segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Lirismo

Ontem era dia de resenha, mas a correria dos últimos dias impediu a finalização da leitura e me forçou a uma quebra dos meus prazos auto-estipulados e cobrados por absolutamente ninguém. Mesmo assim me vejo corroer em culpa pela quebra de um ciclo que vinha funcionando com perfeição nos últimos três meses.

Cansada, doente, preocupada com o público do blog, abri os e-mails onde recebo material dos autores que querem figurar nesse espaço e fui ao material de Rafael Mendes. Não era dia de publicação de autores, mas ontem era dia de resenha e não deu, fazer o que?

Nessas horas é que o destino gosta de nos dar boas surpresas, penso eu, porque abri o material do Rafael e me deparei com versos que me abraçaram a alma. Uma mistura fascinante de doçura e revolta, desde escancarar a cafonice de uma rima pobre a preferir a rima pobre à necessidade da denúncia sobre a realidade em que vivemos.

Rafael tem um toque visceral em sua suavidade que muito me agrada. Foi um presente, para um dia como hoje, selecionar poemas de Rafael para esse espaço.


amor & dor

quantas vezes já se rimou amor e dor? a rima,
ainda que pobre de criatividade, enquanto afirmação,
ergue questionamento ou dúvida? desde a juventude
a humanidade debate a aspereza do amor.
tornou-se mais calmo como o lusco-fusco no verão,
ou ainda resultou inútil, carrega o mundo nas costas?
ainda existe amor, dor, pernas cansadas,
desvario da perda. ainda capazes de amar,
num tempo que exala ódio e barbárie.
existem heróis ou somos todos párias da passividade
diante da revolta e do amor — é tempo de silêncio.
haja amor, haja ação, a despeito do banquete
tosco cuspido das urnas, das fezes. antes rimar
amor e dor que vibrar diante da morte do irmão,
antes um rima gasta que cálice de sangue e cortes.
o amor, rio ganges maculado — ainda sagrado.
não cantaremos o medo, cabem ainda notas de amor.
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quarenta e nove

i
teus olhos verdes, meu pai
marcados por desesperança
e resignação dos fortes

diversos solavancos da vida
passaram primeiro por teus
olhos verdes, meu pai

haveria de ser verde
o filtro de tua esperança

ii

não nasci com pepitas de turmalina
penduradas nas cavidades de minha face

aprendi, ao olhar teus olhos, que o verde
transmuta entre a vida e a morte
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a sauna

pior do que a ausência do amor, a memória do amor - lygia fagundes telles

nem uma vez mostrou-me seus olhos de desejo adormecido,
nas suas costas não descansei meus lábios, não anotei o compasso de
suas falanges, seu umbigo não escondeu meus presságios de morte

quando apareceu como sonho, devaneio e embriaguez,
não foi nada mais que um pequeno aviso na parede opaca,
"o quadro está em restauração, desculpe-nos pelo transtorno";,
o espaço quase todo preenchido por obras de van gogh, tarsila, basquiat,
e meu olhar fixo e perdido na ausência de sua materialidade

me desfiz dos diários com nossos planos, das gravuras onde talhei nossos pecados,
dos jasmins que plantou no parapeito da alcova, dos temperos trazidos da índia
e do amazonas, livrei-me até do busto de santo antônio

os médicos todos exconjuraram os requerimentos escritos sob
a regência de uma febre lancinante — pedia o brilho opaco da amnésia, o desvario
libertador dos loucos. embarquei em barafundas propositais e inadvertidas,
vesti-me de quixote, viajei até as ilhas de crusoe, sorvi o caldo espesso
das vísceras de macunaíma, naufraguei naus de colombo

sempre a lembrança cintilante de nosso amor, que bem pode ter sido
alucinação e cansaço da quarta-feira de cinzas
_____________________________________

Rafael Mendes foi criado entre São Paulo e Franco da Rocha, entre a cidade e o quase interior. Reside em Dublin desde 2016. em 2018 veio sua primeira coletânea “um ensaio sobre o belo e o caos”, lançado na Europa pela editora urutau. Em outubro de 2019, terá poemas publicados na antologia “writing home: the new irish poets”, pela Dedalus Press na Irlanda. Seus poemas já foram publicados pela revista Ruído Manifesto, Revista Gueto, Literatura & Fechadura, entre outras além de rádios e saraus na irlanda.

~Maya

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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Aplausos

Assim como tantos, Moisés Spiguel se jogou na literatura depois da aposentadoria. Não só na literatura, mas nas artes como um todo, abrindo um grupo de teatro, experiência que certamente inspirou o conto enviado por ele para estrelar o post de hoje do Bibliofilia.

Embora tenha me contado que já publicou um livro com contos de humor, o texto enviado é inédito, exclusivo para os leitores do Bibliofilia, e, embora não seja de humor nem explore um tema que inspire graça, é possível perceber seu sarcasmo e inclinação para a comédia.

Fiquem agora com o conto inédito de Moisés Spiguel!

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA.

Desta vez, quando voltou, Vanderlei não parecia disposto para conversa. Mas Luis insistia. Trancados naquele cubículo minúsculo e úmido, o silêncio era pesado e opressor.
— Como é que foi hoje? Está muito machucado? Você está bem? Você falou alguma coisa?
Luis parecia mais interessado em distrair do que interpelar.
Vanderlei suspirou. Limpou com a manga o sangue que escorria da boca.
— Estou bem. Não estou com vontade de conversar. Não falei quase nada lá.
Luis pareceu surpreso.
— Puta que o pariu! Como não falou quase nada?! Quer dizer que alguma coisa você falou! Não me diga que entregou alguém!
Vanderlei permaneceu em silêncio por algum tempo. Depois, não se conteve.
— Pra você é fácil, não é? Não te levam pra lá todo dia como levam a mim!
Luis disparou.
— Eles sabem que nunca peguei em armas como você, porra! Sempre fui um simples simpatizante. Já investigaram e sabem que eu nunca tive contato com grupos armados. Me mantém aqui, não sei por que.
Vanderlei continuava abalado, mas ainda se dispôs a responder.
— É. Lembro quando você foi levado para interrogatório. Foi uma única vez. E não me pareceu nada mal quando voltou.
Luis aparentou estar ofendido
— O que você está insinuando?
Vanderlei não estava disposto a discutir.
— Nada. Só comentei. Mas porque você se interessa tanto se entreguei, ou não, alguém?
Quase sem forças, silenciou e fechou os olhos. Luis pensou que tivesse adormecido. Mas Vanderlei continuou.
— Usei o truque de sempre. Só dei nomes dos que já foram mortos pela repressão, e de outros já conhecidos pela polícia, e que sei que estão foragidos. Mas parece que já manjaram a coisa. Pararam por hoje.
— Pararam por quê? Ainda é cedo. Me parece que é pouco mais do meio-dia — estranhou Luis.
O olhar de Vanderlei ao seu companheiro de cela demonstrava quão pouco confiava nele. Mas era visível que em seu estado físico e mental, só queria ser deixado em paz para poder talvez dormir um pouco. A única maneira era responder as perguntas o mais rápido possível.
— Houve certo atrito entre o coronel e o dono da empreiteira que estava assistindo. Eu tinha desmaiado, mas logo acordei com o barulho das vozes, sem que percebessem. Estavam discutindo. Escutei o empresário dizendo: “Não pode interromper agora! Mais um pouco e ele despejaria tudo!”. O coronel tentava justificar: “Não posso deixar de ir à formatura da minha filha. Haverá entrega de canudos, discursos e um baile de gala. Se eu faltar, ela nunca me perdoará”. O empresário não se conformava: “Olha! A gente não sustenta essa merda para que vocês deixem o trabalho pra ir a festas! Alguns membros de minha diretoria já estão começando a questionar nosso envolvimento com vocês e as despesas que estão sempre aumentando”.
Perceberam então que eu tinha acordado e o coronel mandou que me levassem de volta pra cá.

Na sala de interrogatórios, a discussão continuava. O empresário não se conformava.
— Além disso, ainda é cedo. Essas cerimônias não são sempre à noite?
O coronel continuava a argumentar.
— Sim, mas eu tenho que passar no cabeleireiro para apanhar minha mulher, ir pra casa, tomar banho para limpar toda esta sujeira, fazer a barba, me vestir. Olha, doutor, prometo que amanhã começo a sessão bem cedo, e até o fim da tarde arranco tudo daquele filho da puta. Só sai daqui, morto!
O empresário já estava se acalmando. Durante o interrogatório, era visível que estava sob o efeito da adrenalina provocada pela visão das torturas e pelos gritos do prisioneiro. Nunca perdia essas sessões. Isso o deixava visivelmente mais excitado do que uma transa. Mas agora, sua fisionomia demonstrava que a sensação já estava se dissipando, e pôde se deixar convencer. Seus olhos ainda guardavam certo brilho pela promessa de um espetáculo talvez ainda mais excitante no dia seguinte. 
Resolveu acabar logo com aquilo.
— Está bem. Vou embora. Até amanhã. Amanhã venho bem cedo, viu?
O coronel suspirou aliviado.
— Até amanhã, doutor. Amanhã será outro dia.

Na cela, Vanderlei comentou.
— Pode ser que desistiram e concluíram que eu não tenho mais informações pra dar.  O coronel me pareceu propenso a desistir. Vamos ver amanhã. Quem sabe me soltem.
Luis finalmente deixou o colega descansar.
— Ta bom. Vai, dorme. Amanhã será outro dia.
Ainda puderam ouvir gritos e gemidos vindos do outro lado da parede. Já estavam acostumados.
Vanderlei, quase dormindo, conseguiu balbuciar.
— Sim. Amanhã será outro dia.

A cortina fechou. Quando voltou a abrir, palmas soaram na platéia. Os atores agradeceram, as palmas foram esvaecendo até que pararam. O público se dispersou devagar. Alguns haviam esperado um entretenimento agradável, uma comédia romântica. Outros, mistério e suspense.  Mas os rostos não aparentavam terem sido atendidos em suas expectativas. Um senhor idoso, postura ereta, com aparência de militar reformado, comentou para seu companheiro mais jovem: “Isso é coisa de comunista. Nunca houve nada disso”. Havia expressões sombrias, olhares perdidos e testas franzidas. Não pareciam ter seus espíritos elevados artisticamente, nem suas mentes enriquecidas culturalmente. Os mais jovens não se sentiam identificados com os personagens. Pareciam duvidar que algo assim pudesse ter acontecido há poucas décadas no país. Alguns dos mais velhos tentavam não pensar no passado tenebroso. Todos pareciam perturbados. Porém sabiam que algumas boas horas de sono faria com que as lembranças do que viram no palco esmorecessem. Diziam a si mesmo: “Amanhã será outro dia”.
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Nas palavras de Moisés Spiguel: Sou engenheiro civil. Fui diretor de multinacionais.  Ao me aposentar passei a participar de diversas atividades. Fui colunista durante dois anos de um portal que já fechou e montei um grupo teatral ‘Atualidade’ no qual escrevo o texto, dirijo e também atuo. Uma das peças apresentadas, ‘Noite Feliz’, foi gravada e está no YouTube

Passei a apresentar uma série de tiras de HQ no Facebook que retrata uma família de corujas.

Em 24 de julho do presente ano lancei na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo meu livro ‘Nosso homem da CIA’, à venda em diversas livrarias, contendo trinta contos na linha do humor. Atualmente comecei a escrever um novo livro.

~Maya
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A cor dessa cidade

Vivo em uma bolha onde cada vez mais poetas tiram seu trabalho da gaveta e jogam ao mundo. Vejo diariamente livros de poesia sendo publicados em pequenas e corajosas editoras, algumas sobrevivendo de atividades paralelas, outras da verba do próprio autor, que cobre os custos da publicação de seu livro. Dentro dessa bolha onde eu vivo, o consumo da poesia vem aumentando e enchendo os poetas de esperança, mas sabemos que do lado de fora a coisa é um pouco menos conto de fadas.

Tudo se resume a uma frase que ouvi de uma editora ao tentar publicar meu primeiro livro de poesias, aos 14 anos: "poesia não vende". Não parei de escrever poemas e hoje tenho dois livros do gênero publicados, mas me chamou a atenção para uma coisa: poesia até vende, mas muitas vezes o que vende na livraria é o autor com nome famoso, que a pessoa compra pra fazer bonito e não necessariamente vai ler. Na reportagem que fiz sobre esse panorama da poesia brasileira contemporânea, em que entrevistei alguns dos editores que mais investem em poesia, a informação que surgiu é que fora do grande circuito comercial, das redes de livrarias e afins, o que vende é poesia de gente que construiu um bom público por meio de participação de eventos, premiações, saraus e afins.

Qualquer das alternativas exclui poetas fora do eixo central do país - onde a maioria dos eventos acontece - e que não possuem condições financeiras para se fazer presente. A soma dos dois fatores - nomes consagrados e gente que consegue se fazer presente pra ser visto - faz com que um número gigantesco de ótimos poetas amarguem uma vida artística de invisibilidade.

Na contramão de todo esse pessimismo, um jovem poeta, que atua como dentista para sobreviver, provindo do sertão nordestino, filho de uma cidade com 17 mil habitantes e que produziu um livro em homenagem à sua cidade de forma totalmente independente foi à São Paulo, em 2018, entrar pra história. Maílson Furtado foi o primeiro autor independente da história a ganhar o Jabuti de Livro do Ano. Não só nisso fez história, mas também não é nada comum que um poeta leve esse prêmio para casa.



Do interior do Nordeste, diretamente do sertão, para o mundo. Maílson, independente de qualquer análise (que vai acontecer abaixo) já se tornou um nome a ser lembrado, pela independência de sua produção, pelo gênero literário e, principalmente, por estar fora dos dois circuitos que mais garantem vendas e premiações.

Quanto ao livro em si, porque isso era pra ser uma resenha e não uma reportagem (se fosse uma reportagem, eu estaria com um timing de quase um ano de atraso), a primeira coisa que me chamou a atenção foi a cor.

Nunca estive no sertão nordestino. Aliás, nunca estive no Nordeste, mas fora a imagem turística das belas praias e todo o estereótipo tanto negativo quanto positivo que chega aqui no sul, sempre que penso em uma cor para o interior da região, é justamente o marrom terra. O livro de Maílson e todo dessa cor, das ilustrações às palavras. É como ter, de algum jeito, um pouco do sertão nas mãos. E não deixa de ser, já que a poesia longa apresentava no livro tem exatamente esse objetivo.

Ler a terra do sertão. Temos em mãos um livro recheado de metáforas, jogos de palavras, brincadeiras fonéticas gramaticais. Uma terra composta de figuras de linguagem. E de estreia, o começo do livro se abre em musicalidade.

Não há regras na poética de Maílson. Cada pedaço de sua poesia é como manda sua vontade, sua imaginação e a terra de Varjota, a cidade homenageada por Maílson que, ironicamente, nem livraria tem. Logo em seguida, como um organismo vivo feito de pedras e terras, as ruas da cidade são convertidas em veias por onde o fluxo da vida humana passa.

Na página 10, o poeta mistura o vivo e o não-vivo como uma coisa só. Tudo o que é vivo passa, em uma tarde da rotina comum da cidade. Menos as casas. As casas permanecem paradas mesmo que o poeta as dê vida enquanto cochilam, despertam ou dormem. E dormem em pedaços, onde as luzes se apagam, a casa adormece. Maílson humaniza a casa, como se o apagar do poste, na chegada do amanhecer, fosse seu despertador, o sinal que a casa recebe da cidade para acordar.

As ruas se tornam um elemento tão importantes na poética de "À cidade" que nos damos conta que as casas - organismos não-vivos - não pertencem aos seus moradores, mas às ruas. Os moradores se deslocam, saem, voltam, mudam de endereço, enquanto as casas permanecem no mesmo lugares, imóveis, onde devem estar. Se demolidas para saírem da rua, deixam de ser casas. A casa pertence à rua, que pertence à cidade, onde o homem, esse sim organismo vivo, habita.

Nessa mesma linha temática explorada no livro, de forma metafórica, o autor também humaniza objetos que integram a rotina dos moradores da cidade. A enxada trabalha, a casa adormece, o homem tem raízes. Uma salada de frutas de figuras de linguagem que tornam todos semelhantes entre si, mesmo que o homem tenha as veias, a cidade as ruas, que funcionam exatamente da mesma maneira - bombeando vida, mantendo o corpo - e a cidade - em movimento. Como o homem que riu, o rio que respinga.

Na descrição da rotina da cidade, Maílson traz toques de homenagem à tradição oral, responsável pelas lendas que norteiam produções literárias até os dias de hoje e que, certamente, tiveram importante papel na sua construção cultural como leitor e como poeta. E como tudo é vivo na poética do autor, reclama ele que o clima desrespeita os intervalos que a cidade e os homens fazem, trazendo um retrato poético do interior.

Nos dias que seguem, o sol é sempre o mesmo a garantir a rotina. É sempre o mesmo mesmo que não pareça estar lá. E chegamos no domingo, onde tudo o que é vivo também é folga, é namoro na praça, é o rio dele rindo com seu avô enquanto o rio da cidade goteja, sempre vivo. Domingo é dia de feira também, metaforizando que de segunda à sexta também há feira, mas não a mesma feira do domingo.

O rio da cidade é da mesma água que deságua no mar, que percorre oceano, que encosta nos países de outro continente, como se sua pequena cidade sertaneja estivesse naturalmente conectada com o mundo.

Mais tarde, em sua narrativa composta de figuras de linguagem, Maílson mistura a origem do rio com sua própria genealogia. Tudo está conectado. Como o trem no trilho, que, na obra, também ganha vida, e uma vida pulsante de quem carrega homem e progresso. Já as pontes, Maílson as chama de suturas, como os pontos que unem a pele rasgada, as pontes unem o rasgo da terra.

Enquanto segue sua descrição da cidade viva, o poeta homenageia os famosos pontos de referência, que, mesmo em cidades um tanto maiores do que a sua, por vezes se tornam mais importantes aos que transitam pela cidade do que o próprio nome da rua. Quem jamais ouviu "fica na rua do mercadinho" ou "segue pela rua da farmácia"?

Já se encaminhando para o encerramento da obra, Maílson lembra de tantos que saem de suas pequenas cidades do sertão para tentar a vida nas cidades grandes, mudanças extremas que levam esses organismos vivos para longe da cidade, mas a cidade e sua vida pulsante não abandona por completo esses organismos vivos que partiram, tal qual o rio, que se desloca mas é sempre da cidade, tal qual o trem que se desloca mas sempre volta.

O poeta finaliza sua ode ao sertão e à cidade de onde veio em especial colocando-se como parte dela, como um órgão no corpo cidade, como um glóbulo que passa carregando vida pelas suas veias-ruas.

Poesia é um gênero complexo, muito mais dependente do gosto pessoal do que a prosa, muito mais fácil de ser julgada por sua qualidade ou falta de. O que me encanta, na obra, é a verdade que o trabalho de Maílson carrega. Ele não homenageia a cidade em vão, ele homenageia um amor verdadeiro, como uma poesia à sua amada, como os tradicionais poemas de amor que tanto sucesso fazem.

Maílson não nos transporta à Varjota pela descrição. Termino o livro sem fazer ideia de como é a cidade, de forma imagética, mas nos transporta via metáfora. Sei que tem vida de interior em Varjota, sei que no domingo tem feira e os jovens namoram na praça, sei que que a sesta é respeitada, que as ruas são pulsantes, que o rio deságua, que o trem passa, sei que pessoas saem de lá mas suas raízes ficam. Sei que, de forma metafórica, folheei a terra do sertão nordestino enquanto conhecia a cidade. Não necessariamente a cidade onde nasceu Maílson, mas a cidade onde as tradições são preservadas e as casas amanhecem todos os dias.
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À cidade
Maílson FurtadoViana

Produção independente. Fortaleza, 2017
60 páginas
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Maílson Furtado Viana é autor das obras Sortimentos (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014). Membro-fundador da Cia Teatral Criando Arte e membro-fundador do Grupo Literário Pescaria. O livro "À Cidade" venceu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano em 2018.

~Maya

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Pela dor

Talvez seja o caso de um estudo mais profundo, embasado, mas a poesia parece galgada sobre três pilares centrais: a ode, o amor e a dor. E a rima de amor com dor que nos acompanha desde os tempos pré-púberes.

Tem poesias cuja contundência das palavras de ordem ou a imagética do caos nos transmite a dor do tema tratado. Ou o tesão, dependendo do poeta. Tem outros que, com a simplicidade de uma folha ao vento, carregam todo o sentimento do mundo em um único verso.

E tá cheio de gente fazendo isso de forma subliminar entre palavras bonitas e um aperto no peito que vem sem a gente, o leitor desavisado, sequer perceber.

A beleza da poesia está justamente em nos tocar profundamente sem a gente sequer perceber de fato o que está acontecendo.

Conheçam agora o trabalho de Lucas Luis da Silva:

FUGIDIO
Marco-me à ferro, ferradura.
Marco-me como são marcados
os animais distraídos:
ausente de eternidade.
A cabra-burra pávida
pela altura.
Marco-me ao chão, 
cabeça-baixa,
discernindo esquinas.
Quem em sã-consciência
orbita o céu sem refletir
todo seu azul-piscina?
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CULT
as mensagens de Delfos
insurgem criptografadas
pela pitonisa digital:
devorar-se beats
um título marginal
ei-lo o culto 
código de barras
na poesia pós-m.
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BOA-NOVA
A cada um cabe sua visão de paraíso.
O Éden particular inserido ao cerne.

Rompido os versos bonitinhos
& as rimas piegas,
nenhum livro histórico herdará 
meu nome com destaque.

Amor & dor não mais siameses. 

Acumulo palavras, e serão elas,
Ozymandias, o testemunho
da minha essência,
essa decadência 
imanente.
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RUÍDO
Algumas vezes afirmaram-me ser diferente
o verso agasalhado em minha linha.
Por desconhecer reações tomo o elogio 
em mãos como um peixe.

Sonho a beleza incômoda 
de bastar-me miúdo.

Mas não sem antes desabarem sobre mim 
todas as pragas egípcias: que valor terão 
esses pobres traços em décadas?
Serei poeta apenas com a palavra
talhada em insuficiência?
Que definirá esse ruído em meio 
os ecos de Hesíodo produzidos 
aos baldes?

Nada sou que não sejam outros milhares. 
Outros melhores.

Eu homem não-título investindo
contra vida à qual sigo 
estrangeiro.

__________________________________

Lucas Luiz  nasceu em Guararema no ano de 1991. Continua em pé, embora carregue a sequela da invisibilidade. Iniciou publicando crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois poemas no site de variedades “Guararema Tem”. Redator do programa "Guararema Online" da Produz Áudio&Vídeo. Recentemente colaborou com as Revistas Literárias: Avessa, Inversos, LiteraLivre, Ser Esta, A Bacana, Subversa e Mallarmargens. Também com uma participação na Antologia “Além do céu, além da terra” da Editora Chiado. Segue sem exceder os limites do município. Ou já o fez sem que ninguém perceba.

~Maya
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sábado, 28 de setembro de 2019

Pelos cantos mais estranhos do mundo

Quando eu era mais ou menos uma pré-adolescente, comprei um exemplar de Romeu & Julieta, de Shakespeare, não por interesse na história porque todo mundo conhece a história, mas para levar para a escola e mostrar pra todo mundo que eu lia Shakespeare. O que eu não vi na hora da compra é que o livro veio em formato de roteiro de teatro. Acima de tudo, Shakespeare era dramaturgo, e na época eu sequer sabia que essa palavra existia. Não consegui ler o livro.

Passados uns 25 anos de minha pequena "tragédia" particular, chegou em minhas mãos a obra "Nos países de nomes impronunciáveis", de Paula Autran. Para além de um nome instigante e uma capa espetacular, me deu arrepios ver, logo acima do nome do livro, os dizeres "Coleção Palavras para Teatro". Socorro. Paula Autran é dramaturga, já anunciei o livro dela para resenha no Bibliofilia, e agora?

Bom, entendo vários nadas de dramaturgia, então sou absolutamente incapaz de dizer se o texto que o livro contém é o mesmo trabalhado sobre os palcos ou se foi adaptado para a publicação, só sei que, ao contrário do meu exemplar há décadas doado de Romeu & Julieta, "Nos países de nomes impronunciáveis" não é apenas fácil de ler: é uma delícia. É importante frisar que, para a análise completa da obra e seus personagens, algumas das diversas revira-voltas serão reveladas. Portanto, contém spoiler.


O resumo da ópera (ou da peça, no caso) é que temos três mulheres que arrumam as malas e saem de casa, deixando para trás somente uma carta aos que ficaram. A primeira é Kátia, uma jovem que passou a vida trancada em uma casa cheia de cadeados porque a mãe temia que a propriedade fosse invadida por bandidos. A segunda é Ocridalina, uma jovem que sente que precisa viver a liberdade antes de assumir um compromisso concreto com o namorado Henrique, mas principalmente, precisa descobrir a origem de seu nome peculiar. A terceira é Joana, uma mãe que sente que se perdeu de si mesma depois da maternidade embora esteja claro o amor que sente pelo filho.

Cada uma dessas três mulheres, distintas entre si e fugindo de relacionamentos de naturezas tão diferentes, tem motivos fortes para a necessidade que as impele à fuga. Todas as cartas, as primeiras, assumem um tom de desabafo com grande profundidade, como se a autora assumisse integralmente os sentimentos de cada uma delas ao escrever as cartas - e é o que se espera de um bom escritor.

Kátia, ao se despedir da mãe e de sua paranoia, o faz dizendo "eu sou o ladrão que, ao invés de entrar, sai. Assim não te tiro nada, mas te trago, pela ausência". Kátia sentia uma solidão profunda isolada em uma casa transformada em fortaleza, "era eu que ia lá e areava todos aqueles cadeados e tirava o pó das chaves todas". Para além disso, não apena o isolamento causado pela fortaleza, mas também pela ausência da mãe. Relembra Kátia que suas melhores lembranças de infância viveu ao lado da empregada, Maria José, e seus livros de bancas de revistas e novelas mexicanas.

Mais tarde, quando temos um adendo das três cartas, ainda descobrimos que a mãe de Kátia nem sempre se lembrava de pagar o salário da empregada. Kátia se sente dolorida, abandonada como toda criança negligenciada, mas com um agravante: ela sente, pelo foco constante da mãe na manutenção da casa sempre fortemente vedada, que, para a mãe, o bandido imaginário era mais importante do que ela, ou pelo menos era a ele destinada muito mais atenção do que a ela.

Seguimos para a carta desabafo de Ocridalina, "entenda o que as palavras não podem dizer", relata ela ao se revelar oprimida por uma relação que parece estar ficando séria demais para seus desejos de liberdade, em especial sobre um anel que representou um amor desses avassaladores; o anel que pertenceu à mãe de Henrique e seu casamento com o pai do rapaz. "Eu quero entender a coragem que sinto em mim, e que às vezes percebo que te assusta", diz ela, declarando em seguida que se assusta também, mas que precisa, como Cabral, se lançar aos mares. Aqui a referência é justamente sobre sua sabida origem portuguesa.

Ao fim da carta, Ocridalina não deixa dúvidas de que não importa o tamanho do amor, o que ela sente por Henrique não cabe nos limites dos sonhos matrimoniais do rapaz. O que impressiona nessa carta é que, ao ler, a sensação que se tem é que já se tratava de um amor esvaziado, que a fuga de Ocridalina foi, na verdade, uma tentativa de encerrar a relação. Depois da tristeza de Kátia por uma infância de clausura e de negligência da mãe, o sentimento de dor não se repete, o que se percebe aqui é quase uma desculpa para fugir da relação. A diferença entre as narradoras é gritante, são vozes destoantes cujas personalidades são expostas por alguém que tem o domínio na criação de personagens.

A terceira carta, por sua vez, é a que trouxe a maior carga dramática. Joana é mãe, sente-se envergonhada em escrever uma carta de despedida ao filho, como se confessasse um crime. Joana descreve sua despedida como uma "descarta", uma "não-carta". Em dado momento, Joana desabafa: "Você nasceu grande e eu me fiz cada vez menor do teu lado. Você aprendendo a falar e engolindo as minhas palavras".

A carta de Joana carrega em si a maior carga dramática e traz à tona um dos assuntos mais cheios de tabu que a maternidade carrega: a anulação completa de um ser humano ao tornar-se mãe. Joana ama o filho. A dor de partir e deixa-lo para trás é evidente em cada linha e quase nos estapeia as fuças. Eu, que não vivo a experiência da maternidade, pude sentir profundamente a culpa que Joana carrega pela decisão de partir.

Eis que se desdobra um debate importante - e que faz dessa carta um material riquíssimo para análises mais profundas e técnicas para quem estuda e trabalha com os desafios e imposições sociais da maternidade: Paula aqui não mede palavras, nem sobre a anulação de Joana ao se tornar mãe e deixar de ser Joana, nem sobre o quanto essa mulher anulada nutre um amor concreto e inquestionável pelo filho. Cabe múltiplas interpretações, se colocada a carta no nosso contexto social onde a mãe é uma figura de quase sacralidade (ao mesmo tempo que sofre isolamento com a proibição de crianças em vários ambientes e a polêmica sobre amamentação pública, que faz com que muitas mães sejam empurradas para fora do convívio social) e uma mulher é um ser de menor valor diante de seu papel maternal.

Joana, que descobrimos depois ser poliglota e com notável conhecimento em línguas, se sente absolutamente silenciada. "eu aprendi que o silêncio é só a outra face da mesma moeda da fala". O relato de Joana, além de todas as questões sobre maternidade que renderiam uma tese inteira, ainda tem um importante tratado sobre o silêncio. Para ela, buscar o silêncio onde ele é exigido já não lhe basta porque, poliglota, entende que o silêncio dela e de alguém que fala em inglês é idêntico.

O que ela precisa é da incapacidade de se comunicar, um silêncio de incompreensão, para resgatar a si mesma, e, por isso, decide partir para algum país cuja língua lhe seja um completo mistério. Ainda assim, no adendo de sua carta, Joana deixa ao filho, Caio, receita de lasanha de legumes para aproveitar os legumes que estão na geladeira, em uma tentativa de dar ao filho algum tipo de autonomia e a si mesma um pouco de paz.

Findadas as cartas, descobertas nossas viajantes para países de nomes impronunciáveis, vamos recebendo notícias de que fronteiras estão sendo fechadas por motivos diferentes.

Como não há uma narrativa linear por parte de Paula, em uma leitura desatenta é provável que passe despercebido esse detalhe, mas a cada notícia de fechamento de fronteira, temos a carta resposta a cada uma delas, presas em embaixadas de países com nomes impronunciáveis.

Clarice, mãe de Kátia, adquire quase um tom debochado, como se encarasse a atitude da filha como um ato de rebeldia juvenil. Ao contrário da carta de Joana - outra mãe - Clarice zomba, justifica que os cadeados eram mesmo contra ladrões e, como se diz popularmente, "faz pouco caso" do desabafo da filha, que não escondeu seu sofrimento na primeira carta.

Não há como se ter empatia por Clarice. Não há por ela o amor materno que há de Joana por Caio. Por mais que a própria sociedade no leve a entrar na pele de Kátia e sentir com ela o sofrimento do abandono (mesmo que não concreto) que a levou a sair de casa, fica ainda a sugestão de reflexão sobre a anulação completa da mulher que se torna mãe. Clarice é dona de si. O que a torna aqui alvo de crítica - e essa sim, válida - é que Clarice é uma dona de si com ar de arrogância que tentou, inclusive, tirar da filha sua única lembrança boa da infância, e que esquece de pagar o salário da empregada como se a única coisa que realmente importasse, além de si mesma, fosse defender sua propriedade. Mesmo que alegue tentativa de proteger a filha, ali o que vale ainda é a ideia de propriedade.

Depois da próxima notícia que nos situa na prisão de Ocridalina em uma embaixada, a resposta de Henrique muda toda a imagem criada pela carta dela sobre a relação dos dois. Não se trata de uma moça indisposta a se manter na relação dos sonhos do namorado, tradicional, com o anel símbolo do amor eterno e verdadeiro. Henrique tampouco está interessado em uma relação dessa natureza. Inclusive está furioso que Ocridalina deixou a chave com o porteiro.

Nessa segunda carta resposta, nos deparamos com uma história que completa o quadro de uma forma basicamente oposta à esperada pela carta deixada pela moça. Foi um choque me deparar com uma carta seca, com um tom raivoso, e não um namorado choroso implorando pelo retorno da namorada. Uma grata surpresa, aliás, uma quebra completa de expetativa. 

Já caio, filho de Joana, se revela um rapaz que, mesmo adulto, se viu completamente perdido com a ausência da mãe, e nos revela surpreso ao ver uma filóloga, "tradutora das Mil e Uma Noites, uma mulher reconhecida e premiada pela potência de sua fala em quase uma dezena de línguas ter sido presa pelo que eles chamaram de: 'falta de comunicação'". As informações reveladas por Caio em sua carta dão uma dimensão ainda maior do drama relatado por Joana em sua despedida. Uma mulher que trabalha, vive e é reconhecida por sua fala sente que perdeu a voz.

Antes de um desfecho - e aqui encerram-se os spoilers - o resto recomendo a leitura do livro porque novas surpresas virão - ainda temos a notícia da abertura das fronteiras com a possibilidade de volta para a casa das três mulheres e os depoimentos de Maria José - empregada de Clarice - Jaílson, o porteiro no prédio de Henrique, e Marcinha, namorada de Caio. A partir daí as cartas são substituídas por bilhetes

A abertura das fronteiras poderia representar, de forma simbólica, um retorno ao ponto de origem sem uma solução concreta dos fatos que levaram as três mulheres a terminar em países de nomes impronunciáveis. Como prometido, encerrados os spoilers, não posso seguir adiante relatando os fatos do livro, então me atenho a uma última análise de tudo o que nos é apresentado nesse pequeno livro.

Temos três mulheres que vivem três tipos de relações arruinadas: a mulher negligenciada pela mãe, a mulher que vive uma relação fracassada com o namorado e a mulher que se percebe completamente anulada em sua relação com o filho. O desfecho da obra, tanto os bilhetes de um lado quanto de outro deixam a falência dessas relações ainda mais nítidas e dramáticas, embora em momento algum a obra apresente um tom lamuriento ou piegas.

Paula Autran nos apresenta um livro que, mesmo com temas tão sérios, é uma leitura leve e cativante, além de escancarar sua imensa habilidade na construção de personalidade dos personagens, já que temos Kátia, Clarice, Ocriadlina, Henrique, Joana, Caio, Maria José, Jaílson e Marcinha não apenas como personagens da trama, mas como narradores, os 6 primeiros de forma mais contundentes e os últimos três de forma mais rápida, nos depoimentos. 6 narradores principais com uma personalidade bem definida não é uma tarefa fácil, exige treino, experiência e trabalho.

Como disse no começo do texto, não sei se o livro está no formato de dramaturgia, mas, mesmo identificado como texto de teatro e mesmo sendo sua autora uma dramaturga, trata-se de uma peça de ficção de indiscutível qualidade. É um livro em formato de bolso, de 87 páginas, inteiro no formato de cartas, bilhetes, depoimentos e pequenas notícias, mas que construiu com maestria três tipos de relações falidas, abrangendo um enorme campo simbólico sobre cada personagem e sua personalidade. É um feito louvável, em especial se fizermos um paralelo entre as duas mães e suas visões sobre a maternidade. Renderia um excelente debate.
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Nos países de nomes impronunciáveis
Paula Autran

Patuá: São Paulo, 2014
87 páginas
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Paula Autran é mestre (e doutoranda) em artes cênicas pela ECA/USP. É formada em história (USP) e jornalismo (PUC). Tem seis livros publicados, entre eles o livro de poemas Manifesto de mim mesma (editora Patuá). Teve sete peças encenadas. Integrou o Núcleo de Dramaturgia do CPT, de Antunes Filho, e o workshop do Royal Court Theatre. Também ministra aulas de dramaturgia.


~Maya


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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

De palavras e vozes - o talento de Arthur

Conheci Arthur na praça central da cidade em uma ação pelo dia da poesia, no início do ano. Apesar da altura e da imponência, Arthur ainda é um garoto. Quando ele me enviou sua biografia, brincamos com o fato de que ele nasceu no meu segundo ano da primeira graduação. Coincidentemente, Arthur prestigiou a apresentação do meu TCC na segunda graduação.

Sem nenhuma publicação (ainda), Arthur já impressiona pelo currículo, pela participação ativa em eventos e iniciativas culturais e por ser membro e um dos idealizadores do Coletivo Cerco Arte - Ser com Arte, um grupo de jovens escritores engajado na causa cultural, falei deles aqui.

Entretanto, além do trabalho poético e do engajamento em políticas culturais, o jovem Arthur também é um declamador de primeira categoria. Já solicitei que ele me enviasse uma declamação em vídeo para enriquecer ainda mais o conteúdo do blog, espero que ele o faça rápido (isso é uma intimação, Arthur!).

Enquanto suas declamações ainda não estão disponíveis para o público Bibliofilia, ficamos com um de seus poemas, escolhido por ele mesmo. Boa leitura!

cânticos abstratos para um amor inominável

I
Evoco teu nome
cometa de carne humana
me leva para as estrelas
me foge de tudo
me deseja com teus lábios cadentes
só corre
não olha para trás
vamos morrer no espaço
abraçados
longe de tudo
pertinho do planeta a-marte
combustão sideral
amor galáctico e molhado
ciência da nossa indecência
clemência
universo-paixão

II
como me fere
as unhas compridas
ferinas da palavra desamor
ex-amor
nunca amor
por tanto que ardo
venero
idolatro essa figura
noturna
mistério
baú
manhã cinza
sândalo da minha narina
que é meu medo também
faca
babaca
esse sentimento
de acabar te afastando
matando meu mundano
por tanto te querer


III
lua
quem me dera a pele fosse nua
sem pudor
crua
amizade não fosse desculpa pra não beijar
amar sem receios
abaixo pesadelos
olhos
preconceitos
tomar pedaços de escuro
no escuro
ou na luz do dia
vadia
se eu gritasse mais
falasse sem dó
seria tão feliz
tão livre
cantando ao sol lá si
e a lua safada como riria
por estar sem roupa
e não dar a mínima

IV
ama
ama-me
amor
amante
amado
amando
amém

V
socorro
meu maior medo
a flor vai morrer
secar na primavera
quanto mais passam os dias
mais longe de mim
menos vida
menos espera
chega a tempestade
caminhando em linha torta
em rota de cravos engomados
desalinhada
tosca
espinhenta
sem o mesmo cuidado
nenhum coração
aa
socorro
a luz vai sufocar
o amor vai acabar
fotossíntesereversa
teu fogo apaga
e o meu só cresce
mais
mais

VI
quero beber hidromel
leite condensado
beijar ardente
e vodka
veneno
que tal
não deve fazer tão mal
para quem já está bêbado assim
de vida
de prazer
como me dói em dizer
que guardo tudo isso comigo
tudo
toda essa vontade
todo esse desejo que tenho de você
por quê
porque mundo
por quê

VII
uma vez uma estrelinha
pousou na minha cabeceira
que coceira que me deu
ela me contou
de um mundo mais contente
que toda gente era feita de biscoito
chiclete
bala
não tinham cor, nem sexo e nem cara
por isso sabiam o que era amar
perguntei que terra era essa
se era distante
achava que era
mas não era
ficava escondida no fundo
profundo
mundo submundo do meu coração

VIII
nunca pensei que gostaria do espelho
me espelhando em alguém
que gostaria de tocar nesse espelho
afagando a mim também
quem sou
quem é aquele que quer quem
te quero bem
demais
meu amor de espelho que só os cegos veem
sem dono
sem reflexo
só meu de mais ninguém
como eu te amo
meu eu em outro alguém

IX
nome de arcanjo
pelos negros do diabo
se estou apaixonado não tenho mais volta
quero dar meu fogo
arrancar todo céu
profanar o arcanjo bebendo samael
as palavras são fortes
porque sinto e não posso sentir
testemunho de enxofre
monólogo satã
perdão pelo egoísmo
meu amor que exorcizo sem nunca querer

X
paixão
quero dar um beijo
sair correndo
voando pelas nuvens uma a uma
pluft
vulp
só pra ver a reação
sentir gosto doce
glicose
boca de algodão
macia
mia
essência chupa-cabra
mais chupa
menos cabra
macabra
desculpa perguntar
mas esse açúcar
é só em cima
ou embaixo também

XI
entra
seja bem-vindo ao sonho
disforme
aquoso
banheira de espuma com sais
encontro de cabeças
peles encostadas
fala baixa
assanhada
carícias
sussurrando
devagar
calma
mais devagar
sem pressa pra acabar
sorriso de vez em quando
leve malicia
nossa
estou sonhando
delírio
apenas sonhando e nada mais
maldição

XII
sim
abandono meu mar
sufoco a vela
mas não desnudo nunca a alma
por ser taurino
ascendente em gêmeos
meio feminino
por tanto querer na cama um "me ama"
amor irracional
essência animal
sem tempo a perder
faço
cada traço
teu braço
amo loucamente
sou mesmo demente
vulcão-carente
por você seco o mar e morro de sede
apago a vela e fico nas trevas
agora a alma eu não largo
por ser tudo que tenho e quase ninguém

_______________________

Arthur Campagnolo Della Giustina, nascido em Caxias do Sul – RS no ano de 2001, é cronista, poeta, ativista e músico caxiense. Possui participações em antologias, portais de notícias e revistas digitais pelo Brasil. Membro do Movimento Aldravianista Caxiense. Atua como trovador e Vice-Presidente de Cultura da UBT – Seção Caxias do Sul na gestão 2019/2020. Responsável pela organização de eventos e diversos projetos de caráter litero-cultural no município. Idealizador da SGJE - Sociedade Gaúcha de Jovens Escritores no ano de 2019. Membro-fundador dos coletivos "Grupo Sabiá" e "Cerco Arte - Ser com Arte", que têm por objetivo criar, fomentar e valorizar um diálogo constante entre os diversos segmentos culturais na sociedade em que estão inseridos. Acadêmico Correspondente na cadeira n°2 da Academia de Letras Machado de Assis (ALMA) em Porto Alegre. Premiado em diversos concursos literários, indicado no ano de 2019 ao Troféu Machado de Assis por "Expressão Literária" em Itabira, Minas Gerais.

~Maya


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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Entre trevas – arte e censura lado a lado outra vez


Todo artista, ou entusiasta de qualquer tipo de arte entende que vivemos tempos obscuros. Os exemplos são jogados sobre nossas fuças quase que diariamente e sempre dividem as opiniões entre os que seguem nas trincheiras pela nossa liberdade artística e de expressão e aqueles que repetem ad infinitum o argumento de que artista é tudo vagabundo.

Os ataques, por óbvio, não são de hoje. Toda ascensão de governos autoritários carrega duas vertentes centrais de limitação do acesso ao conhecimento pelo povo: a educação e a arte. Não à toa que em qualquer regime dessa natureza professores são vigiados, currículos escolares alterados e artistas censurados. Exemplos pipocam pelo mundo – talvez o mais icônico seja a queima de livros pelo regime Nazista.

Educação e cultura não são dois lados da mesma moeda – até porque isso os faria opostos – mas duas moedas de igual valor no combate à ignorância e na criação do pensamento crítico. Por isso os programas de incentivo à leitura desde a infância são fundamentais (aqui cito a literatura por ser o foco deste blog), por isso professores que vão além do “be-a-bá” são considerados perigosos e artistas tratados como verdadeiros marginais.

O bombardeio contra a cultura já vinha se desenhando há algum tempo, antes de mudanças concretas na estrutura do poder (mudanças de presidente, um no meio de uma gestão e outro via eleição), quando os famosos boots começaram a espalhar mentiras sobre a Lei Rouanet. Lembro-me com clareza que, quando surgiram em grande volume fake News manipulando a opinião pública contra a Lei, muitos de nós (por nós, aqui me coloco como artista) já tínhamos entendido que não era uma situação isolada. A demonização da Lei através da mentira e desinformação foi um passo importante para um novo processo de isolamento e desprezo dos artistas como uma classe.

Por isso que, mesmo que nos seja assustador, os atos de censura que testemunhamos atualmente não nos pegaram de surpresa. A ideia de que o cidadão de bem estava pagando para sustentar vagabundo que expõe pornografia a crianças se tornou tão comum que é usado mesmo quando a arte não possui pornografia e quando o público da arte não é infantil.

Citando uma situação bem particular de censura que não gerou nenhum tipo de barulho, no ano de 2017 lancei meu segundo romance, Histórias de Minha Morte, cuja protagonista e narradora é uma mulher negra e periférica. O livro foi aprovado em edital público de fomento à cultura e, em minha cidade, é tradição que os livros lançados por esse edital sejam trabalhados nas escolas para que os estudantes tenham acesso aos artistas locais, tanto pela obra quanto pela possibilidade de presença do artista junto aos estudantes. O livro em questão não é uma leitura leve; contém violências de várias naturezas, mas propõe debates importantes como racismo, estupro, relacionamentos abusivos e transtornos psiquiátricos.



Por óbvio não esperava que a obra fosse trabalhada com crianças ou jovens de 12, 13 anos, mas adolescentes na faixa dos 15, 16 anos já estariam aptos a trabalhar o livro. Para minha surpresa, o livro foi barrado nas escolas. Nas públicas, a justificativa foi que o livro era muito “pesado” para adolescentes, nas particulares o que pesou foi o medo da reação dos pais, um patrulhamento ideológico já em andamento, mesmo que o livro – uma ficção – discuta temas sociais que envolvem seres humanos de qualquer espectro político.

Claro que meu livro é um exemplo muito pequeno, muito local. Talvez o leitor mais desavisado não compreenda que essa “inocente” proibição é parte de algo muito maior, até porque alguns dos casos de maior repercussão dos últimos tempos em temos de cerceamento da liberdade artística usam o mesmo argumento de proteção à criança. Aliás, não só artístico, mas educacional também.
Entre os mais icônicos testemunhados esse ano está a censura a uma revista em quadrinhos na Bienal do Rio de Janeiro por conter uma ilustração de um beijo entre um casal gay. Mesmo que a revista não estivesse sendo comercializada para o público infantil, e mesmo que ilustrações com beijos entre casais héteros jamais tenham sofrido retaliações quando disponíveis às crianças, a proteção contra uma suposta sexualização da infância se tornou a justificativa de muitos a um ato que não tem outro nome que não homofobia e censura.

Foi na contramão dessa ação que um famoso youtuber realizou certamente o ato mais caro em termos financeiros, adquirindo 14 mil exemplares de livros de temática LGBT para distribuição gratuita no evento. Como vivemos em tempos de extremos, o youtuber passou a receber ameaças de morte.
Nesse mesmo sentido, vítima de ação de um poder público que se orgulha de desconhecer a arte e suas funções – e talvez por isso a despreze tanto – a poeta Angélica Freitas teve seu livro “Um útero é do tamanho de um punho” como alvo de um pedido de moção de repúdio na Câmara dos Deputados, em Santa Catarina, depois de adotado no vestibular de duas universidades. Outra autora, Natália Polesso, já havia sentido o peso da total falta de senso de interpretação artística quando parte de um conto seu esteve presente na prova do ENEM.

O caso de Angélica foi emblemático, porque o que tornou o livro da poeta objeto de repúdio na moção foi a citação do útero, como se falar de partes da anatomia fosse algo abjeto por si só, desprezível, que deva ser escondido da sociedade e dos jovens de 17 anos. O que há de imoral ou criminoso em se citar um órgão característico da anatomia feminina de forma poética a um público que deve saber que este órgão existe e como funciona? Deveríamos também amoralizar a anatomia humana nos estudos de biologia para “proteger nossas crianças”?


Não é o foco do presente texto, mas sabemos que a proteção à infância fica só no campo das artes. Vi, incrédula, cidadãos elogiando o governador carioca pela ação policial que causou a morte de uma criança de 8 anos. Agatha devia ser protegida da exposição a um casal gay ou à descrição de um útero, mas não da bala que custou sua vida?

Muitas outras questões se misturam quando o tema é censura. Mesmo quando não existe de fato uma censura – ou provém de uma fonte sem tal poder – o cerceamento das artes encontra respaldo onde menos se esperaria, que é dentro da própria classe artística. Exemplos igualmente não faltam, com uma onda de artistas conservadores dispostos a puxar o tapete do colega sabe-se lá porquê. No período da ditadura artistas famosos se aliaram ao regime delatando colegas e hoje, se os métodos de repressão retornarem com o mesmo formato da época, não faltarão artistas dispostos a fazer o mesmo.

Até esse humilde blog, que hoje completa 3 meses de existência, conta com poucas visitações em termos gerais, já recebeu sua pitada de silenciamento. Chegou aos meus ouvidos uma crítica feita por uma pessoa da mesma classe que defendo e divulgo nessas paragens de que o trabalho aqui realizado possui baixa qualidade analítica e falta de ética pela ausência de um diploma de Letras em meu Lattes. O que surpreende não é a crítica de uma baixa qualidade analítica, opiniões são sempre muito particulares, o que me chocou de fato foi a acusação de falta de ética por eu ousar criar um projeto de divulgação da literatura através de exposição do trabalho alheio e resenhas de minha autoria sob a justificativa de uma suposta falta de qualificação acadêmica.

Não me falta. A graduação em jornalismo, cujo diploma expus orgulhosamente nas redes sociais na ocasião de minha formatura, me autoriza formalmente a me tornar uma resenhista, a resenha integra o escopo de minha formação acadêmica, a minha vida inteira dedicada à literatura me confere a ética de falar sobre aquilo que mais entendo. O momento obscuro que vivemos de um retorno nada sutil da censura contra as artes me impele a criar mais um espaço de resistência, abrindo as portas aos autores e editoras que estão todos com a corda no pescoço. Embora a crítica não cite o blog ou meu nome, cita em aspas palavras minhas e meu recente ingresso no curso de Letras, e chegou a mim por várias fontes que reconheceram, nas palavras do emissor, o óbvio alvo da crítica.

Um caso isolado, isoladíssimo diante do apoio inconteste que o blog recebe de autores, editoras e leitores. O mesmo não acontece com a atriz que já virou um ícone da nossa cultura, Fernanda Montenegro. Prestes a completar 90 anos, a atriz foi capa da revista Quatro Cinco Um em ocasião do lançamento de sua biografia pela Companhia das Letras (inclusive quero), onde, entre outras fotos de um ensaio fotográfico cheio de referências artísticas, Fernanda aparece “amarrada” sobre um monte de livros em claríssima alusão às fogueiras medievais.

Mariana Maltoni - Revista Fórum

Fernanda viveu na pele a repressão da Ditadura Militar, não somente pelas censuras aos textos das peças que encenava, que variavam de local para local obrigando elenco a readaptar as peças frequentemente conforme as vontades e interpretações dos censores, mas também as violências e o medo. A própria atriz relatou, para a revista Pragmatismo Político em 2014, que em uma determinada situação, o elenco inteiro de uma peça foi espancado dentro do teatro por um grupo intitulado “Comando de Caça aos Comunistas”. Em outra, ela foi diretamente ameaçada de morte, quando a informaram que levaria um tiro na testa se subisse ao palco. Apesar do medo, ela subiu. Em outro dia, neste mesmo período, atiraram contra a janela do quarto onde ela e o marido dormiam hospedados na casa de um colega. A bala, por sorte, se alojou no teto e ninguém saiu ferido.

Mais do que ninguém, Fernanda Montenegro conhece bem os meandres da censura. E foi justamente por não ter medo dela, com a mesma coragem que sobreviveu à Ditadura, que Fernanda se manifestou contra os atos recentes. Claro que a polêmica estava plantada, e um de seus mais agressivos críticos foi um colega. Diretor de teatro, o colega em questão chamou Fernanda de “sórdida” e atribuiu a uma revista especializada em literatura o rótulo de “revista de esquerda”. Seria óbvio pensar que uma revista de literatura não apoiaria nenhuma forma de censura, mas vemos que dentro da própria classe artística a ideia do cerceamento, do silenciamento e da retirada de direitos sobre o fazer arte estão presentes, hora de forma sutil, hora de forma escancarada, e escandalosa.

As palavras do Diretor de teatro, galgado a alto cargo no governo por seu posicionamento político declarado abertamente, ganharam eco e hoje vemos uma senhora de quase 90 anos e um irretocável histórico de contribuição artística pelo país ser covardemente atacada por fazer uso daquilo que é nosso por direito: a voz.

Não existem fórmulas mágicas. A arte sobreviveu a todas as formas de repressão porque é, antes de tudo, resistência. Agora não será diferente.

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Maya Falks é escritora, poeta, publicitária, jornalista e acadêmica de Letras. Idealizadora e resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana. 





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Finaleira

Esse é o último post desse blog. CALMA, NÃO PRECISA DESMAIAR! Não, o Bibliofilia não acabou! O causo é que no finalzinho de outubro, mais...