprometi a ler o poema, nessa verificação se eu não abriria as portas do Bibliofilia para algo que o leitor bibliofílico não merece ser exposto e me deparei com um poema que na verdade é uma carta, ou uma carta que na verdade é um poema.

Confesso que entre um ou outro verso de tom mais dramático, achei em geral o poema divertidíssimo. Não muito depois recebi dois livros do autor, para futuras resenhas, tenho a sensação de que vai ser uma experiência agradável.

Mas estão na fila, e espero que o autor compreenda que a fila não é pequena e eu sou só uma. Vai chegar sua (segunda) vez. Por hora, conheçam esse peculiar poema de Marco Aurélio de Souza.



My dear friend Djami


My dear friend Djami, informo-lhe que ontem
Recebi o seu livro, devorando-o no mesmo instante.
Receio, porém, não ter nele encontrado qualquer
Vestígio de poema, ao que lhe dou notícia por supor
Tratar-se de algum equívoco ou mistake. Sim,
É o que lhe digo, não encontrei em seu livro qualquer
Lírio ou conhaque juvenil, sequer a virgindade de um
Pôr do sol no fim da linha: tudo se passa
Como se o autor destes riscos estivesse
Meio crazy meio mad meio caído
Em cânticos e rezas vazadas em um mix
De barbarismos antigos, que certamente fariam
Muito sentido em Pentecostes, mas não aqui,
Em nosso clube de odes à beleza da forma sadia.
Assim, devolvo suas obras completas, mistery Djemi,
Para que corrija esta falha com a língua
– Pois em seu livro sequer existe uma língua
E cá em meu país falamos português com
Correção, assim como se escreve às gramáticas.
Admitimos certos estrangeirismos, off course,
Mas nunca aqueles que se gestam dentro da própria
Nação, ao que lhe censuro a tendência promíscua
Pedindo encarecidamente que, em nova remessa,
Escreva-me sem fazer uso de suas próprias palavras.
Elas são suas e, como seu corpo – que neste compêndio
De elementos naturais (selvagens mesmo, eu diria),
O amigo também expôs de forma assaz indevida –,
Guarde-as para quando estiver ao chuveiro ou sozinho
Com parceirx(s) íntimx(s) que lhe deseje(m) a nudez.
Sem mais para o momento, confesso-lhe, contudo,
Que os arranhões feitos em mim por sua obra
Certamente não foram de todo o mal, e seu invólucro
De saliva aliviou-me a sede por dentro, ao que lhe peço,
Por justiça à consciência, que em sua resposta me envie
Mais destas letras cujo acento jorrando em nosso rosto
Causam este estranho fascínio ou efeito afrodisíaco
Na pressão – em que pese ausente de poemas,
O seu livro lambuzou-me nalguma forma de prazer
Desconhecido, não sei se mineral, vegetal, animal
Ou humano, mas desconfio deva ser a sensação
Daquele que mira a vulva hipnótica da Mãe Gaya
– a rainbow rising on my body, like a dream.

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Marco Aurélio de Souza é autor, entre outros, de Travessia (2017, poemas, Kotter), Anjo Voraz (2018, poemas, Benfazeja) e Os touros de Basã (2019, contos, Kotter/Patuá). Editor no selo Olaria Cartonera e na página O Pulso - decálogos sobre a poesia viva, atualmente, é doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Vive em Ponta Grossa/PR.

Foto de Celso Margraf
~Maya

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sábado, 14 de setembro de 2019

Caxias do Sul (RS): cultura em Guerra



                O ano é 2016, ano eleitoral. O candidato da situação passa com folga para o segundo turno enfrentando o até então vereador Daniel Guerra (Republicanos). Nessa altura, a gestão em atuação enfrentava uma verdadeira batalha com os artistas locais em função de um atraso de mais de 70 dias no anúncio dos projetos contemplados com a verba destinada à lei Financiarte, quando o tempo então prometido era de 30 dias após o anúncio dos projetos aprovados pelas comissões avaliadoras.

                O clima entre gestão e o segmento era tenso em especial porque a então secretária da cultura havia se licenciado do cargo para concorrer a uma cadeira do legislativo e o prefeito em atuação estava demasiadamente envolvido na campanha de seu candidato, à época, o professor Édson Néspolo.

                O centro do debate, entre os artistas, era a lei de fomento à cultura, o Financiarte, que, desde sua criação, em 2003, tem sido o maior e mais eficaz instrumento de promoção cultural da cidade. Para se ter uma ideia da importância dessa lei, passaram por ela o grupo Yangos, que concorreu ao Grammy Latino e tocou na Copa da Rússia, e a escritora Natália Polesso, que teve um de seus livros trazendo à Caxias do Sul o Jabuti, um dos mais relevantes prêmios literários do país.

                O mau andamento do Financiarte de 2016 – edital em que meu segundo romance, Histórias de Minha Morte foi contemplado – foi um dos fatores que contribuíram com a vitória de Daniel Guerra naquele segundo turno, tendo a manutenção dos valores destinados à lei como promessa de campanha. Para que se entenda, a lei, até a chegada de Guerra ao poder, previa uma destinação de no mínimo 1% e no máximo 2% da receita obtida pelo município através da arrecadação do IPTU e do ISSQN. Pelo histórico, o valor de destinação ao Financiarte via legislação até então vigente variava de 1,8 a 2 milhões, o que garantia uma média de 60 projetos aprovados em 7 segmentos da arte.

                No ano de 2016, por exemplo, mesmo com toda a confusão e os 70 dias de atraso que quase custaram a anulação do edital (e problemas cardíacos em mim, já que era o edital em que eu participava), 71 projetos foram aprovados e a verba destinada foi de R$ 2 milhões.

                Dentro da economia da cultura, um investimento desse tamanho representa um retorno imensamente maior à comunidade. Para não entrar em muitos detalhes porque isso valeria um livro inteiro para ser discutido, não apenas os projetos aprovados geram milhares de empregos e retorno em impostos (e claro, consumo dos empregados que aumentam seu poder de compras) como garantem atividades culturais gratuitas à comunidade pelo ano inteiro, já que cada artista contemplado assume um compromisso com a prefeitura de contrapartidas ao município. No caso da literatura, exemplares dos livros são distribuídos para bibliotecas e órgãos públicos, o valor de venda é mais baixo que o valor de mercado e o artista participa de ações junto à comunidade.

                Enquanto ainda aguardava o desfecho do edital de 2016, estive com o então candidato Daniel Guerra, ocasião em que o presenteei com uma antologia de escritores premiados no concurso literário promovido pela Prefeitura, expliquei resumidamente a economia da cultura e a devolução do PIB que a cultura proporciona e o lembrei que Caxias do Sul já foi Capital Nacional da Cultura exatamente por termos artistas de todos os segmentos que colocaram a cidade no mapa do mundo com suas artes. Obtive dele, olho no olho, a promessa de manter os investimentos na pasta, e soube depois que outros artistas também o procuraram nesse período.

                A própria campanha de Daniel Guerra prometia, sem meias palavras, a manutenção e o aprimoramento da lei caso fosse eleito. Bom, ele foi. O resultado, já no primeiro ano de gestão, foi devastador. De R$ 2 milhões investidos nos anos que antecederam sua chegada à prefeitura, a verba caiu para R$ 600 mil. Aí o problema era mais embaixo, porque o valor correspondia à 30% do valor mínimo que ele poderia destinar ao Financiarte segundo a lei. Ou seja: tínhamos ali um crime de responsabilidade claro e perfeitamente tipificado.

                O caminho natural para um crime de responsabilidade cometido por um membro do executivo é claro: impeachment. Por algum motivo nunca esclarecido, mesmo com crime de responsabilidade no descumprimento da lei – situação prevista pela Constituição Federal para a destituição de um governante – o pedido, protocolado e assinado por dezenas de pessoas de vários segmentos da sociedade, foi rejeitado pelo legislativo.

                Sem nenhuma intenção de cumprir a mesma lei que prometeu manter e aprimorar em campanha e próximo ao anúncio de que no ano seguinte sequer teríamos a abertura de um edital, o Prefeito conseguiu, em manobra jurídica muito bem articulada, vencer no TJ um processo para inconstitucionalidade do atrelamento da verba do Financiarte à arrecadação do município, garantindo assim não somente que ele não possa mais ser responsabilizado por não repassar os valores previstos na lei como deu a ele o poder de manipular ao seu bel prazer todo o andamento cultural da cidade. Inclusive acabar com ele, como vem acontecendo.

                Como anunciado, em 2018 não houve edital. As perdas em relação ao PIB, geração de impostos e empregos e de oferta de atrações culturais à comunidade são incalculáveis. E foi nessa situação de depredação cultural que chegamos em 2019 munidos de uma desmotivação descomunal, em especial quando se anunciou que os valores do edital iriam de R$ 2 milhões em 2016 para R$ 150 mil em 2019.

                Em junho deste ano, depois de divulgados os pouquíssimos contemplados com o Financiarte, o Jornal Pioneiro publicou uma matéria relatando que o gasto com café somente no prédio do poder executivo está muito acima do valor total destinado ao fomento cultural na cidade, cuja justificativa do prefeito é sempre a de que o valor da cultura foi retirado da pasta para outras pastas emergenciais; informação que não se confirma quando se verifica a situações e o descontentamento das outras áreas consideradas mais prioritárias, enquanto uma questionável reforma no gabinete do prefeito consumiu pelo menos R$ 50 mil segundo informação publicada no Jornal Pioneiro em julho do corrente ano.

                Mas como nem tudo são trevas e a cultura está sempre caminhando com um alvo na testa, também sempre é tempo de uma reação. É exatamente este o fenômeno que está acontecendo na cidade. Não que a “velha guarda” da cultura caxiense esteja dormindo no ponto, mas os jovens talentos, aqueles que hoje estão sentindo na pele os efeitos do destroçamento das políticas públicas de fomento à cultura em suas tentativas de iniciar uma carreira no meio, resolveram se unir.

                Foi da noção de que algo precisa ser feito que os jovens Arthur Della Giustina, Ariel Fedrizzi, Emely Polli, Nicolle Polli, Gabriel Abu Hilu e Gonçalo Duarte uniram forças e criaram o Coletivo Cerco Arte – Ser com Arte. A ideia do coletivo é justamente propor a união dos artistas em torno da causa da cultura para mostrar aos gestores que eles são, acima de tudo, funcionários públicos, e não imperadores, eles é que estão a serviço do povo e que o povo tem o direito e merece acesso à arte e à cultura.

Gabriel Abu Hilu, Nicolle Polli, Emely Polli, Ariel Fedrizzi, Arthur Della Giustina e Gonçalo Duarte - Membros do Coletivo Cerco Arte - Ser com Arte e idealizadores do evento Cerco Arte

Clara Sousa
                A primeira grande ação do coletivo aconteceu neste sábado, 14 de setembro, na praça da prefeitura. De forma humilde e até mesmo despretensiosa, o grupo construiu um varal poético com trabalhos próprios e de outros poetas como Clara Sousa, Maya Falks (eu), Nil Kremer e Dinarte Albuquerque Filho e promoveu atrações como declamações, apresentações musicais, slams e batalhas de rap.


                Segundo um dos idealizadores do evento, Arthur Della Giustina, o objetivo da ação “é criar, fomentar, defender a cultura, a liberdade de expressão, a liberdade artística na nossa cidade de Caxias do Sul, pois infelizmente essas áreas vêm sofrendo uma constante agressão pelo poder público, pelo executivo, e justamente para criar esse hábito cultural em Caxias do Sul, para que não apenas o poder público, mas os cidadãos vejam a cultura da forma como ela deve ser vista. Nós somos cultura, essa que é a verdade. Nós fomos cultura, somos cultura e vamos criar novas culturas para o bem da comunidade em que vivemos”.

Afro T.I. e AuOruo Taiara
                Os objetivos apontados por Arthur foram muito bem explorados no evento, sejam em declamações inflamadas pelos idealizadores, explorando temas sociais, ou a participação de outros artistas, como Arlindo Junior (Afro T.I.) e sua sobrinha AuOruo Taiara, cujas declamações de versos ligados às desigualdades e ao racismo arrancaram aplausos entusiasmados da plateia, que, apesar de pequena pelo clima chuvoso e pela própria falta de hábito de prestigiar eventos dessa natureza, era diverso e muito participativo.

Membros do Slam Feeling
                Depois de uma apresentação comovente de Luti Barbosa, músico de rua, que declarou ao final da primeira canção estar emocionado por ter uma plateia atenta por estar acostumado a ser ignorado tocando pelas ruas da cidade, o evento foi encerrado de forma brilhante com poesia de rua, promovido pelo Slam Feeling, com uma surpreendente batalha de rap.

                Durante os últimos movimentos do evento, os jovens organizadores distribuíram as poesias do varal, fechando a iniciativa da melhor forma possível.

Varal poético
                Obviamente nenhum dos jovens organizadores espera que a ação vá trazer mudanças reais no orçamento do Financiarte ou na maneira desastrosa como a atual gestão lidou com a questão da cultura, mas é sempre preciso começar de algum lugar. São jovens na faixa dos 20 anos, artistas já completamente conscientes da sociedade em que vivem e da responsabilidade que têm de manter viva a cultura não só na cidade, mas no mundo, já que o coletivo que eles formam é um entre milhares de movimentos de jovens artistas que estão se mobilizando.

Apresentação musical com Emely e Nicolle Polli

                Para artistas com mais tempo de estrada, como eu, como Dinarte Albuquerque Filho, como Juliano Fantin, que estiveram presentes, ou promotores de cultura como o produtor cultural Claudio Troian e a conselheira de cultura Cecília Pozza, que também integraram o evento, ver essa nova geração fazendo seus primeiros movimentos de protesto e de luta pela cultura é acalentador. É uma geração que está aprendendo cedo a usar a sua voz, uma geração que pode ter futuros líderes ou nomes de sucesso que seguirão batalhando pela cultura como sua principal bandeira.


                Talvez, para quem olhe de fora, um varal poético, declamações, apresentações musicais, slams e batalhas de rap podem parecer pouco, ineficazes, mas é o primeiro grito de uma geração que promete não ficar calada.  

Galeria de Fotos





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Maya Falks é escritora, poeta, publicitária e jornalista. Idealizadora e resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana. 
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Muito obrigada!


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Arquitetura poética

Desterro, de Camila Assad, é, sem dúvida, o livro mais peculiar que já esteve em minhas mãos. Ou pelo menos desde que comecei nessa tarefa de resenhar. A capa já mostra a que veio com a imagem de prédios em um projeto gráfico impossível de passar despercebido. As cores, as formas, a fonte usada tanto para o nome do livro quanto para autora e ilustradora - crédito para Anna Brandão - são dignas de admiração.


Aqui não posso deixar de citar Otávio Campos, o responsável pelo projeto gráfico, porque o livro da Camila, embora recheado de boa literatura, funciona como deve pelo empenho deste profissional em dar a forma necessária para que o livro dê seu recado.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro é que tanto a ficha técnica quanto o sumário estão no final do livro. Ok, isso não é inédito nem parece ter nada de extraordinário, só que nesse livro, na proposta dessa poética, terminar o livro com o que tradicionalmente é o começo já é por si só parte da poesia. O prefácio foi trocado pelo posfácio, a estrutura lírica por uma arquitetura literária que, pra mim, foi inédita.

Ao longo do livro, as relações entre poesia e arquitetura não são sutis, embora tenhamos as linhas, as esquinas, os formatos de uma cidade de forma simbólica também na construção dos versos, como mapas que contam uma história. Mas nada disso é fruto da minha genialidade, infelizmente não chego tão longe na minha capacidade de abstração do fazer poético. O causo é que o livro abre com a frase "Construir cidades significa também uma forma de escrita".

Mesmo muito curta, a frase me levou a um bom tempo de reflexão. Faz sentido. Eu mesma já caminhei pelas ruas caçando a poesia em suas formas. Por vezes uma poesia doce, quase melódica, por vezes uma poesia fétida, digna de Augusto dos Anjos, mas as esquinas contam histórias. Os prédios, as lojas, as conversas em pontos de ônibus. Tudo isso está contido nessa frase que abre o livro, já que tratamos aqui não somente de uma cidade de tijolos, concreto e barras de ferro, mas de espaços urbanos.

Camila explica a relação da arquitetura, do ser cidade, com o fazer poético magistralmente, como quando diz "Quando um palacete se transforma em um cortiço confere-se um novo significado para o território, escreve-se um novo texto".

Eu nunca tinha parado pra pensar nas semelhanças de uma edificação com a literatura. Essa frase soube expressar com precisão. As histórias dessa mesma edificação são completamente modificadas e transformadas quando os nobres que outrora habitaram o palacete o abandonam e os espaços passam a ser ocupados por famílias, muitas delas, cujas histórias de vida são absurdamente diferentes. O aspecto do palacete mudam, tudo nele muda, embora ele permaneça uma edificação de igual tamanho fixo exatamente no mesmo endereço.

Não se muda a forma, mas se muda o conteúdo. As palavras são as mesmas, o que as diferencia é o modo como o escritor vai usá-las. Metáfora brilhante. As metáforas não param por aí, a imagética de uma casa abandonada com todos os elementos do abandono relacionados com a subjetividade de uma pessoa em igual situação é de uma beleza única. Como se homem e objeto, pelo poder da dor, do sobrar, da não-humanidade, fossem capazes de entrar em simbiose.

Nessa jornada de palavra-cidade, Camila pontua a solidão do coletivo. Somos forçados a viver na coletividade, já que a cidade está sempre cheia de gente, o que não significa que não estejamos completamente sozinhos. Segue para o apontamento das coisas brutas e do falocentrismo, encontrada em qualquer espaço urbano, mostrando que mesmo sendo A cidade, o espaço urbano foi pensado masculino, até que cheguemos no ponto onde o projeto gráfico contribui para contar essa história.

Na página 19, Camila nos diz: "(as mulheres trabalhadoras não vivem propriamente o espaço público, mas o atravessam para garantir a manutenção familiar)", é a história de Tereza, que, mãe de 3 filhos, usa os espaços urbanos vendendo de tudo para alimentar as crianças. Seus trajetos são destacados por flechas, pela contabilidade do tempo no transporte público, na impossibilidade de Tereza, trabalhadora, mãe, pobre, de ir ao mar.

O que faz de uma casa uma casa é onde você se reconhece, decreta em uma poesia na página 21, ainda seguindo esse tracejado diferenciado de um projeto arquitetônico onde vamos de uma viga à um porão sem nem perceber.

Meu golpe fatal, ainda bastante antes de encontrar o ponto final, vem do "ele me diz que há trinta formas de matar um porco e eu responto que há muita solidão em qualquer esquina de qualquer cidade". Há mais de trinta formas de matar alguém de solidão. Há muita solidão em qualquer esquina. Há de se morrer de solidão mesmo sendo obrigado a viver no coletivo cheio de rostos anônimos que, como as edificações, fazem de suas expressões as paredes que impedem de enxergar o papel de parede ou que tipo de flores decoram o ambiente.

A dor vem como um golpe de cimento quando, em um de seus poemas, Camila nos diz "a leitura das mãos lhe revelou: bom esposo, três filhos, dois cachorros e um sobrado com mofo na vila madalena (próximo ao metrô, uma vaga na garagem) / raspou até sangrar as palmas no asfalto". Não é uma simples não aceitação do destino que as linhas da mão parecia impôr, mas um desencontro entre ela e a própria atmosfera da cidade.

Os textos que fecham e cidade de Camila são quadrados como edificações, embora muito bem decorados com flores ou teias de aranha.

Daria pra dizer, aproveitando as metáforas que a autora mesmo usou, que Camila construiu um livro.
Essa cidade de palavras, como qualquer outra, tem jardins e bueiros.

Um bom passeio a todos.
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Desterro
Camila Assad

Edições Macondo: Juiz de Fora, 2019
83 páginas
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Camila Assad é autora dos livros "Cumulonimbus" e "eu não consigo parar de morrer". "Desterro" foi premiada pelo ProAC/SP na categoria "Criação Literária - poesia".

~Maya
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Muito obrigada.

Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...